Catar viu seu plano receber um choque de realidade e tomou olé do Equador
Estilo de jogo da seleção catariana era baseada no estilo espanhol de posse de bola, mas nunca conseguiu controlar o jogo e viu o Equador fazer o que quis
O Catar chegou à Copa com proposta de jogo bem definida pelo seu técnico Felix Sanchez, um filho da escola barcelonista de futebol: posse de bola e controle do jogo, como contamos no Guia Trivela da Copa 2022, ainda que esse estilo estivesse com problemas no último ano. Conseguiu fazer isso em alguns momentos do ciclo, notadamente na Copa da Ásia, em 2019, o ápice do time. Chegou à Copa tentando fechar mais o time, diante da instabilidade recente. O que se viu na estreia na abertura da Copa do Mundo da qual ganhou o direito de ser sede foi um atropelo da realidade sobre a ideia e a esperança dos catarianos com a vitória do Equador por 2 a 0, que ainda saiu barata. O primeiro teste de verdade do Catar foi um fracasso.
O controle, muito baseado na ideia que Xavi Hernández exerceu no Al Sadd no seu período por lá antes de ir para o Barcelona, ficou só na ideia. Na prática, o Equador sabia o que fazer, soube agredir e foram os sul-americanos que controlaram o jogo com certa tranquilidade. Com os dois gols marcados no primeiro tempo, puderam dirigir o ritmo, reduzir o quanto quis e ainda se poupar ao longo da partida.
Dá para dizer que o Equador até se poupou no segundo tempo. O Catar pareceu incapaz de mudar o jogo, de tentar outro estilo, de buscar alternativas. Quem deu as cartas desde o começo do jogo foram os sul-americanos, não os anfitriões. Os equatorianos foram ofensivos, agressivos e poderiam ter feito até mais gols.
A Aspire Academy tem muitos méritos na formação de jogadores, com grande parte do elenco do Catar na Copa tendo passado por lá. A evolução em termos de jogo foi também bastante notável. Ganhar a Copa da Ásia, em 2019, foi surpreendente, porque o resultado pareceu vir antes do esperado e derrubando potências do continente, como Coreia do Sul e Japão. A Aspire Academy trouxe benefícios inegáveis, mas ela não é capaz de acelerar o tempo. Quando se fala em tradição no futebol, é também isso: experiência em tentar, errar e aprender. Essa é a parte que não dá para acelerar. Entre as muitas coisas que é possível comprar, experiência em grandes competições não é uma delas.
Como seleção, o Catar viveu uma mudança que foi significativa. Ser competitiva na Ásia em 2019 surpreendeu os próprios catarianos. O problema é que o time não parece ter trazido nenhuma melhora desde então. Acabou atropelado por uma realidade muito mais dura: diante de um time um pouco mais competitivo como o Equador, em um jogo que valia de fato. O time teve ao mesmo tempo problemas para se defender de um adversário que sabia o que fazer, enquanto também não conseguia criar jogadas, facilmente bloqueadas pelos sul-americanos.
Sim, porque o Catar jogou bastante pelo mundo nos últimos anos, tentando se preparar para este momento. Da Copa América à Copa Ouro, passando por uma participação fantasma nas Eliminatórias da Euro – fazendo amistosos com o time que folgava -, o Catar tentou se testar. Raras vezes esteve à altura do desafio.
O Equador não é das seleções mais fortes da América do Sul, como Brasil e Argentina, mas está acostumado a um nível de competição que o Catar não tem. Afinal, o time precisou batalhar com Paraguai, Colômbia e Chile pela vaga na Copa do Mundo. Venceu com sobras. Pode não ser do mesmo nível das duas potências do continente sul-americano, mas é um time competitivo, com experiência de Copa do Mundo anteriormente, ainda que tenha ficado fora em 2018.
O que a estreia na Copa mostrou é que o Catar tem uma ideia, mas que a realidade é muito mais dura do que os catarianos imaginaram. O investimento em categorias de base e formação ajuda e faz diferença, mas chegar ao nível mais alto, a Copa do Mundo, é outra história. Os 12 anos entre conquistar o direito de ser sede da Copa e estrear no torneio foram suficientes apenas para sair da irrelevância e tornar-se um time no nível dos Emirados Árabes Unidos.
O que o ciclo do Catar mostrou é que o time atingiu o seu ápice cedo demais, em 2019, e não conseguiu nem manter aquele nível, nem evoluir o seu jogo para resolver os problemas que apareceram. Na sua ideia de posse de bola, não conseguiu controlar o Equador em nenhum momento, a não ser quando o próprio Equador quis dar a bola ao Catar para contra-atacar.
Considerando que o Equador é, provavelmente, o time mais acessível que o Catar enfrentará nesta primeira fase, é mau sinal para os asiáticos. Os Países Baixos, ou Holanda, são adversários bem mais fortes, favoritos a chegarem à segunda fase. Senegal, mesmo sem Sadio Mané, é um time muito forte da África, que tende a se impor. Se contra o Equador o Catar sofreu, o time precisará melhorar muito e jogar em um nível acima se não quiser sofrer contra os dois próximos rivais e sair desta fase de grupos sem um ponto sequer.
O Catar teve a sua primeira experiência no futebol e viu que mudar tão radicalmente o futebol do país é muito difícil. Pode ser possível para uma potência como a Alemanha mudar o futebol do seu país em 10 anos, mas para uma seleção irrelevante como o Catar chegar ao ponto de se tornar competitivo é preciso mais.



