Copa do Mundo

Como os jornais e revistas da época contaram o Brasil x México em 1950, 1954 e 1962

Adversário das oitavas de final da Copa do Mundo da Rússia nesta segunda-feira, o México já cruzou o caminho do Brasil em quatro Mundiais. Curiosamente, três dos confrontos aconteceram em estreias das duas seleções, com vitória brasileira em todas estas. O único empate, sem gols, foi registrado em solo brasileiro, em Fortaleza, pela segunda rodada da fase de grupos do Mundial de 2014. Resgatamos abaixo as histórias dos três confrontos os quais o Brasil venceu contadas pela imprensa brasileira da época, com bastidores e curiosidades, além da avaliação do time e dos craques feita pelos nomes históricos do jornalismo esportivo brasileiro.

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Copa de 1950

Na edição do dia do jogo que marcava a estreia do Brasil no primeiro Mundial que sediou (um 24 de junho, dia de São João), o Jornal dos Sports estampou na primeira página uma foto de cada um dos supostos titulares do técnico Flávio Costa para a partida. O ataque aparecia composto de Maneca, Zizinho, Ademir, Jair Rosa Pinto e Friaça – este o substituto do ponta-esquerda Rodrigues, que se lesionou no último treino antes da estreia. Porém, a mesma capa anunciava que Zizinho era dúvida, por ter voltado a sentir um velho problema nos ligamentos.

A mesma edição trazia ainda um gráfico orientando os torcedores sobre os acessos aos setores do recém-inaugurado estádio do Maracanã.  Outro quadro trazia os preços dos ingressos a serem praticados em todos os jogos do Mundial. A geral custava, em valores da época, Cr$ 15, enquanto um lugar na arquibancada saía por Cr$ 30. Já pelas cadeiras numeradas era cobrado um preço bem mais salgado: Cr$ 140. Outra curiosidade era os locais de venda dos bilhetes, que podiam ser adquiridos em três pontos, todos no centro do Rio: na sede da CBD, no Clube Ginástico Português ou nas lojas “Dragão dos Tecidos”.

Havia na época a desconfiança de que o Maracanã seria grande demais e de que nunca encheria. No entanto, já na primeira partida, o gigante de concreto recebeu um bom público, que gerou a maior renda registrada até então numa partida de futebol na América do Sul, acima dos Cr$ 2,6 milhões. O comparecimento e o comportamento dos torcedores também mereceram destaque de Mario Filho em sua crônica para o Jornal dos Sports.

“Todos cumpriram o seu papel. Inclusive o público que não faltou ao compromisso de apoio total ao scratch. O maior medo do torcedor era esse: o de faltar ao compromisso com o scratch. Ou melhor: o de dar a impressão de faltar ao compromisso com o scratch. Porque o Estádio era maior do que ele. Quando acaba, o Estádio era do tamanho dele. E não podia deixar de ser assim porque o Estádio fôra construído para ele”, escreveu o jornalista que mais tarde emprestaria seu nome ao maior palco do futebol brasileiro, na época chamado apenas de Estádio Municipal.

Quanto ao jogo, o domínio foi brasileiro do começo ao fim, apesar do desfalque confirmado de Zizinho. Sem ele, Ademir foi deslocado do comando do ataque para a meia-direita, entrando o corintiano Baltazar de centroavante. Nas demais posições, a equipe de Flávio Costa entrou com Barbosa no gol, Augusto como zagueiro direito, Juvenal pelo meio e Bigode pelo lado esquerdo (ainda que a imprensa da época escalasse o time no sistema 2-3-5). A dupla de médios tinha o vascaíno Eli do Amparo (que logo cederia o lugar a Bauer) e Danilo Alvim.

Mesmo com todo o volume de jogo do Brasil, o placar só foi aberto aos 32 minutos da primeira etapa, quando o público já começava a se impacientar com as chances desperdiçadas diante de um México que praticamente não ameaçava, mas se mostrava muito aguerrido na defesa. Houve uma cobrança de falta de Jair que explodiu na trave de Carbajal. E pouco depois, enfim, veio o primeiro gol: Danilo entregou a Jair, que chutou forte. O arqueiro mexicano deu rebote, acossado por Baltazar, e Ademir, que não fazia boa partida até ali, arrematou com oportunismo.

