Copa do Mundo

Contos Russos #16: Gabriel Jesus e o dilema do matador

Já ouvi mais de um comentarista dizer que essa é a Copa do Mundo do retorno dos centroavantes. Não sei se há um exagero pela emoção no ar em tempos de três ou quatro jogos diários, mas de fato o Mundial começou com vários desses últimos homens decidindo jogos. Suárez, Cristiano Ronaldo, Diego Costa, Lukaku e Harry Kane representaram o desafogo em jogos difíceis, com poucos espaços, num torneio extremamente equilibrado.

Vale citar também as entradas de Dzyuba, forte no pivô na Rússia, e Giroud, usado como referência na França, ambos na segunda rodada, que valeu a classificação. Na dificuldade, muito da responsabilidade pela falta de gols caiu sobre essa peça na Alemanha, que clamava por um golzinho de Werner ou Gómez na pressão que durou três jogos, ou na Argentina, que varia entre Agüero e Higuaín e volta a ventilar Messi como 9, insistindo na busca pelo faro de gol.

Ao mesmo tempo, se o Mundial da falta de espaço e das defesas bem armadas retomou o protagonismo dos camisas 9 com presença na área, vale lembrar que as semifinais da Copa passada tinham Fred versus Klose e Van Persie contra Higuaín. Cada um ao seu estilo, os times apostavam num homem-gol entre os zagueiros. Para o bem: o alemão salvou o time no empate com Gana na primeira fase e saiu consagrado da semifinal como maior artilheiro da história das Copas, enquanto o holandês marcou quatro gols. Ou para o mal: o brasileiro foi tratado como um cone inútil, e no argentino jogaram o peso de tantas chances perdidas em momentos importantes da albiceleste.

Chegamos a Gabriel Jesus. O menino é um definidor nato, frio na hora de concluir, daqueles que não costuma se assustar com saída de goleiro. Tem tanta facilidade de estar no lugar certo para empurrar a bola que chegou a ser acusado de só marcar gols fáceis na Inglaterra. É o dilema do matador. Quando os gols estão saindo, é o posicionamento, a esperteza, a eficiência num tapa na bola, é só cruzar que é gol; quando não, acaba questionado por não criar mais chances, dar um jeito de finalizar diante de um jogo apertado, tirar um tento da cartola.

Quando surgiu no Palmeiras, Gabriel chegou a fazer dupla com centroavantes mais centroavantes que ele próprio. No Campeonato Paulista de 2015, enfileirou seus primeiros momentos artilheiros ao lado de Alecsandro. Na Copa do Brasil, quando se firmou titular, teve seus grandes momentos servido pelo pivô de Lucas Barrios, como num jogo contra o Cruzeiro no Mineirão que fez marcou duas vezes e se consolidou como titular do time.

No ano seguinte, foi se garantindo como referência central. O Palmeiras campeão brasileiro de 2016 tinha pontas rápidos e Gabriel de 9, ainda que um 9 mais rebelde, se permitindo jogadas individuais longe da área e assumindo um protagonismo de joia do time nos momentos mais complicados. Na seleção, abraçado por Neymar e Coutinho, talvez não tenha tanto espaço para desabrochar e testar a confiança (ou o goleiro), assim como no Manchester City em que é mais um no meio de tanta cobra.

Para o mata-mata, em nenhuma circunstância, abriria mão do garoto matador. Que, diga-se, não está jogando necessariamente mal, mas seria exagero dizer que, por abrir espaços num lance como o gol de Paulinho, esteja fazendo uma Copa notável. O próprio Gabriel sabe, no íntimo, que o jogo dele vale nota no jornal pela delicadeza dum tapa na bochecha da rede, pelo sorriso de quem completa um bate-rebate no segundo pau.

Sinto falta de vê-lo mais solto, como por exemplo com Firmino na vaga de Willian e os homens da frente se alternando entre a ponta direita e a entrada da área. Jogando uns minutos caído na esquerda, com Neymar solto por dentro. Na própria Olimpíada foi jogado para o lado depois dos primeiros jogos sem gols. De alguma forma provocado, e convidado, a não passar os 90 minutos como o 9 que quando a bola vir vai guardar. Acho que tem mais gás do que isso.

Sob o pragmatismo de Tite, provavelmente não vai acontecer. Por isso, diante desse esquema e dessa função Romário demais para o meu gosto, a expectativa é para que Gabriel faça o que dele o time espera: empurre a bola para dentro. Sinto que, se não for contra o México, num eventual encontro com a Bélgica pode ser tarde demais.

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