Copa do Mundo

Casemiro inicia uma Copa gigante: o gol é um prêmio pelo que faz, uma reafirmação de sua importância

Casemiro foi o senhor dos espaços nos dois primeiros jogos da Seleção e, com seu entendimento privilegiado do jogo, soube o momento de brilhar contra a Suíça

Casemiro é daqueles jogadores que dão gosto de ver com a camisa da Seleção. O volante sempre explicita a diferença que faz dentro do time, com efetividade, sem firulas. Obviamente, numa seleção tão grandiosa quanto o Brasil, as taças demarcam os degraus da história. Mesmo assim, o lugar do meio-campista entre os maiores camisas 5 brasileiros é bastante alto. E na posição de referência dentro de um elenco cheio de jovens, Casemiro exibe o senso de oportunidade no Catar. Sabe que pode escrever seu nome em definitivo nesta Copa. O cabeça de área começou o Mundial voando baixo, com duas excepcionais atuações contra adversários duros. E se a trave impediu seu gol contra a Sérvia, o prêmio viria contra a Suíça. Case cravou a vitória por 1 a 0 com seu tirambaço, numa exibição em que foi muito mais do que isso, senhor dos espaços no meio-campo brasileiro.

As virtudes de Casemiro dentro de campo são muitas. Dá para falar sobre a sua capacidade no combate, sobre a entrega constante, sobre a potência quando sobe no apoio. Mas nenhuma delas se compara à sua inteligência na leitura de jogo. O volante possui um entendimento raro do aspecto tático, num esporte no qual a visão ampla sobre os espaços é fundamental. Se pouquíssimos são os jogadores com uma compreensão tão aguçada do jogo, mais seletos ainda são os camisas 5 no nível de Casemiro. Não só na atualidade, mas em diferentes eras da modalidade. Contar com o meio-campista é um luxo, mesmo que seu trabalho tantas vezes seja silencioso. É o eixo principal num Brasil repleto de talento ofensivo, mas que começa a Copa ainda melhor na defesa.

A Seleção, até o momento, fez 180 minutos muito bons no aspecto defensivo. Se a partida contra a Sérvia teria muito vigor nos combates, a cobertura diante da Suíça beirou a perfeição. É verdade que os brasileiros cometeram por vezes alguns deslizes e quase entregaram o ouro em zonas perigosas. Mas foi importante como o time nunca deu uma segunda chance aos vacilos. Sempre surgia alguém para corrigir. Muitas vezes era Casemiro, com sua leitura de jogo e também a influência de área a área. Um lance que resumiu isso veio num passe errado de Alisson no primeiro tempo, para logo o camisa 5 aparecer e neutralizar o perigo, sem se abalar.

A segurança de Casemiro é contagiante. O meio-campista parece pensar sempre no presente e já calcular os próximos passos. Alisson quase carimbou Breel Embolo no segundo tempo? Casemiro não se impactou e tratou de aproveitar a oportunidade que surgiu da bola espirrada, ao armar o contra-ataque. Havia um campo livre para avançar e o volante iniciou a melhor jogada do Brasil na partida até então, com um passe que quebrou as linhas e em poucos movimentos gerou a trivela de Vinícius Júnior que Richarlison ficou a um triz de completar. O camisa 5 transmite uma lição: é preciso ficar sempre atento, não só para minimizar os riscos, mas também para encontrar caminhos. Sempre em frente.

E, ao longo do segundo tempo, Casemiro encontrou esses caminhos. O volante não só protegeu a cabeça de área no momento em que a Suíça mais incomodou, mas também percebeu como tinha possibilidade de avançar e atuar como um meia, especialmente quando Bruno Guimarães entrou. Isso já aconteceu no lance do gol anulado. Case estava bem mais adiantado do que se suporia. Acompanhou a trama da equipe, leu uma diagonal aberta para se movimentar e aproveitou a antecipação de Rodrygo para abrir o passe a Vinícius Júnior, solto pela ponta esquerda. Um impedimento que ninguém havia percebido anulou o tento, mas não é isso que reduz a qualidade de construção do lance.

Se a partida permitia mais atitude de Casemiro, uma hora seu momento ia aparecer. Aconteceu numa fase importante do duelo, na qual o Brasil era superior, mas necessitava de um gol para se provar e carimbar o domínio. Os meninos que Case acolheu como seus irmãos mais novos no Real Madrid, Vinícius e Rodrygo, auxiliaram demais. É um entrosamento que beneficia a Seleção, especialmente quando se reúne técnica e entendimento. Vini surgiu como a ameaça, Rodrygo raciocinou rápido e Casemiro se apresentou para resolver. Sabia o que os companheiros poderiam fazer e como ele mesmo tinha capacidade para mudar a história da partida. Houve um leve desvio, é verdade, mas a pancada cheia de estilo é uma marca de que, quando pode, o camisa 5 exibe uma técnica tão elevada quanto seus níveis táticos e físicos. Guarda isso para instantes certos.

É a segunda Copa do Mundo de Casemiro. Só ele sabe o que significou perder aquela partida contra a Bélgica por suspensão. E, aos brasileiros, só resta imaginar o que dava para ser diferente com o camisa 5 em sua posição. Case, entretanto, demonstra como é mais importante pensar no presente e calcular os próximos passos. É o que faz. Demonstra como o novo Mundial é seu objetivo. Não dá para duvidar de um cara que foi tão grande, e tão central, a um Real Madrid que não se cansou de conquistar a competição mais prestigiosa de clubes.

A Seleção possui uma lista privilegiada de volantes silenciosos, mas essenciais em momentos gloriosos. Mauro Silva e Gilberto Silva contribuíram inegavelmente aos dois últimos títulos mundiais. Casemiro se encaixa nessa linhagem, mesmo que consiga se sobressair ainda mais quando entende que pode se soltar, e tem qualidade para tal. Case sabe que esse é o seu momento e se mostra disposto a impor o futebol do Brasil. Dominou o centro do campo e terminou a noite com um lembrete de seu tamanho para a Seleção.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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