Na etapa final, depois de acertar mais duas vezes, quase em sequência, a trave de Carbajal, o time deslanchou: aos 21, Danilo passou por três mexicanos e fez a assistência para Jair, que soltou um petardo ampliando a contagem. Depois de mais uma bola na trave, o Brasil chegou ao terceiro gol aos 26, num escanteio cobrado por Maneca e desviado de cabeça por Baltazar – em sua especialidade – para as redes. E aos 35, Jair fez grande jogada pela esquerda e cruzou rasteiro para Ademir escorar, fechando o placar em 4 a 0.

Para Mario Filho, o meia-esquerda foi o grande destaque do time brasileiro e do jogo: “Jair por si só foi um espetáculo. Correu em campo como um novo, com a vantagem de uma classe que dificilmente pode ser superada. (…) O jogador por excelência do scratch”. Ademir também teve atuação destacada, enquanto os demais do quinteto ofensivo, para o cronista, deixaram-se levar pelo nervosismo da estreia, além de se intimidarem com a imponência do estádio.

Já a análise dos dois times (não assinada) feita no mesmo jornal também elogiava o médio Danilo e ressaltava a recuperação de Ademir na etapa final – quando inverteu de posição com Maneca – depois de ter feito um mau primeiro tempo (apesar do gol). E apontava ainda Baltazar (também apesar do gol) como o jogador “mais improdutivo” da equipe, desperdiçando chances fáceis.

Quanto aos mexicanos, o maior destaque foi mesmo o espírito de luta da equipe que, mesmo goleada, mostrou muita valentia na defesa, com os jogadores chegando a se atirar na frente da bola para evitar os tentos brasileiros. Individualmente, foram citados o goleiro Antonio Carbajal (eximido de culpa nos gols), a zaga rebatedora formada por Felipe Zetter e Alfonso Montemayor, os médios Mario Ochoa (maior destaque da equipe) e José Antonio Roca, além do centroavante Horacio Casarín, que lutou muito, mesmo isolado na frente.

Clique aqui e acesse a edição do Jornal dos Sports de 1950

Copa de 1954

No Mundial da Suíça, o Brasil voltou a ter pela frente o México em sua partida de estreia na fase de grupos (além da Iugoslávia na mesma chave). O jogo foi disputado no estádio Charmilles, em Genebra, no dia 16 de junho. E diferentemente da partida do Maracanã, desta vez não houve surpresas de última hora nem desfalques na escalação: o time titular anunciado com dias de antecedência pelo técnico Zezé Moreira foi mesmo o que acabaria entrando em campo.

Na Seleção Brasileira, o único remanescente da goleada de 1950 era Baltazar, enquanto Castilho, Nilton Santos, Bauer e Rodrigues – que integravam o elenco do Mundial anterior, mas, por vários motivos, não enfrentaram os mexicanos naquela ocasião – desta vez estavam em campo. Pelo lado do México, a equipe havia sido inteiramente modificada: nenhum dos 11 que atuaram no Maracanã retornou para a partida de Genebra, quatro anos depois. O goleiro Carbajal, possível remanescente, era desfalque por lesão na estreia.

A equipe agora dirigida por Zezé Moreira era considerada tão favorita para o confronto que ele sequer foi incluído numa loteria suíça, para evitar um alto índice de acertos por parte dos apostadores. E diferentemente do jogo do Maracanã, o Brasil conseguiu abrir vantagem folgada no primeiro tempo, apesar de uma certa hesitação inicial.

