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Como a França se transformou durante os 10 anos do comando de Deschamps para ficar a um jogo do tri mundial

A França tem o elenco mais talentoso do futebol de seleções no momento, mas quando Deschamps chegou, em 2012, a situação era um pouco diferente

A França é tida, praticamente por unanimidade, como o país com o melhor elenco do futebol de seleções. Uma profundidade impressionante na defesa, meias da mais alta qualidade, craques como Kylian Mbappé e Antoine Griezmann e um ataque que pode até prescindir de Karim Benzema e continuar competitivo. Não foi sempre assim. Quando o trabalho de Didier Deschamps começou, dez anos atrás, o panorama era um pouco diferente. O talento à disposição foi melhorando de competição em competição até o título da Copa do Mundo da Rússia em 2018 e até a decisão deste domingo contra a Argentina no Catar. Contamos como foi esse processo, desde a Eurocopa de 2012, ainda sob o comando de Laurent Blanc.

Eurocopa 2012: No ritmo de Ribéry

Ribéry, da França (Foto: FILIPPO MONTEFORTE/AFP via Getty Images/One Football)

A França ainda tentava se recuperar da experiência Raymond Domenech, que terminou com um motim na Copa do Mundo da África do Sul, e de duas eliminações consecutivas na fase de grupos de grandes competições desde o vice-campeonato de 2006. Contratou o campeão mundial Laurent Blanc, que estava entre os principais técnicos do futebol francês nos anos anteriores, no comando do Bordeaux que conquistou a Ligue 1 em 2008/09. Seria outra campanha fraca. A seleção francesa ganhou apenas da Ucrânia na fase de grupos. Empatou com a Inglaterra e perdeu para a Suécia, com gol de Zlatan Ibrahimovic. Nas quartas de final, foi eliminada por aquela Espanha meio chata, com dois gols de Xabi Alonso.

O elenco não era velho, mas também não era jovem. Seis jogadores tinham 30 anos ou mais, incluindo Florent Malouda e Alou Diarra, dois dos remanescentes da campanha na Alemanha, ao lado de Franck Ribéry. Mas o único com menos de 24 era o meia Yann M’Villa, de 21 anos. Alguns nomes importantes como Thierry Henry, Nicolas Anelka, Eric Abidal e William Gallas haviam ficado para trás. O destaque era Ribéry, então craque do Bayern de Munique. O elenco ainda se concentrava bastante na Ligue 1, com 12 representantes. O clube local mais influente era o Olympique de Marseille, treinado por Didier Deschamps. Também havia sete jogadores da Premier League, dois de La Liga, um deles Karim Benzema, e outro da Serie A.

A primeira coisa que chama a atenção é que a abundância de defensores ainda não havia chegado à seleção francesa. A defesa foi formada por Adil Rami e Philippe Mexès durante a fase de grupos. Laurent Koscielny, que já estava no Arsenal, entrou no lugar de Mexès nas quartas de final. Gaël Clichy ganhou a posição de Patrice Evra depois da estreia contra a Inglaterra e Mathieu Debuchy era um homem de confiança pela direita. Alou Diarra e Yohan Cabaye foram os volantes que mais jogaram, com a entrada de M’Vila nas partidas finais. Blanc começou com Malouda na armação, mas o substituiu por Samir Nasri, que havia começado no ataque. Jérémy Ménez e Hatem Ben Arfa ganharam espaço com essa troca. Ribéry e Benzema foram titulares em todos os jogos.

Nas quartas de final, Blanc tinha um plano: entrou com dois laterais direitos para bloquear o forte lado esquerdo da Espanha, que contava com Jordi Alba e Andrés Iniesta. Anthony Réveillère mais recuado, Debuchy mais adiantado. A ideia era chegar ao intervalo com 0 a 0 no placar, e a tática de Blanc deu bastante certo exceto pelo lance em que deu completamente errado. Aos 19 minutos, Iniesta lançou Alba entre Réveillére e Debuchy, Alba deixou Réveillére no chão e cruzou para Alonso abrir o placar.

