Cecilia sabe mais sobre Neymar, Brasil, Argentina e as expectativas para a Copa do Mundo
Uma argentina que vive em São Paulo está otimista com Brasil e Argentina e que os europeus estão em baixa
Caso o leitor ainda se lembre de mim, que passei por esta Trivela por tanto tempo, talvez me acompanhe pelas redes, e saiba que eu ando vendo pouco futebol. Cecilia, porém, tem visto bastante. Cecilia não é jornalista, não trabalha com futebol, trabalha em um restaurante, mas vai ao estádio com frequência. É de Rosário, é Newell’s e aqui é São Paulo. Cecília acha que “a Copa está pra nós”, nós sendo Brasil e Argentina, ela nasceu lá, mas mora aqui. Acha que a Argentina tem pequena vantagem. Pergunto por quê.
“Brasil está voando, os meninos estão voando. Só que o time tem que jogar para a estrela, e a estrela é muito mimada. Então se o Vini acabar com um jogo, o que você acha que vai acontecer. O menino vai ficar com ciúmes. Isso na Argentina não acontece”. O “menino”, a “estrela”, claro, são Neymar. E você pode até estar vendo o Neymar jogar todo fim de semana, diferentemente de mim, mas não tem como negar a sabedoria dessas palavras.
Em 2018, não canso de repetir, o Brasil perdia para a Bélgica no intervalo. Na volta ao gramado, Neymar foi o último a entrar em campo, de cabeça baixa. O time olha pra ele e é isso que vê: não deu, não vai dar. Isso se reflete em campo. Futebol, ninguém discute, não é só o que se joga dentro de campo. Não é nem nunca foi só habilidade. E isto é ainda mais verdadeiro em uma Copa do Mundo, campeonato curto, em que a coesão do elenco e o entrosamento do time fazem toda a diferença.
É evidente que Neymar é um jogador muito acima da média, um dos melhores do mundo hoje e provavelmente ainda o melhor do Brasil. Mas a Alemanha não ganhou a Copa de 14, assim como a Itália não ganhou a de 2006 e a Espanha não ganhou a de 2010 porque tinham craques que desequilibraram. Aliás, ainda que tivesse craques, a França e 2018 também não ganhou por causa deles. Assim como o Brasil de 2002 só ganhou porque o time tinha uma retaguarda com jogadores como Kleberson e Edmilson para permitir que Rivaldo, Ronaldo e Ronaldo brilhassem.
Em todos os casos quem ganhou foi o grupo. E o Brasil tem um baita grupo, provavelmente melhor como grupo do que o que ganhou em 2002, embora não tenha três craques daquele nível. O problema é que o grupo é desequilibrado, e joga por um cara que não joga por ele. Tite teve quatro anos para aprender a jogar sem Neymar, e para mostrar a Neymar que podia jogar sem ele. Ganhou a Copa América de 2019 sem ele e há jogadores no banco prontos para entrar em campo se solicitados – a começar, provavelmente, pelo próprio Vinícius Júnior.
A coroação de um trabalho em seleções nacionais é a Copa do Mundo, e antes do torneio em 2002 ninguém diria que aquele time estava pronto e coeso. O Tite de 2022 é mais técnico que o Felipão de 2002, ou pelo menos aparenta ser. Parece, também, porém, ser mais teimoso, e mais místico – um cara que apostou em Romarinho mais de uma vez e ganhou não tem como não ser místico. Eu, que não acredito em signo nem em estrela, mas sim em trabalho e em coletivo, me preocupo.
Cecília acha que os times europeus estão em baixa, e que Argentina e Brasil estão em alta. Se ambos ganharem seus grupos, não farão a final, mas sim uma semi. Cecília acha que se Neymar tivesse menos protagonismo, o time renderia mais, e ele também, e o Brasil seria campeão. Eu concordo com Cecília. Espero que Tite também concorde.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Trivela



