Copa do Mundo

A Copa de 2018 será dos veteranos, com recorde de “vovôs” e marcas históricas

A Copa do Mundo costuma ser tratada como o ápice da carreira por qualquer jogador. No entanto, ela também pode marcar um desfecho glorioso, no maior dos palcos. E não serão poucos os veteranos que terão a chance de brilhar nos gramados da Rússia. Ao todo, 22 “masters” de 35 anos ou mais fazem parte das convocações finais, divulgadas nesta segunda-feira. É um novo recorde na história da competição. Antes, os Mundiais de 2010 e de 2006 haviam oferecido 21 “vovôs”. Além disso, há um salto claro em relação aos 16 medalhões acima dos 35 que estiveram no Brasil em 2014. Número expressivo que, claro, guarda muitas boas histórias – e uma pena que Gianluigi Buffon acabe não sendo uma delas.

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A referência óbvia ao se falar sobre os senhores da Copa de 2018 é Essam El-Hadary. O goleiro do Egito se coloca como o único convocado a ser quarentão. Mais do que isso, passou bastante da barreira dos 4.0: são 45 anos nas costas do ídolo histórico dos Faraós, que continua atuando em alto nível, como se viu na última Copa Africana de Nações ou nas Eliminatórias do Mundial. Titular no time de Héctor Cúper, precisará apenas entrar em campo para bater o recorde de longevidade na competição. Se Roger Milla permaneceu por 20 anos como o mais velho a atuar em uma Copa, a marca havia ficado com o colombiano Faryd Mondragón depois de 2014. A não ser que aconteça algum imprevisto, El-Hadary arrebatará a façanha. E, em tom de brincadeira, promete que ainda tem energia para estar também no Catar em 2022. Nunca duvide…

O segundo mais velho da Copa de 2018 é Rafa Márquez. Um decano que, aos 39 anos, também desfrutará do seu recorde. O zagueiro disputará seu quinto Mundial. Iguala a marca de Antonio Carbajal, Lothar Matthäus e Gianluigi Buffon. Enquanto o goleiro mexicano sustentou a quantia isoladamente por 32 anos, a partir de 1966, o alemão e o italiano logo se sucederam. Rafa, aliás, tem um diferencial: em todas as quatro Copas anteriores, ele apareceu como capitão. Resta saber quanto tempo terá em campo para também portar a braçadeira na Rússia. O beque soma 16 partidas na competição, sempre limitado pelas campanhas mexicanas que se encerram nas oitavas de final. O Mundial será o último ato de sua carreira. No final da temporada, já se despediu com honras do Atlas, clube onde havia iniciado a carreira.

Dos jogadores de 35 anos ou mais, apenas dois se aproximam de Rafa Márquez no número de Copas. Tim Cahill e Pepe Reina vão ao seu quarto Mundial – com o curioso detalhe que o goleiro espanhol só entrou em campo uma vez, justamente encarando os australianos em 2014, quando o atacante estava suspenso. No entanto, há outros seis atletas que, em 2018, também disputarão a sua quarta Copa do Mundo – Andrés Guardado, Andrés Iniesta, Cristiano Ronaldo, Javier Mascherano, Lionel Messi e Valon Behrami.

Pode até parecer curioso, mas vários dos veteranos “sobre 35” estarão indo à primeira Copa. O caso mais peculiar é o do Panamá. No inédito Mundial, a Maré Vermelha levará quatro jogadores com 35 anos de idade ou mais. Todos eles, importantes dentro da rotação principal do elenco: o goleiro Jaime Penedo, o zagueiro Felipe Baloy e os atacantes Luis Tejada e Blás Pérez. Mostra bem como esta era realmente a última oportunidade à melhor geração que os panamenhos já viram. É um caso parecido com os islandeses Kári Árnasson e Ólafur Skúlason, que se agarram à provável última chance da carreira.

Vale mencionar ainda os veteranos que viram a Copa do Mundo escapar em outras ocasiões, mas agora aproveitam a chance tardia. Michael Krohn-Dehli é convocado pela Dinamarca desde 2006, mas perdeu o bonde quando o time conquistou a classificação em 2010. Brad Jones, por sua vez, faz parte da seleção australiana desde 2004 e, mesmo disputando quatro competições internacionais anteriormente, nunca participou de um Mundial – embora um drama familiar o tenha levado a abandonar a concentração na África do Sul em 2010. E há a história particular de Willy Caballero. Parte das seleções de base, o argentino foi reserva na Copa das Confederações de 2005. Só voltou a ser convocado em 2014, enquanto sua estreia pela Albiceleste aconteceu em março de 2018, aos 36 anos. Mesmo em sua primeira Copa, tem chances de assumir a titularidade com Jorge Sampaoli.

