Copa do Mundo

Contos Russos #04 | O elogio da beleza

Em Elogio da Beleza Atlética, uma das mais interessantes reflexões sobre o encantamento do esporte, o professor de literatura Hans Ulrich Gumbrecht, da Universidad de Stanford, se debruça sobre a ideia do que é belo e os porquês do nosso êxtase ao contemplar os movimentos, a superação e as formas de jogar numa competição de alto nível. ‘Existe uma necessidade de elogiar os atletas ou basta que gostemos de assistir ao que eles fazem?’, pergunta.

Lembrei do ensaio do intelectual alemão ao acordar neste domingo com a manchete da Folha de S. Paulo: “Tite assume risco para jogar bonito na Copa”. O texto assinado por colegas direto da Rússia traz, logo abaixo do parágrafo de abertura, que Tite quer a equipe jogando bonito e correndo risco.

Na sequência, a linha do tempo do desempenho da seleção brasileira traçado pela reportagem desde 1970 passa por Zagallo, Coutinho, Telê e Lazaroni até chegar em Parreira, o contraponto perfeito para o raciocínio. O pequeno texto que acompanha cada equipe do Brasil começa com quatro palavras que eu adoraria levar ao professor Gumbrecht.

‘A equipe era chata’.

Elogiar os times de futebol é compará-los. Como lembrou o comentarista Vitor Birner no nosso podcast Central 3 na Copa, tocado por essa Trivela, o time da Copa de 1994 preferiu não se apegar ao futebol do São Paulo de Telê ou do Palmeiras de Vanderlei Luxemburgo, as duas principais referências à época, respectivamente então campeões do mundo e do Brasil. Virou o chato. Se quase três décadas de futebol depois o escrete atual procurou o seu ritmista, Zinho, ali, virou a enceradeira; Dunga jogou muito, mas era o rústico, o bronco; Mazinho acertou o time, mas poucos se recordam com carinho de um onze que renegou a camisa 10.

Entre a vitória ou a derrota, nossos elogios à beleza são muitas vezes enganados por projeções que não se confirmaram, por paralelos de seu tempo ou pelo contexto da busca pelo resultado. Um bom exemplo é o ‘quadrado mágico’ da Copa de 2006, com Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Ronaldo. Não é difícil encontrar registros do time que ‘encantou’, mas os quatro, juntos, começaram só três jogos antes da Copa, sendo um valendo, no final do ano anterior, e dois já em frágeis amistosos na Suíça, a dias da estreia. O quadrado da memória atuou em três jogos no Mundial, inclusive nas insossas apresentações de início contra Croácia e Austrália, e nem chegou à partida decisiva. A melhor formação daqueles tempos time tinha Robinho, preterido. No fim, jogou Juninho Pernambucano.

Não vi a Copa de 1970 nem os times de Telê, mas, de lá para cá, à parte a ilusão de Weggis, nunca uma seleção foi tão elogiada. Para os livros, lembraremos que o domingo da estreia de Tite acordou assumindo a ideia de um jogo bonito. A ver se a estética resiste às intempéries de uma Copa do Mundo, o mês que, no fim das contas, define para a história os times, do chato ao belo.

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