Aperitivo pra Copa: Leia um capítulo do livro “Anatomia do Sarriá”, disponibilizado pela Editora Grande Área
"Anatomia do Sarriá" reconstrói a história dos protagonistas, dos fatos e das consequências ao redor de uma das partidas mais memoráveis da história dos Mundiais

Para quem já está com a cabeça na Copa do Mundo, a Editora Grande Área oferece um presentaço para os leitores da Trivela. Você pode ler abaixo um capítulo do livro ‘Anatomia do Sarriá – Brasil x Itália, 1982’, de Piero Trellini. O livro reconstrói a história dos protagonistas, dos fatos e das consequências ao redor de uma das partidas mais memoráveis da história dos Mundiais. Há um prisma diferente para revisitar as memórias sobre aquele jogo, com uma coleção de informações e um texto leve. O capítulo abaixo apresenta Abraham Klein, o árbitro de Itália 3×2 Brasil. Um juiz de ampla experiência, que esperava seu último grande momento na carreira, enquanto lidava com um drama pessoal – seu filho havia sido enviado para a guerra pelo exército israelense. O próprio Klein era um sobrevivente do Holocausto.
Como descreve a sinopse, o livro traz “uma epopeia costurada a partir de uma profusão de histórias paralelas, algumas delas sem conexão aparente, porém todas interligadas pelo destino. Iniciando o texto no que chama de ‘pré-história’ do jogo, o autor recupera a origem dos personagens fundamentais do confronto, de Telê Santana a Enzo Bearzot, de Zico e Sócrates a Gentile e Paolo Rossi, para tentar explicar os pormenores do duelo, disputado em um estádio que já não está de pé, mas permanece na memória de quem viu ou viveu aqueles noventa minutos”. O capítulo sobre Abraham Klein faz parte do prólogo.
Para quem se interessar pelo livro, “Anatomia do Sarriá” está à venda pelo site da Editora Grande Área, disponível através desse link. Fica o convite também para visitar a loja online da editora, que permanece em promoção de Black Friday, com todos os seus títulos com até 50% de desconto. A loja está disponível por este link.
*****

O homem que veio de Haifa
Cinco da tarde, a hora das touradas. Um homem sozinho está no centro do gramado do estádio Sarriá de Barcelona. Seu nome é Abraham Klein. Usa um relógio em cada pulso: um, tradicional; outro, digital. Não pode deixar nada ao sabor do acaso, não pode certamente se permitir errar. Justo agora, logo hoje. É o seu dia. Há uma semana, foi devastado pelo desaparecimento de seu filho. Agora está prestes a dirigir sua única partida na 12a. Copa do Mundo, na Espanha: o último confronto do Grupo C, Itália versus Brasil. Em disputa, a vaga na semifinal. Quem passar se recoloca entre as quatro primeiras seleções do mundo.
É uma segunda-feira. Para estar aqui, Klein superou todo tipo de preconceito, dificuldade e manobras políticas. Mas é um sobrevivente e não tem medo de mais nada. Deve ser por isso que exibe todo o espaço de sua testa fixando o cabelo para trás, como se usava em outras épocas. Talvez não faça jus a seus 48 anos, mas para ele está bem assim. Precisão, rigor, clareza, honestidade e coragem são os seus valores. E Klein pertence à geração que confia à aparência a tarefa de o apresentar. Veste uma blusa de algodão de manga comprida, completamente preta, à exceção da gola larga e dos punhos brancos. Na altura do coração, um bolso cheio de todo o seu orgulho. Acima dele, a estampa diz “Juiz Fifa”, e, bordadas entre essas simples palavras, que fazem dele um árbitro internacional do órgão máximo do futebol, veem-se as duas faces do planeta. Sobre uma, encontra-se a Itália. Sobre a outra, o Brasil. Faz um calor insuportável. Trinta e quatro graus à sombra; no campo, serão 40.
Veio à Espanha diretamente de Haifa, onde supervisiona as atividades atléticas das escolas israelenses para o Instituto da Saúde. Treina todos os dias. Dez quilômetros de corrida, duas horas de ginástica, dieta rigorosa, checagem da frequência cardíaca. Às vésperas da Copa do Mundo no México, para se habituar à altitude, escalou as montanhas da Galileia; antes do Mundial disputado na Argentina, escolheu o clima da Cidade do Cabo. Dessa vez, temendo que sua forma física não pudesse mais alcançar o nível dos anos anteriores, contratou um preparador físico. Klein perdeu nove quilos em quatro semanas e treinou o corpo para suportar uma carga de estresse físico por 120 minutos, de modo a estar pronto para a prorrogação, caso viesse a ser necessária. Um massacre para um homem no limiar dos 50 anos. Mas ele sente que deve fazer tudo isso: o árbitro é um só contra 22 homens. E deve estar sempre no lugar certo. Se errar uma decisão, pode destruir o jogo. Em vez disso, quer dominá-lo; por isso, estuda continuamente os vídeos. Tenta entender as táticas das equipes, conhecer seus elementos, ver quais jogadores teriam a tendência de intimidar os adversários. Ou os árbitros. Evita usar as palavras em campo. Seu papel é o de fazer a gestão do jogo, sem dar explicações. Todavia, antes de cada encontro, procura igualmente aprender as expressões básicas da língua de cada lugar. Fala perfeitamente hebraico, inglês, húngaro e romeno, e também alemão, espanhol, francês e italiano, porque na escola lhe ensinaram o latim, e as línguas europeias são todas filhas da mesma mãe.