“O que lamento é termos concedido um gol no começo do jogo”, disse Blanc. “Mas vamos ser realistas. A Espanha é um time melhor e este jogo provou isso novamente”. Sua curta passagem chegaria ao fim depois da Eurocopa. Ele seria substituído por Didier Deschamps, outro campeão mundial de 1998, que vinha de bons trabalhos à frente de Monaco, Juventus e Olympique de Marseille.

Time base: Hugo Lloris; Mathieu Debuchy, Adil Rami, Philippe Mexès e Gaël Clichy; Alou Diarra, Yohan Cabaye e Samir Nasri (Florent Malouda); Jérémy Ménez (Hatem Ben Arfa), Franck Ribéry e Karim Benzema.

Copa do Mundo 2014: Renovada

Pogba na Copa do Mundo de 2014 (Foto: YASUYOSHI CHIBA/AFP via Getty Images/One Football)

Houve uma renovação considerável em apenas dois anos. Deschamps repetiu apenas nove jogadores da Eurocopa de 2012 – Steve Mandanda e Franck Ribéry também teriam sido convocados, mas estavam machucados – e levou alguns garotos, como Raphaël Varane, 21 anos, Paul Pogba, 21, e Antoine Griezmann, 23. Voando pelo Bayern de Munique, Ribéry fez falta, mas a França fez uma campanha bem honesta. Chamou a atenção pela goleada por 5 a 2 sobre a Suíça em Salvador, passou pela Nigéria nas oitavas de final e fez um jogo duríssimo com a futura campeã Alemanha nas quartas de final. Ainda não era sua hora, mas Deschamps conseguiu colocar em campo uma fundação para os anos seguintes.

A prevalência no elenco agora era da Premier League, com destaque para a colônia de Arsène Wenger no Arenal, que enviou Bacary Sagna, Laurent Koscielny e Olivier Giroud à seleção francesa. O Newcastle, treinado por Alan Pardew, que também adorava contratar jogadores da Ligue 1, tinha três atletas: Mathieu Debuchy, Loïc Rémy, emprestado pelo QPR, e Moussa Sissoko. A liga local ainda era bastante relevante, com oito jogadores, e agora predominância do PSG, em um estágio mais avançado do projeto do Catar. Yohan Cabaye, Blaise Matuidi e Lucas Digne representavam a equipe da capital no Brasil. A Espanha tinha três atletas, todos importantes (Karim Benzema, Varane e Griezmann), com um de Itália, Pogba, e outro do Porto.

A melhora na defesa foi considerável, especialmente pelo surgimento de Varane, ainda um jovem zagueiro, mas que foi titular em quatro das cinco partidas da França. Ele recebeu a companhia de Mamadou Sakho, na época um promissor jogador do Liverpool, e Patrice Evra recuperou a titularidade na lateral esquerda. Laurent Koscielny foi o primeiro reserva, titular no terceiro jogo da fase de grupos, contra o Equador, e nas oitavas de final, diante da Nigéria.

O meio começava a ganhar a forma que teria nos próximos anos, ainda com Yohan Cabaye como o principal esteio, mas Paul Pogba foi uma presença importante, ao lado de Blaise Matuidi, que seria essencial no título mundial da Rússia. O ataque variou um pouco. Griezmann começou como titular – na época ainda um ponta insinuante da Real Sociedad -, mas Giroud produziu muito bem na goleada sobre a Suíça e foi mantido para as oitavas de final, após Deschamps rodar o elenco contra o Equador. No entanto, Griezmann retornou para enfrentar a Alemanha, ao lado de Mathieu Valbuena e Benzema, dois super titulares do técnico francês que, fora de campo, bom… teriam alguns problemas pela frente.

Time base: Hugo Lloris; Mathieu Debuchy, Raphaël Varane, Mamadou Sakho e Patrice Evra; Yohan Cabaye, Blaise Matuidi e Paul Pogba; Mathieu Valbuena, Antoine Griezmann (Olivier Giroud) e Karim Benzema.

