Copa do Mundo

A coletividade holandesa dominou o bando de brasileiros soltos em campo

A crônica

Na sala de aula do Mineirão, os professores alemães deram uma palestra de futebol bem jogado para uma turma brasileira bagunçada. Luiz Felipe Scolari, que poderia estar atentamente assimilando as lições, aparentemente preferiu mexer no celular a dar ouvidos aos mestres. Contra a Holanda, na disputa pelo terceiro lugar, os erros crassos de marcação e, principalmente, posicionamento, continuaram. O resultado foi a vitória holandesa por 3 a 0, contra um bando de jogadores apenas soltos e espalhados pelo campo. Com isso, Van Gaal, que até mesmo desprezava essa disputa de terceiro lugar, deixa a Copa do Mundo com seu último objetivo: uma campanha invicta, coisa inédita para a Oranje.

Como quem atribui os erros e defeitos cometidos a peças específicas, Felipão mudou o time, tirando Fred para colocar Jô; Ramires e Willian nos lugares de Hulk e Bernard, Maxwell na vaga de Marcelo. Teoricamente, essa última das mudanças visava o fortalecimento da marcação no lado esquerdo, o que não funcionou nem um pouco. Os dois gols da Holanda no primeiro tempo vieram por ali.

Logo aos três minutos, a defesa brasileira posicionada em linha foi previsivelmente surpreendida com um chutão que chegou a Van Persie, que ajeitou a bola para a arrancada de Robben. O holandês partiu em disparada e acabou puxado por Thiago Silva. Em sintonia com a seleção brasileira, a arbitragem fez a primeira de suas decisões erradas. Primeiro, ao apontar pênalti para a Oranje, quando a infração aconteceu fora da área. Segundo, ao dar apenas o amarelo para o capitão brasileiro, que merecia o vermelho, por ter impedido uma chance clara de gol.

Na cobrança, Robin van Persie, que não brilhava desde a estreia holandesa contra a Espanha, se consagrou com um ótimo chute no ângulo esquerdo de Julio César, que até acertou o canto, mas não alcançou a bola. A Holanda fazia 1 a 0, e tínhamos apenas três minutos passados no relógio.

Pior que a marcação brasileira apenas sua armação de jogadas. Assim como contra a Alemanha, quando tinha a bola, o Brasil recuava Luiz Gustavo para uma linha de três com Thiago Silva e David Luiz, e os laterais simplesmente sumiam da tela. Aproximando-se dos três, apenas Fernandinho e, eventualmente, Oscar, depois que este percebeu que a bola não chegaria a seus pés através de passes dos companheiros. Como simples consequência disso tudo, o recurso brasileiro para chegar ao terço final era a ligação direta, facilmente aniquilada pela defesa bem postada da Holanda.

Enquanto isso, Robben e Van Persie circulavam pela intermediária do ataque holandês com liberdade. Posicionados entre a linha de defesa e os dois cabeças de área, Luiz Gustavo e Paulinho, os dois recebiam a bola livres o tempo todo. Dessa maneira, a Holanda chegou a seu segundo gol. Robben tocou para De Guzmán, que, impedido, cruzou a bola na área. David Luiz afastou mal a bola, e, Blind, sozinho, pegou a sobra para fazer 2 a 0 ainda aos 17 minutos.

Só depois disso o Brasil criou sua primeira chance de gol na partida, e ela foi bastante sintomática para sintetizar o que foi o setor ofensivo brasileiro no jogo. Oscar fez jogada individual aos 20 minutos, partindo do lado direito, driblando holandeses no caminho até chegar ao centro do campo. Pouco antes da entrada da área, tentou a finalização, mas o chute saiu fraco, e Jasper Cillessen caiu para fazer facilmente a defesa.

Com a marcação intensa de Stefan de Vrij em Willian, de maneira individual, o Brasil deixava de atacar pelo lado esquerdo, concentrando suas jogadas pela direita, com Ramires e Oscar, que também caía por ali. Paulinho praticamente não existia no jogo. Mal na marcação, também não auxiliava com efetividade a criação de jogadas. Sem essas jogadas trabalhadas, o Brasil passou então a tentar cavar faltas na entrada da área e a tentar o gol em bolas levantadas para o cabeceio. Levou perigo, mas não suficiente para diminuir a desvantagem.

No segundo tempo, nada mudou para o time brasileiro, que seguiu indo ao ataque sem ordem, sem uma troca boa de passes, sem trabalho coletivo. Aos 15 minutos, Ramires deu o primeiro chute perigoso do Brasil, mas a jogada foi fruto de sua individualidade e de uma casualidade. O meio-campista recebeu a bola na intermediária, driblou um holandês e finalizou à direita do gol de Cillessen.

