Copa do Mundo

Arnautovic, o talento à beira do caos: A última dança de um rebelde da Áustria na Copa do Mundo

Atacante vive reta final da carreira carregando talento, controvérsias e um legado complexo que mistura protagonismo em campo com episódios fora dele

Quando a seleção austríaca olhar para a Copa do Mundo de 2026 como um possível ponto final de ciclo, será impossível não enxergar a figura de Marko Arnautovic como símbolo dessa geração. Não apenas pelo que produziu dentro de campo, mas por tudo o que representou fora dele.

Hoje jogador do Estrela Vermelha, Arnautovic construiu uma carreira marcada por extremos. Em um dia, decisivo, dominante, praticamente imparável. No outro, protagonista de polêmicas que colocaram sua imagem em xeque em diferentes momentos da trajetória.

Mais do que um atacante talentoso, ele sempre foi um personagem.

Arnautovic precisava do caos para brilhar

Ao longo da carreira, ficou claro que Arnautovic operava de uma forma pouco convencional. Para muitos, seu melhor futebol surgia justamente quando estava emocionalmente no limite.

Na Premier League, isso virou quase uma assinatura. Pelo Stoke City e depois com o West Ham, acumulou episódios em que transformava irritação em desempenho.

Um dos mais lembrados veio em 2018, quando, pelos Hammers, enfrentou o Southampton. Motivado por uma rivalidade pessoal com Mark Hughes, seu ex-treinador, Arnautovic marcou dois gols, comemorou de forma provocativa e deixou o campo encarando o técnico adversário.

Arnautovic é o recordista de jogos e gols da seleção austríaca
Arnautovic é o recordista de jogos e gols da seleção austríaca (Foto: IMAGO / Branislav Racko)

Não foi um caso isolado. Em 2015, contra o próprio West Ham, ainda pelo Stoke, teve dois gols anulados e reagiu com fúria, o suficiente para dominar o restante da partida e marcar o gol de empate nos acréscimos. A lógica parecia simples: quanto mais irritado, melhor ele jogava.

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A Euro 2020 e o episódio que marcou sua carreira

Se por um lado essa intensidade ajudava dentro de campo, por outro, trouxe consequências sérias. O ponto mais crítico veio na Eurocopa disputada em 2021.

Na estreia da Áustria contra a Macedônia do Norte, Arnautovic saiu do banco para marcar o terceiro gol da vitória por 3 a 1. O que deveria ser apenas um momento de celebração virou um escândalo internacional.

Após o gol, ele se dirigiu ao adversário Ezgjan Alioski com insultos que foram interpretados como ofensivos em termos étnicos — além do gesto de “ok” com a mão, que tem sido historicamente ligado a ideais de supremacia branca. A reação foi imediata: David Alaba precisou intervir fisicamente, tapando sua boca para conter o descontrole.

A Uefa abriu investigação e aplicou uma suspensão. Embora o jogador tenha pedido desculpas e negado racismo, o episódio expôs um lado que já era conhecido, mas nunca havia atingido tamanha proporção.

O contexto agravou ainda mais a situação. Arnautovic tem ascendência sérvia, enquanto Alioski possui raízes albanesas, uma relação historicamente marcada por tensões geopolíticas nos Bálcãs, especialmente após a Guerra do Kosovo.

Mesmo sem enquadrá-lo em infrações mais graves de discriminação, a Uefa o puniu por conduta ofensiva. A imagem, no entanto, já estava consolidada.

Reincidência e uma reputação de ‘bad boy’ da Áustria

O caso da Euro não surgiu do nada. Anos antes, em 2009, ainda jovem, Arnautovic já havia sido acusado de usar insulto racial contra um adversário durante sua passagem pelo Twente. A investigação foi arquivada por falta de provas, mas o episódio ficou registrado.

Ao longo dos anos, relatos de comportamento explosivo, confrontos com companheiros e atritos com treinadores se acumularam. Quando José Mourinho o descreveu como alguém com “atitude de criança” durante sua passagem pela Internazionale, não era apenas uma crítica pontual, era um diagnóstico recorrente.

Arnautovic sempre pareceu jogar no limite. E, muitas vezes, ultrapassá-lo. E apesar das controvérsias, seu peso dentro da seleção austríaca é inegável. Arnautovic foi, e ainda é, uma das principais referências ofensivas do país — tanto que se tornou o jogador com mais jogos (132) e gols (47) da história da seleção.

Arnautovic em polêmica na Euro de 2021
Arnautovic em polêmica na Euro de 2021 (Foto: IMAGO / GEPA pictures)

Sua importância vai além dos números. Ele representa uma geração que recolocou a Áustria em competições relevantes, tornando a equipe mais competitiva no cenário europeu. E é justamente essa dualidade que torna sua história tão intrigante.

Ao mesmo tempo em que protagonizou momentos de indisciplina, também foi decisivo em jogos importantes. Um jogador capaz de mudar o rumo de partidas e, às vezes, o clima inteiro ao seu redor.

O último ato na Copa do Mundo de 2026?

A Copa do Mundo de 2026 surge como possível despedida. Aos veteranos, o torneio costuma representar fechamento de ciclo. Para Arnautovic, que completou 37 anos em abril, pode ser também uma oportunidade de redefinir a narrativa final da carreira.

Não será possível apagar o passado, nem suas polêmicas, nem suas explosões. Mas ainda há espaço para um último capítulo relevante dentro de campo. No fim das contas, Arnautovic nunca foi apenas sobre futebol. Foi sobre intensidade, contradição e personalidade levada ao extremo.

No elenco austríaco, o atacante é o capitão e tem sido um dos grandes nomes ofensivos do time, mesmo com a idade. Majoritariamente titular nos últimos jogos da equipe de Ralf Rangnick, também alterna momentos na reserva.

Quando é titular, é um clássico camisa 9. Mais lento do que antes, procura um jogo associativo prendendo a bola e se faz mais presente na área. E tem menos obrigações defensivas, uma vez que não consegue naturalmente acompanhar o ritmo mais intenso de pressão que o treinador gosta.

Arnautovic nunca foi um jogador comum. Criado em um bairro difícil de Viena, cercado por diferentes culturas e tensões sociais, ele aprendeu cedo a sobreviver e se impor em ambientes hostis. O futebol, nas quadras de concreto, não era coletivo: era sobrevivência, improviso e personalidade.

Esse contexto explica muito do jogador que o mundo viu. Um jogador que, ao longo da carreira, provou algo: às vezes, o mesmo fogo que te impulsiona é também o que te coloca em risco. E poucos viveram tão perigosamente perto desse limite quanto ele.

Arnautovic em jogo do Estrela Vermelha
Arnautovic em jogo do Estrela Vermelha. Foto: IMAGO / Starsport
Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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