Eurocopa 2016: Sem Benzema, mas com Griezmann ainda melhor

Griezmann com o prêmio de craque da Euro 2016 (Foto: FRANCK FIFE/AFP via Getty Images/One Football)

Continuidade. Deschamps levou 13 jogadores que estavam na Copa do Mundo. Seriam mais se Varane não tivesse se machucado, se Mandanda não tivesse perdido o Mundial brasileiro por lesão e se Karim Benzema não tivesse ajudado a chantagear o colega de seleção, Mathieu Valbuena. Ele foi condenado a um ano de prisão com pena suspensa em 2021 e ficou seis anos afastado da seleção. O técnico continuou dando espaço a garotos. Levou Kingsley Coman, 19 anos, e Anthony Martial, 20, para ganharem experiência.

Houve ganhos enormes nesses dois anos, porém, começando pela evolução de Griezmann, que se transformou em um meia-atacante mais completo e contundente no Atlético de Madrid. Principalmente, N’Golo Kanté chegou à seleção francesa após impressionar no título inglês do Leicester A defesa também deu um salto de qualidade com Samuel Umtiti, então um jovem zagueiro do Lyon, e, outra novidade, Dimitri Payet chegava com moral depois de uma excelente temporada pelo West Ham.

Foi um elenco mais inglês ainda, com 11 jogadores da Premier League, bem espalhados entre oitos clubes, e apenas cinco da Ligue 1, com maioria do Lyon (Christophe Jallet e Umtit). A Serie A aparecia com três, principalmente por causa da Juventus, que contava com Pogba e Patrice Evra. A Espanha teve dois, a Alemanha, um, e o Tigres do México apareceu na convocação com André-Pierre Gignac, candidato a ser o substituto de Benzema. Em casa, a França fez uma ótima campanha, liderando seu grupo e eliminando Irlanda, Islândia e Alemanha rumo à final contra Portugal, na qual aquele gol de Éder na prorrogação causou grande decepção.

Deschamps preferiu a experiência na defesa. Começou formando a dupla de zaga com Adil Rami e Laurent Koscielny. Umtiti ganhou a posição apenas a partir das quartas de final contra a Islândia. Com Kanté suspenso por ter tomado dois cartões amarelos, foi o momento em que Deschamps mudou o meio-campo e ataque também. Havia começado com três meias-volantes, com o jogador do Leicester ao lado de Pogba e Matuidi. Sem Kanté, os dois foram mantidos como dupla de volantes, e Moussa Sissoko entrou em um papel híbrido pela direita, dando equilíbrio para Griezmann, antes ponta, circular por dentro, com Payet pela esquerda e Giroud de centroavante.

A campanha foi um passo à frente para a França, confirmada entre as principais forças da Europa, e a fórmula seria repetida por Deschamps, com ainda mais sucesso, na Copa do Mundo da Rússia.

Time-base: Hugo Lloris; Bacary Sagna, Adil Rami (Samuel Umtiti), Laurent Koscielny e Patrice Evra; Blaise Matuidi e Paul Pogba; Moussa Sissoko (N’Golo Kanté), Antoine Griezmann e Dimitri Payet; Olivier Giroud

Copa do Mundo 2018: Chega Kylian Mbappé

Mbappé, da França (Foto: FRANCK FIFE/AFP via Getty Images/One Football)

Em números brutos, a continuidade não foi tão grande. Nove finalistas da Eurocopa foram convocados para a Copa do Mundo, além de Varane que certamente estaria no elenco anterior. Mas Deschamps havia encontrado a sua espinha dorsal. Ela foi mantida com alguns acréscimos cruciais, embora a ausência de Moussa Sissoko, peça tática importante, tenha sido notada. A defesa ganhou qualidade com Benjamin Pavard e Lucas Hernández. No geral, transformou-se em um setor muito jovem que poderia se desenvolver junto. Apenas Adil Rami tinha mais de 30 anos entre zagueiros e laterais. E, claro, Kylian Mbappé chegou.