A história da partida seguiu assim por alguns minutos, Felipão fez algumas substituições, mas nada que mudasse o panorama da partida. A Holanda pouco atacava, mais por se preservar e focar a marcação que por falta de qualidade. Eventualmente, o ímpeto brasileiro se esvaiu, e as avançadas do time, consequentemente, também. Então, já aos 46 minutos da etapa complementar, mais uma vez pela esquerda, a Oranje chegou ao terceiro gol. Robben rolou para Janmaat, que cruzou rasteiro para Wijnaldum completar com um chute fraco, mas bom o bastante para superar Julio César e balançar a rede.

Foi dessa maneira melancólica que a seleção brasileira se despediu da Copa em seu próprio país. Os comandados de Felipão então sequer esperaram a condecoração das medalhas aos adversários holandeses, que fizeram a festa no gramado do Mané Garrincha como donos do campo, coisa que de fato aconteceu durante os noventa minutos. Como todos sabiam, e como essa disputa de terceiro lugar evidenciou, não foram apenas “seis minutos de pane”.

FICHA TÉCNICA

Brasil 0×3 Holanda

Brasil

Brasil escudoJulio César; Maicon, Thiago Silva, David Luiz e Maxwell; Paulinho (Hernanes, 12’/2T), Luiz Gustavo (Fernandinho, intervalo), Ramires (Hulk, 28’/2T), Oscar e Willian; Jô. Técnico: Luiz Felipe Scolari.

Holanda

Holanda EscudoJasper Cillessen (Michael Vorm, 48’/2T); Stefan de Vrij, Ron Vlaar e Bruno Martins Indi; Dirk Kuyt, Jonathan De Guzmán, Jordy Clasie (Joel Veltman, 45’/2T), Daley Blind (Daryl Janmaat, 26’/2T)e Georginio Wijnaldum; Robin van Persie e Arjen Robben. Técnico: Louis van Gaal.

Local: Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília

Árbitro: Djamel Haimoudi (AGL)

Gols: Van Persie, 3’/1T, Blind, 17’1T, Wijnaldum, 46’/2T

Cartões amarelos: Thiago Silva, Arjen Robben, Jonathan De Guzmán, Fernandinho, Oscar

Cartões vermelhos: Nenhum

O cara

Arjen Robben

Aos 30 anos, mas com o fôlego de um garoto de 22, Robben correu muito, driblou e deixou a zaga brasileira em apuros em diversas oportunidades. Além de articular boa parte das jogadas perigosas da Oranje, iniciou as jogadas de dois gols e sofreu o pênalti que resultou no primeiro gol da partida. Vai para a disputa da Bola de Ouro da Copa do Mundo como um forte candidato.

Os gols

3’/1T: GOL DA HOLANDA!

Van Persie bate pênalti com perfeição, no ângulo esquerdo alto de Julio César, que acerta o canto, mas não alcança a bola.

17’/1T: GOL DA HOLANDA!

De Guzmán recebe bom passe de Robben em posição de impedimento e cruza para a área. David Luiz afasta mal de cabeça, e Blind pega a sobra para fazer o segundo da Holanda.

46’/2T: GOL DA HOLANDA!

Robben ajeita para Janmaat, que cruza rasteiro para Wijnaldum, sozinho, bater fraco, de dentro da área, para fechar a vitória em 3 a 0.

A Tática

Escalações iniciais de Brasil e Holanda
Escalações iniciais de Brasil e Holanda

Com a bola, o único padrão tático seguido pelo Brasil era o recuo de Luiz Gustavo para a linha de zagueiros, para auxiliar na marcação, e a subida dos laterais. No ataque, Oscar era o que mais se movimentava, enquanto Willian e Ramires, estáticos, eram facilmente marcados. Jô era apenas a referência na frente para tentar dominar a bola após ligações diretas. Bem postada, a Holanda, com o meio-campo bem povoado, anulava o setor brasileiro, enquanto Wijnaldum e De Guzmán alternavam posicionamento na hora da armação de jogadas, e Robben e Van Persie ficavam posicionados mais à frente, bem colocados entre as linhas de defesa e meio de campo brasileiras.

A Estatística

23

Com a entrada de Vorm no lugar de Cillessen, no fim do jogo, a Holanda utilizou todos os seus 23 convocados, o maior número de jogadores colocados em campo por uma seleção em uma Copa do Mundo.

Foto de Leo Escudeiro

Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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