Por mais de uma década, ele domou os melhores do mundo e agora acha que conheceu todos os segredos sobre o que é ter controle. Mas a Copa do Mundo espanhola acabou de lhe dar um ensinamento de que não poderá se esquecer. Uma lição marcada por três telefonemas cruciais que mudaram para sempre o curso de sua vida.
O primeiro acontece em março. Aguarda-se a lista dos árbitros que farão parte da Copa, mas, com a classificação de Kuwait e Argélia, as emissoras de televisão árabes ameaçam boicotar o Mundial se for permitido a um israelense dirigir um confronto. A Fifa se reúne. O veredito é marcado para a segunda-feira, dia 15, e naquela manhã Klein está tomado por uma insólita inquietude. Em 1970, o chamado mal de Montezuma não o deixou ir mais à frente no torneio; dois anos depois, o massacre da equipe olímpica israelense em Munique o impediu de fazer parte do Mundial alemão de 1974; no seguinte, a ditadura argentina negou-lhe a final. Agora, que outra coisa poderia acontecer? A Copa da Espanha será a de Zico, Platini, Rummenigge, Boniek, Maradona, e ele não quer faltar. Caminha pela casa, impaciente, brinca nervosamente com o telefone, levanta o fone para verificar se dá linha. Até que o aparelho finalmente toca. “Você é um dos 44”, comunica uma voz do outro lado da linha. “Abraham, você conseguiu: vai à Copa do Mundo!” Sua candidatura foi aprovada por unanimidade na 59a reunião da Comissão de Árbitros da Fifa. A solução adotada, sugerida por Artemio Franchi, foi fruto do habitual compromisso diplomático: as televisões dos países do Golfo Pérsico (Qatar, Bahrein, Omã, Emirados Árabes, Arábia Saudita e o próprio Kuwait) poderiam escolher se transmitiriam ou não a partida ou transmiti-la sem mostrar seu nome nos créditos.
Assim, dois meses depois, Klein prepara a mala e parte para a Espanha. Mal chega e, em Londres, três homens atiram na testa do embaixador israelense Shlomo Argov. É 3 de junho. Usando o atentado como justificativa, três noites depois, Israel invade o Líbano. Exatamente uma semana antes da Copa. Naquele dia, o telefone toca em seu quarto de hotel. É sua mulher: “Estamos em guerra, Abraham!”. O filho deles está fazendo o serviço militar, e os pensamentos de Klein se voltam para Amit: “Não podem mandar um jovem recruta para uma zona de tiro”. Em vez disso, por aquele mesmo aparelho de telefone, Klein descobre que o filho já foi enviado para o front. De repente, seu corpo é invadido por emoções desconhecidas. O medo o impede de respirar. O destino de seu filho está em mãos alheias. E pela primeira vez na vida ele descobre que não tem o controle da situação. Tudo o que pode fazer é desabar na cama e chorar.
Três dias mais tarde, ao saber que Amit está combatendo na área de conflitos mais acalorados, em Damour, a poucos quilômetros de Beirute, Klein pede um encontro com Franchi: “Não conseguirei”, murmura. O presidente da Uefa e da Comissão de Árbitros olha fixamente em seus olhos: “Está certo disso?”. “Sim, 100%. Não posso arbitrar um jogo nesta Copa. Meu filho está combatendo no Líbano, e há alguns dias não tenho notícias dele, não sei nem se está vivo.” Existe um entendimento particular entre os dois. Como Klein, Franchi conhece todos os regulamentos do futebol e as principais línguas do planeta. Ele também, quando jovem, foi árbitro. Agora, enquanto está escutando a história de Klein, é o presidente da Uefa, o vice-presidente da Fifa, o membro do comitê organizador das Copas do Mundo e, naturalmente, seu presidente na Comissão de Árbitros. É um titânico defensor dos interesses do futebol, mas aqui e agora só tem olhos e interesses voltados para o árbitro israelense. Quando Klein para de falar, Franchi abando na por um instante o sorriso amigo e confiável que sempre lhe de simpatia na dose certa para ser aceito por todos. Não quer fazer uma escolha definitiva. Nunca foi assim. Sempre deixou todas as margens de manobra possíveis: “O equilíbrio é sempre a escolha mais honesta para um dirigente”: seu credo em 11 palavras essenciais, indispensáveis como os elementos de uma equipe. Ele as sussurrou alguns meses antes para o jornalista romano do Il Messaggero, Lino Cascioli, que o acusava de saber antes o resultado do sorteio da Copa da Espanha. Franchi entende o drama de Klein e aceita o pedido de não o escalar como árbitro, mas o convida a permanecer na Espanha: “Por ora, farei você ir a campo como bandeirinha”.