E não seria surpresa se o número de 22 jogadores com 35 anos ou mais fosse superado em breve, independentemente do aumento no número de seleções a partir de 2026. Olhando para as Copas anteriores, há diferentes fases na curva. De 1930 a 1938, foram apenas dois jogadores nesta faixa etária. Já depois da Copa de 1950, um compreensível momento de renovação, o número manteve certa média de 1954 a 1966. Até que os veteranos minguassem nos anos 1970, talvez um reflexo da valorização da força naquele período histórico. O aumento no número de seleções ajudou a alavancar os decanos a partir de 1982, chegando ao ápice em 1994. Então, com o Mundial de 32 equipes, os “sobre 35” giram ao redor dos 20.

Analisando os números, há claramente uma influência direta da medicina esportiva, que garante carreiras mais duradouras a um número amplo de atletas, assim como do inchaço das Copas infla as quantidades. Ainda assim, vale ressaltar o peso que os países pequenos têm nisso. Nações menos populosas possuem um escopo menor em suas convocações, e se torna natural recorrer aos mais rodados. A preponderância de alguns países nesta lista não parece meramente casual.

Abaixo, um breve perfil dos vovôs que buscarão o último (ou mais um) brilho na Rússia:

Martín Silva (Goleiro, 35 anos, Uruguai) – O goleiro do Vasco pode esquentar banco para Fernando Muslera, mas tem grande experiência mundialista. Vai à sua terceira Copa, depois de viver as emoções de 2010 e 2014. Também fez parte da equipe campeã da Copa América em 2011.

Pepe (Defensor, 35 anos, Portugal) – Esteio na seleção portuguesa há tantos anos, o alagoano passou a integrar o elenco a partir de 2007. Foram duas Copas do Mundo e uma campanha sensacional na Euro 2016, quando terminou como protagonista. Segue em bom nível com o Besiktas.

Pepe Reina (Goleiro, 35 anos, Espanha) – Sabe aquele cara bom de grupo? Este é Pepe Reina. O goleiro foi um elemento importante na união da Roja em meio às disputas entre Barcelona e Real Madrid, assim como virou um “mestre de cerimônias”. Se o nível continua alto, no Napoli, bora para a Rússia.

Michael Krohn-Dehli (Meio-campista, 35 anos, Dinamarca) – O meio-campista ganhou projeção internacional realmente durante os últimos anos, já rodado, quando despontou no Celta e se transferiu ao Sevilla. Com 12 anos de seleção, vai à primeira Copa.

Kári Árnasson (Defensor, 35 anos, Islândia) – O zagueiro fez parte do período de vacas magras da Islândia, convocado a partir de 2005. Com uma carreira nomádica em clubes, soma 65 partidas pela seleção. Responsável por anular Cristiano Ronaldo na Euro, foi importante também nas Eliminatórias, com dois gols anotados.

Ólafur Skúlason (Defensor, 35 anos, Islândia) – Um pouco menos experimentado que Árnasson na seleção, o lateral / meio-campista passou pelos processos formativos na base e estreou pelo time principal em 2009. Com 54 partidas pela Islândia, esteve na Euro 2016.

Alfredo Talavera (Goleiro, 35 anos, México) – Ídolo do Toluca, com quase dez anos de clube, tem seu trabalho reconhecido pela seleção desde 2011. Participou de todas as competições internacionais a partir de então, majoritariamente como reserva. Veio ao Brasil em 2014.

Eiji Kawashima (Goleiro, 35 anos, Japão) – Kawashima está distante de alcançar os 116 jogos de Kawaguchi, somando atualmente 83 aparições pelo Japão, mas é um digno herdeiro na meta nipônica. O arqueiro do Metz possui uma carreira respeitável na Europa e vai à sua terceira Copa.

Bruno Alves (Defensor, 36 anos, Portugal) – Outro com raízes brasileiras que se dá bem em Portugal há anos. O zagueiro estreou no time principal juntamente com Pepe, em 2007, e permaneceu como uma das referências na defesa. Será a terceira Copa no currículo do veterano, atualmente no Rangers.

Beto (Goleiro, 36 anos, Portugal) – Outro medalhão de Portugal, Beto é convocado desde 2009, quando chegou ao Porto, após defender vários pequenos. Garantiu o seu lugar nas duas últimas Copas e até entrou em 2014, quando Rui Patrício se lesionou. Depois de longa passagem pelo Sevilla, está no Göztepe.