Mbappé era uma estrela em ascensão. Um meteoro, como costumamos dizer. Entre uma competição e outra, havia ajudado o Monaco a ser semifinalista da Champions League e conquistar o Campeonato Francês antes de se transferir ao Paris Saint-Germain como o segundo jogador mais caro da história, atrás apenas de Neymar. Ele arrebatou a posição de Payet pela esquerda da linha de armação, e o resto do time que deixou todo mundo comendo poeira na França foi mais ou menos parecido com o finalista da Eurocopa.

O perfil da equipe francesa era novamente muito diferente. A Ligue 1 voltou a formar maioria com nove jogadores, sendo três do PSG – além de Mbappé, Presnel Kimpembe e Alphonse Areola. O Olympique de Marseille também tinha três representantes, com Mandanda, Rami e Florian Thauvin, seguido pelo Monaco, com dois, e o Lyon, com apenas um. O contingente inglês havia sido reduzido, sem Arsène Wenger para continuar reciclando franceses no Arsenal, com apenas cinco atletas. A Espanha passou à frente com seis, especialmente pelas contratações de Ousmane Dembélé e Umtiti pelo Barcelona. O Atlético de Madrid enviou Griezmann e Lucas Hernández. A Bundesliga tinha dois atletas na França, e a Serie A, um.

O futebol da França não chegou a encantar na Rússia, mas foi uma equipe muito sólida defensivamente, com uma forte bola parada que sabia castigar muito bem no contra-ataque. As principais mudanças vieram na linha defensiva, com Benjamin Pavard, então no Stuttgart, entrando na lateral direita e Lucas Hernández na esquerda, efetivamente dois zagueiros pelos lados. De volta, Varane foi titular a Copa do Mundo inteira ao lado de Samuel Umtiti. Kanté e Pogba atuaram sempre juntos, exceto na terceira rodada da fase de grupos, quando os times muitas vezes rodam seus elencos.

A chave para o título francês saiu em mudanças daqui para a frente. Deschamps tentou começar com um ataque mais móvel, que tinha Dembélé e Griezmann pelos lados e Mbappé como atacante centralizado. A França travou contra a Austrália. A entrada de Giroud no ataque foi importante pela movimentação, presença de área e inteligência para fazer tabelas. Além disso, o técnico repetiu a receita da Eurocopa, agora com Matuidi fazendo aquela função híbrida de um meia mais físico que atua na linha de armação, com poder de marcação e chegada à frente.

A França teve uma defesa muito forte e bem postada, dois volantes de altíssimo nível, Matuidi dando equilíbrio, Mbappé explosivo pelos lados e Griezmann livre para circular e ser o camisa 10, com Giroud fazendo mais o trabalho sujo dentro da área do que efetivamente chutando para o gol. Foi o bastante para eliminar a frágil Argentina de Sampaoli, despachar Uruguai e Bélgica e golear a Croácia na decisão.

Time-base: Hugo Lloris; Benjamin Pavard, Raphaël Varane, Samuel Umtiti e Lucas Hernández; N’Golo Kanté e Paul Pogba; Kylian Mbappé, Antoine Griezmann e Blaise Matuidi; Olivier Giroud

Eurocopa 2020: O retorno de Benzema

Benzema com Deschamps (Foto: FRANCK FIFE/POOL/AFP via Getty Images/One Football)

Didier Deschamps perdoou Karim Benzema e ganhou o reforço de um dos melhores atacantes do mundo. O resto do elenco foi bem parecido, mesmo três anos depois da Copa do Mundo – a Euro 2020 foi disputada em 2021 por causa da pandemia. Houve mudanças periféricas no meio-campo e no ataque e mais ainda na defesa, embora a linha titular tenha sido quase idêntica. Deschamps, porém, estava completamente perdido e não soube encontrar a formação ideal, sem o coringa Matuidi, que havia se transferido para a Major League Soccer. Moussa Sissoko até retornou, mas foi pouco utilizado.

