Copa do Mundo

Contos Russos #17 Sobreviver ao sábado precoce

Vai desabar sobre eles aquela mesa redonda – da TV, do rádio ou do boteco – num sábado que promete ser um dos mais intensos dias de Copa do Mundo nos últimos tempos. Ao extremo, como jogos deste tamanho costumam fazer, os derrotados precisam suar muito para não serem levados à praça pública dos pipoqueiros, omissos, promessas frágeis, medíocres, incapazes de carregarem seus países; aos vencedores, em geral é nesse momento que se rasga a objetividade para levantá-los à admiração cega, que líder, que conquista, que entrega!

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O dia é deles. Deuses de suas seleções, com escalas variadas, não podem permitir que sua bandeira termine a jornada russa no precoce quarto jogo. Porque parece óbvio, mas não é sempre assim: um raro dia mundialista em que ninguém está pronto para perder. É cedo demais para quem já vai embora.

Para Lionel Messi o muro é um palito de dente. Será quase impossível sentar na defesa da isenção, porque o jogo da Argentina se desenha para um cenário em que o 10 é quem define o ritmo da música. Ou ganha a Argentina de Messi, com participação de sua estrela rara, ou perde a Argentina de Messi, quatro Copas do Mundo e uma nova frustração para o grande jogador de toda uma geração. Sem tons de cinza, aos pôsteres ou à vala do questionamento eterno. “Por que é tão diferente que no clube?”

Na França, o momento é de provação. Depois do título europeu perdido em Paris, o elenco se manteve com moral: jovem, veloz, cheio de opções, com talento, com bons nomes em diversas posições. Fez uma primeira fase só em segunda marcha, com raras acelerações, e tem as luzes do mundo jogadas sobre seu rendimento. O jogo diante dos argentinos, das duas, uma: em mais um passo consolida o respeito internacional dessa geração ou escancara a pior das capas de jornal, de falta de vontade para baixo. “É mesmo um grande elenco?”

Portugal, à sua maneira parecido com a Argentina, define seu sucesso passando pelo humor de Ronaldo. Diante do rival de liga espanhola e bola de ouro, o portuga caminha mais leve – tricampeão da Europa por clubes, campeão da Europa por seleções, de bem com a vida, sabendo o que consegue colher do time que comanda. Mas o futebol não dá trégua. Uma partida sem brilho com eliminação ofusca até o jogo absurdo, na estreia, há duas semanas. Puxar a corda duma equipe com limitações e tirar uma campeã do mundo eleva ainda mais o craque à pratileira dos gigantes. “Ser o melhor do mundo não basta?”

Por fim, o Uruguai. Os incansáveis Godín, Cavani e Suárez, tocados pelo maestro Tabárez, não são homens de aceitar o fracasso. Ainda que a camisa celeste não viaje com escancarada pretensão de título, oitavas de final é pouco. Os últimos atos de uma geração vão passar pelo sucesso desses donos do time, capas do jornal em mais um feito uruguaio no futebol internacional ou manchetados como últimas fotos de ciclo, quem viu, viu. “O fim de uma era?”

Copa do Mundo, influente e marca-páginas da história, sem tréguas ou muita margem de contextualização. Diante do nível do confronto, das camisas e dos personagens, o fim do sábado será de cabeças baixas marcadas para sempre. Logo mais, erguidas, só sobrarão duas. É assim, fazer o quê.

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