Como a Copa de 1990 ajudou a reunir uma das maiores seleções da música: Os Três Tenores

A Copa de 1990 costuma ser apontada por muita gente como a pior da história. De fato, a baixa média de gols e o grande número de empates atrapalharam o torneio, embora as seleções estivessem recheadas de craques – mas em uma época na qual o futebol mundial como um todo passava por uma fase “defensivista”. Independente do debate sobre o que aconteceu em campo, no entanto, não dá para negar o legado que o Mundial da Itália deixou para a música. Afinal, um dos maiores timaços vocais se tornou real graças à competição: os Três Tenores, reunidos justamente para a Copa.
VEJA TAMBÉM: Em uma Copa repleta de craques, Matthäus consagrou o tri da Alemanha há 25 anos
Luciano Pavarotti, Plácido Domingo e José Carreras tornaram-se populares ao longo da década de 1980. Mesmo cantando ópera, o trio de músicos começou a ganhar notabilidade além do restrito público do gênero. E a ideia de reuni-los veio do produtor italiano Mario Dradi. Ele queria aproveitar a Copa do Mundo para realizar um show beneficente e ajudar a fundação criada por Carreras, que acabara de superar uma leucemia. A iniciativa de dar as boas-vindas no retorno do amigo foi bem recebida por Pavarotti e Domingo, que se empolgaram ainda mais com a possibilidade de juntá-la ao Mundial. Enquanto Carreras e Domingo são fanáticos por Barcelona e Real Madrid, respectivamente, Pavarotti chegou a atuar na base do Modena.
Além de tudo, o momento era mais do que propício para a formação dos Três Tenores. A ópera Nessun Dorma, cantada por Pavarotti, tinha se tornado um hit. A canção embalava a abertura feita pela BBC para as transmissões do torneio, com imagens de craques históricos estilizadas em dourado. Da Grã-Bretanha, a versão do tenor ganhou as rádios de outros cantos do mundo. E ajudou a aumentar as expectativas sobre o show dos cantores.
Com carta branca da Fifa, a apresentação dos Três Tenores aconteceu na véspera da final entre Alemanha Ocidental e Argentina. O concerto foi realizado nas Termas de Caracala, construção da época do Império Romano. E contou com transmissão para mais de 100 países, com 800 milhões de espectadores. O evento alçou os três cantores a um patamar de popularidade ainda maior. Já o álbum lançado com a gravação ao vivo se tornou o disco de ópera mais vendido de todos os tempos, com mais de seis milhões de cópias. Além dos tenores, também se apresentaram na noite as orquestras do Maggio Musicale Fiorentino e do Teatro dell’Opera di Roma, conduzidas pelo maestro indiano Zubin Mehta.
VEJA TAMBÉM: Hino da Champions por pouco não foi “We Are the Champions”
O sucesso dos Três Tenores influenciaria a criação do hino da Champions League, em 1992 – com a escolha de uma ópera, em detrimento de ‘We are the Champions’, do Queen, como chegaram a cogitar na época. Além disso, a Copa do Mundo voltou a ser motivo para os cantores se reunirem outras vezes. O segundo show do trio aconteceu em 1994, em evento beneficente em Mônaco, semanas antes de se apresentarem na véspera da final do Mundial. O concerto, antes do tetra do Brasil, aconteceu no Dodger Stadium, em Los Angeles – e, na plateia ilustre, contou com a presença de Frank Sinatra, Gene Kelly, Arnold Schwarzenegger e Tom Cruise.
Depois disso, a fama dos Três Tenores levou Pavarotti, Carreras e Domingo a saírem em turnês mundiais, entre 1996 e 2003. Mesmo assim, não abandonaram a Copa do Mundo. O Campo de Marte, em Paris, transformou-se em palco dois dias antes da final do Mundial de 1998, enquanto o show em 2002 aconteceu na Yokohama Arena, ginásio que faz parte do mesmo complexo esportivo do estádio do penta.
ESPECIAL: Confira outras reportagens da Trivela sobre a tabelinha entre futebol e música
A tradição só seria quebrada em 2006, quando Pavarotti já sofria com os sérios problemas de saúde que o levaram a óbito no ano seguinte. Naquela ocasião, Domingo se apresentou sozinho no Estádio Olímpico de Berlim, e voltou a viajar em turnê pelo Brasil durante o Mundial de 2014. Como legado, os Três Tenores deixaram quatro discos, três deles gravados antes das finais das Copas, além de uma série de fãs de ópera que sequer conheciam o gênero antes – conquistados também com a ajuda do futebol.