Brad Jones (Goleiro, 36 anos, Austrália) – Era difícil fazer sombra a Mark Schwarzer, seu mentor. Ainda assim, Jones sempre foi visto como uma boa opção à meta australiana. Chegou a ser convocado à Copa de 2010, mas, quando já estava concentrado na África do Sul, descobriu que seu filho estava com leucemia. Deixou o grupo, com toda a compreensão da federação. Ganha a nova oportunidade após se tornar importante ao Feyenoord campeão.

Willy Caballero (Goleiro, 36 anos, Argentina) – É engraçado notar como o goleiro promissor da base do Boca Juniors teve caminhos particulares na carreira. Por anos defendeu a meta do Elche, sem tanta projeção. O reconhecimento maior veio nos tempos de Málaga. E partindo à Inglaterra, como reserva em Manchester City e Chelsea, é que estreou pela seleção e vai à Copa.

Jaime Penedo (Goleiro, 36 anos, Panamá) – São 130 partidas na seleção panamenha. O goleiro faz parte da Maré Vermelha desde 2003, em carreira que teve momentos relevantes no Los Angeles Galaxy e no Dínamo Bucareste. Permanece como um dos bastiões do time.

Luis Tejada (Atacante, 36 anos, Panamá) – Outro panamenho longevo, Tejada passou das 100 partidas pela seleção e soma 43 gols. Ao longo de sua carreira, percorreu as Américas dos Estados Unidos ao Peru, com estadia longa na Colômbia. Atualmente veste a camisa do Sport Boys.

Patrick Pemberton (Goleiro, 36 anos, Costa Rica) – O reserva de Keylor Navas é um dos grandes ídolos do Alajuelense, time importante de seu país. Convocado desde 2010, foi reserva na Copa de 2014. São 34 partidas pelos Ticos neste intervalo.

José de Jesús Corona (Goleiro, 37 anos, México) – O camisa 1 do México tem menos cartaz do que merece, porque é um ótimo goleiro. Já são 13 anos de seleção, com 52 partidas disputadas e duas Copas anteriores, em 2006 e 2014. Pesa a concorrência com Ochoa. Desfruta de moral imenso no Cruz Azul.

Blás Pérez (Atacante, 37 anos, Panamá) – Quem tem memória boa certamente se lembra do atacante que arrebentou com a camisa do Cúcuta na Libertadores durante a década passada. Com experiência em oito países diferentes das Américas, joga agora no guatemalteco Municipal. São 113 jogos e 43 gols pelo Panamá.

Felipe Baloy (Defensor, 37 anos, Panamá) – Certamente nenhum gremista esperava o momento vivido pelo zagueiro que passou pelo clube entre 2003 e 2004 – e que ainda teve uma estadia frustrada no Atlético-PR. Capitão da seleção, viveu seu auge entre Monterrey e Santos Laguna. Vai à Rússia como atleta do Municipal.

Sergei Ignashevich (Defensor, 38 anos, Rússia) – Há anos o torcedor da seleção russa e do CSKA Moscou tem a escalação da linha defensiva na ponta da língua, com Ignashevich inabalável. O zagueiro é convocado desde 2002, mas só disputou a primeira Copa em 2014. Vai pendurar as chuteiras após o Mundial.

Tim Cahill (Atacante, 38 anos, Austrália) – Um rei. São cinco gols em três Copas diferentes, incluindo aquele inesquecível contra a Holanda em Porto Alegre. Soma 14 anos de seleção, 105 jogos e 50 gols. De volta ao Millwall onde começou a carreira, a sequência oscilante na segundona inglesa deixava em dúvida sua presença, mas não se nega um talento como o do veterano.

Rafa Márquez (Defensor, 39 anos, México) – Quatro Copas do Mundo como capitão. Quem pode se gabar disso? Rafa Márquez possui ótimos momentos em seu tempo na Europa e é idolatrado em clubes mexicanos, mas nada se compara à sua história com a seleção. Não era nome certo na lista de Juan Carlos Osorio, mas sua tarimba foi preservada pelo treinador. Será seu 18° torneio internacional, o último, antecedendo a aposentadoria.

Essam El-Hadary (Goleiro, 45 anos, Egito) – Sua estreia na seleção egípcia aconteceu em 1996, ano de nascimento de 34 jogadores presentes na Copa de 2018 e quando outros 36 sequer tinham vindo ao mundo. Em 1998, El Hadary já conquistaria a Copa Africana de Nações pela primeira vez, torneio que voltaria a faturar em outras três oportunidades. Entretanto, faltava um Mundial no currículo. Perdendo espaço ao final do ciclo anterior, recuperou o moral a partir de 2016, estrelando a campanha nas Eliminatórias. São 157 partidas pelos Faraós e 45 anos de idade que reforçam seu status como lenda. Uma lenda ainda em construção.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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