Collina: “O VAR não é a perfeição. Não é possível acertar tudo. Mas estamos próximos”
A Fifa aproveitou a pausa entre a fase de grupos e os mata-matas da Copa do Mundo para fazer um balanço sobre a arbitragem na competição até o momento. Nesta sexta, aconteceu uma coletiva de imprensa de quase duas horas, reunindo os ex-árbitros Pierluigi Collina, Massimo Busacca e Roberto Rosetti, que chefiam a arbitragem e também a implementação do uso do vídeo na competição. Responderam diversas perguntas, mas reafirmaram a avaliação positiva sobre a maneira como as partidas vêm sendo conduzidas até o momento. Sobretudo, apontaram como o VAR está sendo benéfico.
Segundo os números divulgados pela Fifa, o árbitro de vídeo conferiu 335 incidentes nas 48 partidas da fase de grupos. A comissão de arbitragem diz que 99,3% das decisões foram conduzidas corretamente. Todos os 112 gols foram conferidos, assim como outras situações ocorridas em campo. Ao todo, os árbitros de campo foram 17 vezes ao monitor rever as suas posturas. Destas, 14 foram alteradas através do VAR. Além disso, de todas as vezes em que houve conversas entre o árbitro em campo e a central de vídeo, em 95% a decisão de campo seria a correta mesmo sem a assistência do VAR. O tempo médio de consulta, quando os árbitros precisaram seguir à beira do campo para conferir as imagens no monitor, durou 80 segundos.
Em consequência do VAR, o número de pênaltis aumentou em relação às últimas Copas. Foram marcadas 24 penalidades, sete delas com a consulta ao vídeo na beira do campo. Além disso, há mais tempo de bola rolando neste Mundial, se comparado a 2014, com média de 56 minutos e 45 segundos de jogo. Os árbitros foram instruídos não apenas a aumentar os acréscimos ao final das partidas, como também a agirem com rigor diante dos jogadores que tentarem desperdiçar o tempo parando o jogo.
“O VAR não significa perfeição. Ainda podem ocorrer interpretações erradas ou mesmo erros, então não é a perfeição que pretendemos alcançar ao implementar o vídeo. Ainda precisamos diminuir o tempo relativo à consulta. Mas, em termos de acerto, preferimos gastar cinco ou dez segundos a mais para ter certeza. De todos os 335 lances na jurisdição do VAR, o acerto total foi de 99,3%. Não é possível acertar tudo. Mas estamos próximos”, apontou Collina, durante a entrevista coletiva.
Collina revelou que a Fifa se reuniu com jogadores, técnicos e outros membros de cada uma das 32 seleções. Ao longo dos últimos sete meses, transmitiram as mudanças das regras e como seria o procedimento com o VAR. “Quero agradecer aos jogadores e aos treinadores pelo comportamento. Nós estamos satisfeitos com isso. A média de cartões é compatível com outras grandes competições e o número de cartões vermelhos é definitivamente mais baixo, algo que prova o respeito dos jogadores. Nós orientamos os árbitros para serem precisos ao protegerem a imagem do jogo e a segurança dos jogadores”, apontou. “Falamos com cada uma das 32 seleções e passamos por todos os tópicos sobre as mudanças nas regras. Estivemos sempre disponíveis para explicações até o começo da competição, então surpreende que alguns tenham parecido precisar delas depois do início”.
O italiano também afirmou que ocorreram ajustes e aperfeiçoamentos no método do VAR durante a competição: “Vocês podem ter percebido que alguns incidentes desapareceram repentinamente ou começaram a ser punidos. É impossível estar certo desde o início, mas, como percebemos, pudemos intervir e nos sintonizamos com as melhores decisões. As coisas mudaram durante o torneio. O árbitro está acostumado a ser o chefe absoluto. Pedimos a eles que aceitem as orientações dos colegas. Não é fácil mudar. Quero agradecer a todos a aceitação por uma condução diferente do jogo”.
Collina aproveitou a ocasião para apresentar os áudios das conversas entre os árbitros de campo e os árbitros de vídeo em algumas decisões. O presidente do comitê de arbitragem cogita a hipótese de tornar estas conversas disponíveis aos torcedores em um futuro próximo, mas não ainda durante a Copa de 2018 “Podemos pensar nisso no futuro, mas agora acho cedo demais. Antes de correr, precisamos caminhar, mas isso pode ser interessante. Se você souber como e por que, as decisões serão mais aceitas pela comunidade do futebol”.
Entre os casos específicos, Collina falou sobre o gol da Suíça contra o Brasil e apresentou o áudio da conversa entre os árbitros. “Foi pedido o áudio do VAR, e sentimos que durante a competição não valia a pena. Agora, em um momento mais neutro, decidimos mostrar agora o que aconteceu naquele momento. Busacca e eu lembramos que as decisões podiam ser interpretativas. Contato por si só não significa falta. Em outros esportes pode ser. Não no futebol. Os árbitros falam entre si que há um contato leve. Os jogadores só reclamam após o lance no telão em câmera lenta. Houve checagem, houve avaliação, houve comunicação, e não foi marcada falta porque não houve a percepção de que havia erro claro”, avaliou.
Já Massimo Busacca ressaltou como o centro das decisões ainda permanece com o árbitro principal. O VAR é uma recomendação para atenuar os erros. No entanto, as avaliações subjetivas sempre cabem a quem está com o apito. Relembrou também que as análises podem divergir entre os próprios árbitros, mas ressaltou que não houve nenhum escândalo em relação às marcações.
“Quando era árbitro, tomei algumas decisões em que você só pode rezar para estar certo. Já tive de decidir simplesmente sem ver. Assumi muitos riscos, já acertei na sorte. O que queremos dar ao árbitro hoje é a maior possibilidade de acertar. É impossível ver tudo no campo. Por isso o VAR. Podemos fazer tudo bem por 89 minutos, mas não podemos errar aos 90. É nossa vida. É para nos ajudar a não errar aos 90 que temos o VAR”, apontou.
Apesar da satisfação da Fifa quanto à arbitragem, há federações que discordam. Além da CBF, a entidade que representa o futebol de Marrocos também entrou com uma reclamação formal junto à confederação internacional. Os marroquinos dizem que há “erros de arbitragem sérios” que culminaram na eliminação precoce e disse que o VAR foi usado conforme o interesse dos oponentes. E mesmo que existam outras reclamações pontuais, ao menos até o momento, não se nega o auxílio que o vídeo proporciona. Resta apenas alinhar melhor as situações e padronizar o seu uso, o que não ocorreu em todas as partidas.