Passam-se quase duas semanas, durante as quais Klein não recebe uma só notícia do front. Ele começa a temer que seu menino esteja morto. Joga-se o Itália × Peru. É 18 de junho, o dia do aniversário de Amit. Seu filho faz 20 anos no front, enquanto ele corre sobre a linha lateral do Balaídos, o estádio de Vigo. Klein tenta fazer seu trabalho, seus olhos veem o sensacional gol de Bruno Conti, a atuação apagada de Paolo Rossi e a célebre queda em campo do colega, o árbitro alemão Walter Eschweiler, mas sua mente está em outro lugar. Terminado o jogo, ele volta ao hotel e encontra um telegrama que o espera na recepção. Hesita. Depois pega o telegrama e o abre.
Shalom, querido papai,
Hoje, como sabe, é meu aniversário. E comemoro a data aqui, no Líbano; muitos dos meus amigos estão mortos, e meu coração está partido, mas falamos muito da Copa do Mundo e eu estou esperando com impaciência para vê-lo arbitrar uma partida.
Com amor.
Amit
Klein não consegue parar de chorar. Ele sobe para o quarto e ouve o telefone tocar. Do outro lado, parece ouvir a voz do filho. Pensa ser uma alucinação. Como é possível Amit, que está no meio de uma guerra, conseguir contatá-lo em seu quarto de hotel? Mas é ele, e Abraham é tomado por uma emoção que não consegue conter, a mais poderosa de sua vida. Seu filho abandonou a linha de frente e lhe implora para que volte a arbitrar. “Dentro de menos de uma semana, serei de novo bandeirinha, em Brasil × Nova Zelândia.” Mas Amit quer vê-lo dentro das quatro linhas. “Estarei lá, meu menino”, promete entre lágrimas. Assim, Klein, ainda atordoado, corre até Franchi: “Estou pronto, me dê um jogo”. Poucos dias depois, sábado, 26 de junho, o árbitro israelense é escalado para a terceira rodada do Grupo C, entre Brasil e o vencedor de Itália × Argentina. “Fará Argentina × Brasil, contente?”, comunica-lhe Franchi. Um verdadeiro presente para ele. Mas, em vez disso, encontrará Itália e Brasil, as equipes que são sua sina: antes desse encontro, arbitrou jogos dos dois times cinco vezes. Nesta Copa, já viu ambos da beira do campo. Na nova ocasião, será ele a conduzir a orquestra.
Convoca para o círculo central Zoff e Sócrates, os dois capitães. Vira-se para o brasileiro e joga a moeda. Cara ou coroa, campo ou bola. Sócrates perde. E Zoff escolhe o campo. O sol ainda está alto, e o joga dor da Itália escolhe perfilar os seus à direita. Quando o sol cair, serão os adversários que o terão de frente para os olhos. O pontapé inicial será do Brasil. A torcida se agita. Para respeitar o protocolo, Klein deve esperar as 17h15. Pousa a bola no chão, curvando-se no círculo central, em perfeito alinhamento com a linha que corta as duas metades do campo. É pequeno em estatura e não tem o que chamam de autoridade física. Mas consegue igualmente impor a própria lei. Em suas posturas eretas, em seus gestos amplificados, em seus olhares teatrais, tem uma expressão solene, autoritária, quase bélica.
Os verde-amarelos olham para o gol sul. O centro do campo abriga três figuras: Zico, Serginho e Klein, que tem o braço esquerdo levantado e o olho fixo no cronômetro. O Galinho tem o número 10 incrustado entre as escápulas e as mãos apoiadas na cintura, como se fosse começar uma caminhada. Dá a hora. Quarenta e quatro mil olhares, 88 mil olhos, fitam aquele cavalheiro ereto vestido de preto. Klein entende que é o momento, toma fôlego e impulsiona toda a sua autoridade para dentro do apito. Talvez já saiba: será a última partida que arbitra na vida. É a sua final.