A Inglaterra voltou à frente na composição do elenco, com sete jogadores, ao lado da Espanha, mas o curioso foi que de repente o Bayern de Munique tinha quatro representantes no elenco francês, Pavard, Lucas Hernández, Tolisso e Kingsley Coman. Deschamps levou apenas atletas das cinco grandes ligas, com seis da Ligue 1 e dois do PSG (Mbappé e Kimpembe). A Serie A teve apenas Adrien Rabiot que de uma hora para a outra teve que quebrar o galho de ala esquerdo.

Teoricamente, a trocar era simples. Benzema sabe replicar algumas das melhores qualidades de Giroud. Fez uma função tática importantíssima para potencializar Cristiano Ronaldo no Real Madrid, sabe sair da área, armar para os companheiros e abrir espaços. Além de ter mais qualidade técnica e de finalização. Poderia ser um Giroud 2.0 ou 3.0. Mas Deschamps não fez a mera substituição e foi mexendo na sua escalão durante uma fase de grupos complicada contra Alemanha, Portugal e Hungria até entrar com três zagueiros no primeiro tempo contra a Suíça nas oitavas de final.

A defesa era igual à do time campeão do mundo, com a entrada de Kimpembe no lugar de Umti, que sofreu muito com problemas físicos ao longo do último ciclo. Kanté e Pogba continuaram intocáveis no meio-campo. Rabiot foi titular nas duas primeiras rodadas, formando o trio de meio-campo, sem a mesma vitalidade de Sissoko ou Matuidi, com Griezmann variando entre ponta direita e enganche para Benzema e Mbappé. No terceiro jogo contra Pogba, Tolisso entrou para fazer aquela função híbrida pelo lado direito.

Deschamps inventou de vez nas oitavas de final, com a entrada de Clément Lenglet no lugar de Tolisso. Ele testaria três zagueiros no ano seguinte também, em parte para encaixar a potência ofensiva de Theo Hernández. Mas o lateral do Milan não foi convocado para a Eurocopa e quem fez as vezes de ala pela esquerda foi Rabiot. A Suíça chegou ao intervalo ganhando por 1 a 0, e Deschamps voltou com Coman na vaga de Lenglet, retornando a um 4-2-3-1 mais tradicional, que levou a França a virar o jogo, antes do empate suíço e da derrota nos pênaltis.

Time base: Hugo Lloris; Benjamin Pavard, Raphaël Varane, Presnel Kimpembe e Lucas Hernández; N’Golo Kanté, Paul Pogba e Adrien Rabiot (Corentin Tolisso); Antoine Griezmann, Kylian Mbappé e Karim Benzema.

Copa do Mundo 2022: Desfalcada e ainda forte

A França antes de enfrentar Marrocos na semifinal (Foto: KIRILL KUDRYAVTSEV/AFP via Getty Images/One Football)

O intervalo de apenas um ano limitaria mudanças. Ainda assim, a França tem uma produção de talentos tão prodigiosa que foi capaz de gerar novos nomes importantes, como Aurélien Tchouaméni, Eduardo Camavinga, Ibrahima Konaté e teria Christopher Nkunku, cortado por lesão, além da integração, enfim, de Theo Hernández. Deschamps repetiu 13 dos 26 convocados nas duas competições – e isso porque outros quatro (Kimpembe, Kanté, Pogba e Benzema) não tiveram condições físicas, mas foram ou teriam sido chamados.

O perfil do elenco seguiu parecido, novamente concentrado nas cinco grandes ligas. O Bayern de Munique manteve a dianteira, com quatro jogadores, agora com Dayot Upamecano, contratado do RB Leipzig, e uma das novidades das escalações de Deschamps. O PSG, com ambição de se tornar um time cada vez mais francês, acabou enviando apenas Kylian Mbappé, um dos seis representantes da Ligue 1, empatada em primeiro lugar com La Liga, agora com um trio do Real Madrid: Tchouaméni, Camavinga e Benzema – que não está no Catar, mas segue inscrito, em uma situação bem estranha.