Aos 23 minutos, Baltazar recebeu de Pinga e chutou longe do alcance do goleiro Mota, abrindo o placar. Seis minutos depois, Didi ampliaria cobrando falta com efeito. O terceiro gol saiu aos 34, em arrancada de Pinga, após passe de Didi. O meia-esquerda invadiu a área, esperou a brecha na defesa e chutou forte para marcar o terceiro. E o quarto gol, aos 43, foi bem semelhante: passe de Didi, arrancada de Pinga e chute forte – só que agora pelo lado direito do ataque.

Na etapa final, o Brasil marcou mais uma vez, em outra jogada iniciada por Didi, que serviu Julinho. O ponteiro arrancou pela direita, driblou um marcador e encheu o pé para anotar o quinto gol, aos 23 minutos. Daí em diante, com a chuva que começou a cair sobre o estádio, os brasileiros passaram a se poupar, temendo lesões provocadas pelo esforço no gramado encharcado. E o placar ficou mesmo nos 5 a 0.

De acordo com a cobertura do Jornal dos Sports feita em Genebra por Geraldo Romualdo da Silva e Everardo Lopes, todo o time brasileiro teve boa atuação, em especial Didi, o grande nome da partida. Num nível abaixo dos demais, porém, estiveram os dois médios, Brandãozinho e Bauer, que “não jogaram o que sabem”, segundo a análise. Muito recuados, estiveram bem no auxílio à defesa, mas não ajudaram no apoio. O setor defensivo, aliás, teve atuação muito sólida e segura, em que pese a fragilidade do time mexicano.

A revista Manchete, publicação semanal, também trouxe em sua edição de 26 de junho de 1954 uma reportagem de seis páginas com a repercussão dos dois jogos do Brasil na primeira fase, além de acompanhar a reação dos torcedores nas ruas do Rio de Janeiro, que acompanhavam os jogos pelo rádio. A matéria pode ser conferida nas imagens abaixo (clique com o botão direito do mouse e em ‘abrir imagem em nova guia’ para ampliar).

Clique aqui e acesse a edição do Jornal dos Sports de 1954

Copa de 1962

O México somaria seu primeiro ponto numa Copa na Suécia, em 1958, ao empatar em 1 a 1 com o País de Gales graças a um gol de Jaime Belmonte no minuto final. E seguiria dando mostras de evolução no Mundial seguinte, no Chile. Além de segurar o badalado ataque da Espanha por quase todo o jogo na segunda rodada, perdendo por 1 a 0 com um gol de Peiró no último minuto, e de registrar sua primeira vitória ao bater a Tchecoslováquia por 3 a 1 na despedida, fez também um jogo muito mais duro com o Brasil em comparação com os confrontos de 1950 e 1954.

Para a partida de estreia na Copa de 1962, as dúvidas do técnico Aymoré Moreira na escalação da equipe tinham origem em problemas físicos. Na ponta-esquerda, Pepe era considerado o titular, mas chegara ao Mundial lesionado. Bellini foi outro dono da posição, a princípio, que ainda buscava entrar na melhor forma. O ponteiro chegou a ser liberado para a estreia, assim como o beque central era dado como quase certo de alinhar contra o México.

Mas Aymoré preferiu não arriscar. Assim, o jeito foi repetir a escalação ofensiva que levou o Brasil ao seu primeiro título, quatro anos antes, com Zagallo pelo lado esquerdo do ataque. Troca mesmo, apenas no miolo de zaga: o experiente Mauro assumia o posto de Bellini, jogando ao lado do banguense Zózimo, titular já estabelecido no lugar de Orlando (que na época defendia o Boca Juniors e nem foi convocado).

Na seleção mexicana, o experiente médio Raúl Cárdenas, 33 anos, e um dos destaques da equipe já em 1954, era o único remanescente do confronto anterior. Enquanto Carbajal, de novo titular, voltava a enfrentar o Brasil em Copas após 12 anos. E seria um dos destaques do jogo no estádio Sausalito, em Viña del Mar, sendo o único homem em campo a receber cinco estrelas na cotação do respeitado cronista Geraldo Romualdo da Silva, do Jornal dos Sports.

