O discurso de Fair Play da possui uma série de idealismos sobre jogo limpo. Idealismos estes que não passaram pela cabeça da torcida em Volgogrado durante os minutos finais entre Japão e Polônia, pela terceira rodada do Grupo H da Copa do Mundo. Enquanto os jogadores japoneses tocavam a bola passivamente, as vaias ecoavam nas arquibancadas. É difícil dizer com 100% certeza, mas há todos os indícios de que os nipônicos estavam conscientes sobre a sua situação naquele momento. Com a vitória da Polônia por 1 a 0 e a da Colômbia por 1 a 0, os Samurais Azuis superavam Senegal na tabela graças ao chamado “critério disciplinar”, o número de cartões amarelos. Se os poloneses marcassem um gol ou os senegaleses empatassem, a situação mudaria aos asiáticos. Então, preferiram evitar os riscos e confiar nos colombianos. O toque de bola desinteressado e até mesmo a terceira alteração, colocando o volante Makoto Hasebe, reforçam a noção quanto à intenção.

A postura do Japão causa a revolta em muita gente, o que é natural. O time desistiu da partida para confiar no regulamento – com uma ajuda também da Polônia, que não se empenhou na marcação. A “covardia” ao final poderia ter custado caro com um gol de Senegal – que, por sua vez, só se interessou pelo duelo contra a Colômbia quando não tinha mais o empate favorável. Do outro lado da moeda, os Samurais Azuis têm o seu raciocínio, ao conhecerem as condições para avançar e se agarrarem a ela como uma estratégia de (não) jogo. Não tomaram gols e muito menos se envolveram em qualquer entrevero que pudesse gerar cartões amarelos. Horas depois, as suspeitas no mesmo sentido recairiam sobre Bélgica e Inglaterra, que, durante alguns minutos, decidiriam a liderança do Grupo G no número de cartões. O gol de Adnan Januzaj, ao menos, afastou as intenções escusas sobre o assunto – em um duelo, de fato, pouco empolgante.

A avaliação sobre a postura dos nipônicos é algo completamente subjetivo. Eu, pessoalmente, acho lamentável por não respeitar o torcedor que assistia ao jogo, principalmente aquele que pagou o ingresso e se esforçou para estar nas arquibancadas, e também por se agarrar justamente na possibilidade que fugia das próprias forças, podendo ruir por este medo. Ainda assim, compreendo mentalidades diferentes e não tenho opinião melhor ou pior de quem discorda. Independentemente do que eu e você achamos, vale questionar o critério da Fifa, ao considerar a disciplina.

Dizer que o fair play faz parte dos critérios de desempate é uma jogada para a imagem da Fifa, acima de tudo. Valoriza o “jogo limpo” e o time que menos cartões. Além do mais, as chances de precisar recorrer a um critério como esse são mínimas. No entanto, em uma Copa do Mundo de tantos placares apertados, ele veio à tona. E pela primeira vez na história dos Mundiais, decidiu a classificação de uma equipe, pendendo ao Japão. Só que o método se sugere imperfeito, justamente por ser bastante subjetivo.

Cartões no futebol são critérios totalmente de opinião do árbitro. Há as recomendações da Fifa, é claro. Mas a decisão de mostrar o amarelo ou o vermelho passam pelo crivo do homem do apito. Alguns juízes são mais rigorosos em marcações do que outros, e isso se viu na própria Copa do Mundo. Outros, não aplicam o mesmo critério sequer na mesma partida. Não dá para dizer que tal subjetividade tenha ajudado ao Japão ou prejudicado Senegal, mas cria um terreno arenoso, pronto para indagações. Um árbitro de mau humor pode ser a linha tênue entre a classificação e a eliminação. Ou, como o amigo Paulo Júnior ressalta, o cartão pode não significar a violência, mas variar conforme o momento do jogo, a intensidade, a intenção. A temperatura de um jogo mais intenso, não necessariamente desleal, pode tornar os cartões em uma ferramenta para apaziguar os ânimos.

O ideal à Fifa seria adotar critérios objetivos – assim como são os pontos, o saldo de gols, os gols marcados ou o confronto direto. Em uma infinidade de estatísticas (sobretudo quanto às finalizações e os aproveitamentos em campo), há margem para isso. Qual for o “critério menor”, sempre haverá prós e contras. Mas, ao menos, diminui o peso da subjetividade. Obviamente, a subjetividade também pode gerar critérios objetivos. Um pênalti mal marcado ou uma exagerada ditam os rumos de uma partida. Mas há um peso totalmente diferente em uma decisão capital dessas, que é parte integrante do jogo, e de um cartão corriqueiro. Uma reclamação, que passa batida por um árbitro e por outro não, talvez se torne muito mais importante do que deveria.

Um jogo extra, como já chegou a ocorrer nas fases de grupos das Copas de 1954 e 1958 (naquela época, critério que vinha logo abaixo dos pontos, independentemente do número de gols marcados ou do confronto direto), seria o ideal para episódios extremos como esse de Japão e Senegal. No entanto, está fora de cogitação no atual formato do Mundial, até pelas longas viagens e pelos dias contados. Mas é possível tentar encontrar outros caminhos para evitar o sorteio, como as já citadas estatísticas. Na próxima Copa, a ver como será o impacto das mudanças recentes, o Ranking da Fifa talvez seja um caminho aceitável. Ou o desempenho histórico, o que for.

E há outro ponto de discussão pertinente, embora fuja dos critérios de desempate: a passividade de alguns times na rodada final. Não é um problema novo, e já foi muito pior, como o Áustria x Alemanha arranjado em 1982 ajuda a escancarar. Os duelos no mesmo horário, em teoria, ajudariam a diminuir o impacto disso. Não foi o que se viu nesta semana. É bem difícil encontrar uma forma de evitar que qualquer time jogue pelo regulamento. Mas aí vem a má notícia: deve piorar no Mundial com 48 times e grupos com três candidatos a duas vagas. A Fifa precisa reavaliar a fórmula. A noção de competitividade vai para o ralo com essa passividade explícita.