Deschamps havia feito testes com três zagueiros, mas desde antes da competição começar deixou claro que jogaria com linha de quatro. A ideia era novamente ter zagueiros nas laterais, com Pavard ou Jules Koundé na direita e Lucas Hernández na esquerda. Hernández, porém, se machucou seriamente na estreia, foi cortado e deu espaço ao irmão Theo, com características muito mais ofensivas. Ele poderia novamente tentar usar Rabiot, em fase muito melhor pela Juventus, como aquele elo entre o meio-campo e ataque, mas preferiu que ele formasse uma dupla mais recuada com Tchouaméni.

Para isso dar certo, contou com a disposição de Griezmann para exercer um papel mais tático, muitas vezes recuando para ajudar no trabalho defensivo, atuando mais ainda como um meia-armador e menos como um atacante que chega frequentemente à grande área. Kylian Mbappé foi aberto pela esquerda, com Ousmane Dembélé um titular até que surpreendentemente resistente na direita, após se recuperar pelo Barcelona. Sem Benzema, Giroud teve a chance de fazer mais uma grande competição pela França.

O estilo da França foi diferente. Muito menos segura na defesa em relação à Rússia, mas mais potente no ataque, especialmente nas transições rápidas com seus dois pontas explosivos. O ponto fraco parece ser os lados do campo, principalmente na esquerda, onde Theo Hernández tem dificuldades para marcar e Mbappé não faz um trabalho defensivo exemplar. Um surto de gripe deixa a escalação da decisão em dúvida, mas, em condições ideais, Deschamps sabe exatamente quem escalar para tentar o tricampeonato.

Time-base: Hugo Lloris; Benjamin Pavard, Raphaël Varane, Dayot Upamecano e Theo Hernández; Aurélien Tchouaméni e Adrien Rabiot; Ousmane Dembélé, Antoine Griezmann e Kylian Mbappé; Olivier Giroud

A evolução da França em grandes competições de 2012 a 2022:

Euro 2012: Hugo Lloris; Mathieu Debuchy, Adil Rami, Philippe Mexès e Gaël Clichy; Alou Diarra, Yohan Cabaye e Samir Nasri (Florent Malouda); Jérémy Ménez (Hatem Ben Arfa), Franck Ribéry e Karim Benzema.

Copa 2014: Hugo Lloris; Mathieu Debuchy, Raphaël Varane, Mamadou Sakho e Patrice Evra; Yohan Cabaye, Blaise Matuidi e Paul Pogba; Mathieu Valbuena, Antoine Griezmann (Olivier Giroud) e Karim Benzema.

Euro 2016: Hugo Lloris; Bacary Sagna, Adil Rami (Samuel Umtiti), Laurent Koscielny e Patrice Evra; Blaise Matuidi e Paul Pogba; Moussa Sissoko (N’Golo Kanté), Antoine Griezmann e Dimitri Payet; Olivier Giroud

Copa 2018: Hugo Lloris; Benjamin Pavard, Raphaël Varane, Samuel Umtiti e Lucas Hernández; N’Golo Kanté e Paul Pogba; Kylian Mbappé, Antoine Griezmann e Blaise Matuidi; Olivier Giroud

Euro 2020 (em 2021): Hugo Lloris; Benjamin Pavard, Raphaël Varane, Presnel Kimpembe e Lucas Hernández; N’Golo Kanté, Paul Pogba e Adrien Rabiot (Corentin Tolisso); Antoine Griezmann, Kylian Mbappé e Karim Benzema

Copa 2022: Hugo Lloris; Benjamin Pavard, Raphaël Varane, Dayot Upamecano e Theo Hernández; Aurélien Tchouaméni e Adrien Rabiot; Ousmane Dembélé, Antoine Griezmann e Kylian Mbappé; Olivier Giroud

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
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