O primeiro tempo foi muito nervoso. Todo fechado atrás, num autêntico ferrolho, o México não dava espaços à Seleção, que se irritava e não conseguia ficar mais de um minuto sem errar alguma jogada. E ainda chegou a correr alguns riscos em contra-ataques, como no lance em que Héctor Hernández recebeu de Del Aquila e invadiu a área, mas Gilmar salvou. Os brasileiros ainda reclamaram dois pênaltis não marcados: um em Pelé, calçado, e outro em Vavá, deslocado.

Sobre este mau início, Geraldo escreveu no Jornal dos Sports: “Ao ser iniciada a partida, o team brasileiro apresentou-se como uma caricatura de si mesmo. O nervosismo da estreia exacerbava, levava cada jogador a parecer medíocre na maioria das jogadas. Estranho como pareça, via-se Pelé dar passes totalmente errados, Didi desperdiçar lances. Era como se o Brasil tivesse medo do México. (…) De todos eles, apenas Garrincha conservava, nesses instantes, a cabeça realmente no lugar. Embora sem ser o Garrincha dos melhores dias, assim mesmo era o que mais constantemente levava o perigo à meta adversária”.

Na etapa final, os mexicanos se arriscaram mais no ataque, dando trabalho à defesa brasileira especialmente quando avançavam pelos flancos. Mas, do outro lado, era Carbajal que pegava tudo o que os zagueiros não espanavam. Na insistência, porém, saiu o primeiro gol do Brasil aos 12 minutos. Zito recuperou uma bola afastada por Sepúlveda e entregou a Garrincha, que foi ao fundo e cruzou para o mergulho de Zagallo, cabeceando para as redes. O ponta que quase ficou na reserva tirava a Seleção do sufoco.

Apesar do gol, o panorama do jogo não se modificou: Carbajal continuou fazendo milagres nos ataques brasileiros, defendendo de maneira espetacular um chute e uma cabeçada de Vavá, uma bomba de Nilton Santos, uma cobrança de falta de Pelé, além de evitar o gol em outra jogada na qual o camisa 10 fez fila na defesa mexicana. Enquanto isso, os astecas volta e meia pegavam a retaguarda da Seleção desprotegida, como na bola que Díaz recebeu de Reyes, mas chutou por cima, aos 14 minutos.

Esses sustos foram explicados por Geraldo Romualdo: “Quando os ataques dos astecas eram desenvolvidos pelo miolo, não havia problema. Porém, quando vinham pelas pontas, situações difíceis se criavam para Gilmar, especialmente quando os atacantes contrários resolviam evoluir pelo setor de Djalma Santos. A falha, aí, era a mesma registrada em outras oportunidades. Com os avanços de Zito, os dois zagueiros, Mauro e Djalma Santos, ficavam desamparados. Assim, quando Mauro ia dar combate a um atacante, Djalma Santos corria em seu socorro e deixava um buraco aberto à penetração do ponteiro canhoto mexicano”.

Aos 24, porém, o Brasil se reafirmaria no controle do jogo com um golaço de Pelé, que recebeu de Garrincha, ganhou na raça de um zagueiro e chutou com raiva para marcar aquele que seria seu único gol na campanha do bicampeonato mundial. Depois disso, a Seleção ainda tentou forçar o terceiro gol, mas desperdiçou boas chances. Como os mexicanos também já não tinham mais forças para ameaçar, o jogo caiu de ritmo, e os brasileiros passaram a tocar a bola, rendendo até um “olé” nos minutos finais.

A dureza daquele confronto, no entanto, fazia antever o que aguardava a Seleção Brasileira nos árduos jogos seguintes daquela Copa, como observava Geraldo Romualdo: “Não obstante, o melhor que se pode dizer do Brasil é que a individualidade notável de seus astros o salvou novamente. Se Pelé, Garrincha, Didi e Zagallo não fossem gênios, não se sabe o que poderia estar acontecendo a estas horas. Agora, é esperar que sábado, contra a Tcheco-Eslováquia, o acerto que ontem não foi alcançado se torne possível. Isto, aliás, é necessário, pois os tchecos representam um perigo vivo”.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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