Antony assinou um relato carnal no Players’ Tribune sobre sua trajetória que vale demais a leitura
Antony reconstrói sua trajetória e as dificuldades que encarou para se tornar jogador de Seleção
O Players’ Tribune é um dos sites sobre esportes mais sensacionais do planeta, por sua proposta única. A voz dos atletas é que se expressa para contar suas histórias, e em artigos sempre muito bem escritos. Em tempos de Copa do Mundo, a produção do Players’ Tribune fica ainda melhor. E, nesta terça-feira, pintou um perfil com assinatura brasileira: Antony contou sua trajetória desde a favela onde cresceu até sua chance de estar no Mundial. É um relato bastante carnal, que representa bem a superação do ponta.
Abaixo, trazemos o trecho inicial do texto, mas o conteúdo é bem mais rico e merece a leitura completa. Para acessar o texto, em português, clique aqui.
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Eu nasci no Inferninho. Isso não é uma piada. Para meus amigos europeus que não sabem, a favela onde cresci em São Paulo se chama Inferninho.
Se você realmente quer entender por que eu jogo do jeito que eu jogo, então você precisa entender de onde eu sou. Minha história. Minhas raízes. Inferninho.
É um lugar onde a dificuldade é real. A quinze passos da porta da frente da nossa casa, sempre havia traficantes vendendo aquelas paradas erradas, passando aquelas substâncias de mão em mão. O cheiro estava sempre do lado de fora da nossa janela. Na verdade, uma das primeiras lembranças que tenho é meu pai se levantando do sofá no domingo e pedindo para os traficantes se afastarem um pouco da nossa casa, nos deixarem em paz, porque os filhos dele estavam lá dentro, tentando assistir um jogo de futebol.
A gente estava tão acostumado a ver armas que nem era mais tão assustador. Era apenas uma parte da vida cotidiana. Tínhamos mais medo da polícia derrubar nossa porta. Uma vez, eles invadiram nossa casa procurando alguém e entraram correndo gritando. Eles não encontraram nada, é claro. Mas quando você é muito jovem, esses momentos deixam uma marca.
Algumas das coisas que eu vi…. só quem já viveu pode entender. Uma vez, na minha caminhada para a escola, quando eu tinha uns 8 ou 9 anos, encontrei um homem deitado no beco. Só que ele não estava se mexendo. Quando me aproximei, percebi que ele estava morto. Na favela, você fica meio anestesiado para algumas situações. Não havia outro caminho a seguir, e eu tinha que ir para a escola. Então, eu só fechei meus olhos e pulei o cadáver.
Não estou dizendo isso para parecer que foi difícil. Era apenas a minha realidade. Na verdade, sempre digo que tive muita sorte quando criança, porque, apesar de todas as nossas lutas, recebi um presente do céu. A bola me salvou. É meu amor desde o berço. No Inferninho, não nos importamos com brinquedos para o Natal. Qualquer bola que rola é perfeita para nós.
Todos os dias, meu irmão mais velho me levava na praça para jogar futebol. Na favela, todo mundo joga: crianças, velhos, professores, pedreiros, motoristas de ônibus, traficantes e ladrões. Lá, todo mundo é igual. No tempo do meu pai, era um terrão. Na minha época, era uma quadra de asfalto. No começo, eu jogava descalço, com os pés sangrando. Não tínhamos dinheiro para chuteiras. Eu era pequeno, mas driblava com uma maldade que vinha de Deus. Driblar sempre foi algo dentro de mim. Um instinto natural. E eu não me intimidava. Eu driblava os traficantes. Dava elástico nos bandidos, chapéu nos motoristas de ônibus, canetava os ladrões… Não tava nem aí, não.
Com uma bola nos pés, eu não tinha medo.
Aprendi todos os truques com os brabos. Ronaldinho, Neymar, Cristiano Ronaldo. Eu assistia no YouTube, graças ao meu “tio” Toniolo. Ele não é meu tio de sangue. Era nosso vizinho de porta. Mas ele me tratou como um membro da família. Quando eu era pequeno, ele me deixava usar seu Wi-Fi para que eu pudesse entrar no YouTube e aprender com os melhores. Ele até me deu meu primeiro videogame. Se Toniolo tinha dois pães, era um pra ele, e o extra pra nós. Isso é o que as pessoas não entendem sobre a favela. Para cada pessoa que faz o mal, existem várias que praticam o bem.



