Além das laterais: Ancelotti vê nova dor de cabeça na Seleção às vésperas da convocação
Instabilidade, lesões e falta de ritmo transformam goleiros em nova preocupação do técnico italiano às vésperas da Copa do Mundo
A pouco menos de um mês da estreia do Brasil na Copa do Mundo, Carlo Ancelotti começa a perceber que seu principal problema talvez não esteja mais apenas nas laterais. Se a escassez de opções para os lados do campo já vinha sendo tratada como uma preocupação evidente, a situação dos goleiros passou a soar igualmente — até mais — alarmante às vésperas da convocação definitiva.
E não por falta de nomes conhecidos, mas justamente pela ausência de segurança transmitida por praticamente todos eles.
A imagem mais recente resume bem esse cenário. No clássico entre Al-Nassr e Al-Hilal, Bento saiu mal em uma cobrança de lateral nos acréscimos, desviou contra o próprio patrimônio e viu sua equipe perder a chance de conquistar o Campeonato Saudita de forma antecipada.
A falha repercutiu imediatamente na Arábia Saudita e também no Brasil, sobretudo pela reação de Jorge Jesus à beira do gramado. O treinador português demonstrou irritação, gesticulou em reprovação e sequer procurou contato visual com o goleiro após o lance.
O episódio expôs novamente a instabilidade de Bento, que atravessa um período de oscilações frequentes. Ainda assim, o ex-Athletico segue prestigiado internamente. Ancelotti gosta do perfil do arqueiro, que também conta com respaldo importante do preparador de goleiros Taffarel. Não por acaso, foi utilizado no amistoso contra a Croácia, em março, vencido pelo Brasil por 3 a 1. Hoje, aparece à frente de Hugo Souza na disputa pela vaga de terceiro goleiro.
O problema é que o cenário geral da posição não transmite tranquilidade. Em ciclos anteriores, a seleção brasileira chegava às grandes competições respaldada por nomes consolidados e vivendo auge técnico. Foi assim com Taffarel em 1994 e Marcos em 2002. Desta vez, porém, a sensação é inversa: nenhum dos candidatos desembarca na Copa em plena forma ou cercado de absoluta confiança.
Por que Alisson e Ederson preocupam Ancelotti às vésperas da Copa?
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A tendência é que Alisson siga como titular de Ancelotti na estreia contra o Marrocos, no dia 13 de junho. O goleiro do Liverpool continua sendo o nome de maior peso do grupo e, tecnicamente, está um degrau acima dos concorrentes. O problema é físico. Sem atuar há cerca de dois meses por conta de uma lesão muscular na coxa direita, ele corre contra o tempo para recuperar ritmo de jogo antes da Copa.
A preocupação não se limita apenas à condição clínica. Em torneios curtos, especialmente em uma posição tão decisiva, falta de sequência costuma cobrar preço alto. Alisson chega respaldado pelo histórico e pela experiência, mas sem garantias de que estará no melhor nível competitivo quando a bola rolar nos Estados Unidos.
Se a situação do titular já exige cautela, o cenário de Ederson é ainda mais turbulento. Cotado para disputar posição diretamente com Alisson, o goleiro vive meses conturbados no Fenerbahçe. Em rota de colisão com a torcida, viu familiares serem alvo de ofensas e passou a conviver com pressão intensa no clube turco.
Além disso, Ederson também chegará sem ritmo. Expulso por reclamação efusiva no clássico contra o Galatasaray, recebeu suspensão de quatro partidas e não atua mais nesta reta final de temporada. O episódio ganhou contornos ainda mais negativos pela forma como ocorreu: irritado, o goleiro deu um soco na cabine do VAR e demonstrou desequilíbrio emocional justamente às vésperas da Copa do Mundo.
Embora Ancelotti dificilmente abra mão da dupla, o momento dos dois principais nomes da posição está longe do ideal. E isso ajuda a explicar por que a comissão técnica acompanha o setor com atenção redobrada.
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Alternativas não conseguem eliminar sensação de insegurança
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Na pré-lista de 55 jogadores enviada à Fifa, Ancelotti incluiu Hugo Souza, John e Weverton como alternativas para o gol. Nenhum deles, contudo, parece capaz de diminuir a desconfiança em torno da posição.
Hugo Souza talvez seja o que mais vive crescimento recente. No Corinthians, empilhou boas atuações e virou personagem importante especialmente nas disputas por pênaltis. Ainda assim, segue apresentando oscilações durante os 90 minutos. A principal delas aparece justamente em um fundamento crucial em jogos grandes: a bola aérea. Saídas do gol e lances de bola parada ainda geram insegurança em determinados momentos.
John, por sua vez, aparece como uma opção monitorada pela comissão técnica, embora viva um cenário de pouca atividade. O ex-Botafogo não atua desde janeiro, quando sofreu lesão, e antes disso sequer havia se consolidado como titular absoluto do Nottingham Forest.
Já Weverton oferece experiência e estabilidade, mas vive uma fase diferente daquela que o transformou em referência no Palmeiras multicampeão dos últimos anos. Seguro e confiável, ainda mantém regularidade, porém longe do auge técnico. A própria saída do clube paulista rumo ao Grêmio simboliza uma mudança natural de ciclo.
No fim das contas, Ancelotti se depara com um problema talvez inesperado no início do trabalho. A Seleção possui nomes conhecidos, goleiros acostumados a grandes ambientes e currículos relevantes. O que falta, neste momento, é alguém capaz de chegar à Copa transmitindo absoluta confiança.
E para uma posição historicamente decisiva nas campanhas campeãs do Brasil, a ausência dessa segurança talvez seja o maior alerta da Seleção a poucas semanas do Mundial.