Copa do Mundo

A acusação de resultado armado que apimenta a rivalidade entre Itália e Suécia

Enfrentando-se desde 1912, Itália e Suécia fazem um duelo centenário na repescagem das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018. As duas seleções podem se considerar inimigas íntimas, tamanha a recorrência do confronto. São 23 partidas nestes 105 anos, que colocam as equipes entre seus adversários mais comuns. Os amistosos são parte importante do histórico, com 12 embates. Mas há uma lista considerável de partidas em competições oficiais, que pende ligeiramente para os azzurri, com cinco vitórias, dois empates e quatro derrotas diante dos escandinavos.

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Por duas vezes, Itália e Suécia se enfrentaram em Copas do Mundo. Em 1950, os suecos venceram por 3 a 2, em resultado importante para avançar ao quadrangular final. O troco viria 20 anos depois, na estreia do Mundial de 1970, quando o triunfo por 1 a 0 auxiliou a classificação dos italianos aos mata-matas. Pelas Eliminatórias da Euro, são mais seis jogos, com destaque para as vitórias escandinavas em 1983, que auxiliaram a derrubar os então tricampeões do mundo ainda na fase preliminar do torneio. Contudo, mais importante para a história recente são os três confrontos pela fase final da Eurocopa, todos ocorridos a partir de 2000. Jogos que ajudam a marcar algum resquício de rivalidade entre as seleções.

Pela Euro 2000, o jogo aconteceu na terceira rodada da fase de grupos. Classificada, a Itália do técnico Dino Zoff já tinha garantido até mesmo a primeira colocação da chave. Enquanto isso, a Suécia de Lars Lagerbäck e Tommy Söderberg jogava a sua vida no torneio, precisando vencer e torcer por um resultado favorável no confronto entre Bélgica e Turquia. Pois os escandinavos sequer conseguiram fazer a sua parte. Apesar da pressão dos suecos, os azzurri saíram em vantagem com Luigi Di Baggio. Francesco Toldo ia segurando o resultado, até que Henrik Larsson arrancou e anotou um bonito gol para empatar no segundo tempo. Já nos minutos finais, o golpe de misericórdia foi dado por Alessandro Del Piero, numa jogadaça individual. A Euro terminava ali para a Suécia, enquanto a Itália cairia apenas na decisão, diante da França, com o gol de ouro de David Trezeguet.

O reencontro aconteceu quatro anos depois, também pela fase de grupos da Eurocopa. A Itália tinha empatado sem gols na primeira rodada, contra a Dinamarca, e a Suécia vinha de goleada sobre a Bulgária. O duelo na segunda rodada poderia ser definitivo. Treinados por Giovanni Trapattoni, os azzurri iam bombardeando a meta de Andreas Isaksson, até conseguirem abrir o placar aos 37 do primeiro tempo. Christian Panucci cruzou e Antonio Cassano deu um leve desvio de cabeça. Os escandinavos, entretanto, arrancariam o empate aos 40 do segundo tempo. Após cobrança de escanteio, em bola confusa na área, o jovem Zlatan Ibrahimovic mostrou sua genialidade. O atacante, então com 22 anos, se antecipou a Gianluigi Buffon com um belíssimo toque de calcanhar acrobático e decretou a igualdade em 1 a 1. Um resultado bem mais comemorado pelos suecos.

A vitória da Dinamarca sobre a Bulgária no outro jogo da rodada pressionava a Itália em seu último compromisso. Para avançar às quartas de final, os azzurri precisavam vencer os búlgaros, além de torcer por uma vitória dinamarquesa ou sueca no duelo entre si. O empate por 0 a 0 no outro jogo ainda favorecia os italianos, enquanto o 1 a 1 cobrava uma vitória por dois gols de diferença sobre a Bulgária. Contudo, a igualdade por 2 a 2 entre Suécia e Dinamarca beneficiaria os escandinavos. Em caso de empate triplo na tabela (como aconteceria se os italianos ganhassem e os nórdicos empatassem entre si, com todos somando cinco pontos), o critério de desempate seria o número de gols marcados nos confrontos diretos. Assim, bastaria um placar igual com dois ou mais gols anotados por cada (2 a 2, 3 a 3, 4 a 4) para Suécia e Dinamarca avançarem juntas, independentemente do que os italianos fizessem diante dos búlgaros. Soava o sinal de alerta.

A Itália tinha seus problemas para enfrentar a Bulgária. Francesco Totti cuspiu em Christian Poulsen na estreia e acabou pegando três jogos de gancho, deixando Trapattoni sem uma de suas principais referências ofensivas. De qualquer forma, as preocupações se concentravam naquilo que poderia acontecer no Estádio do Bessa, onde Dinamarca e Suécia se pegariam. Os italianos indagavam se poderia acontecer um “biscoito”, a gíria usada para a armação de um resultado favorável aos dois times. Havia um sentimento de injustiça que perdurava na Bota desde a polêmica eliminação para a Coreia do Sul na Copa do Mundo de 2002. Gennaro Gattuso pedia “50 câmeras” para monitorar o jogo no Bessa. Já Del Piero confiava “honestidade” dos escandinavos.

Como assinalou a crônica da BBC, quando a bola rolou no Bessa, Dinamarca e Suécia logo trataram de atacar, o que botava em xeque as suspeitas de armação. Havia um clássico a se vencer. Atacante do Milan, Jon Dahl Tomasson deixou os dinamarqueses em vantagem ao final de um primeiro tempo intenso, graças a um chutaço de fora da área. O empate da Suécia saiu logo na volta do intervalo, em pênalti cobrado por Larsson. Tomasson voltaria a fazer a diferença em uma sobra de bola, aos 21 do segundo tempo. Mas o empate fatal à Itália realmente aconteceria. Aos 44, Thomas Sorensen soltou uma bola que estava em suas mãos e Mattias Jonson teve pouco trabalho para determinar o resultado favorável às duas seleções em campo. O temido 2 a 2 pintava no placar.

Enquanto isso, em Guimarães, a Itália fez a sua parte – em vão. A Bulgária saiu em vantagem com Martin Petrov, antes que Simone Perrotta empatasse num lance de raça no início do segundo tempo. O gol da vitória por 2 a 1 saiu já nos acréscimos, com Antonio Cassano. O camisa 18 saiu sorrindo na comemoração, mas logo depois cairia em lágrimas ao saber do 2 a 2 no Bessa. Com a igualdade tripla no Grupo C, pelos gols marcados no confronto direto, suecos e dinamarqueses realmente seguiram em frente.

Depois dos jogos, sobraram acusações, com Gianluigi Buffon dizendo que “se alguém deve sentir vergonha, não somos nós italianos”. E não que as duas equipes classificadas tivessem vida longa naquela Euro 2004, com ambas caindo nas quartas de final. A Dinamarca tomou um baile da República Tcheca, enquanto a Holanda derrubou a Suécia nos pênaltis. De qualquer maneira, ficou a história suspeita. Em 2016, aquele 2 a 2 voltou a ser discutido, com o cruzamento das duas equipes no Grupo E da Eurocopa. O gol cardíaco de Éder, contudo, não deu margem ao erro dos azzurri, com a classificação na liderança da chave e a eliminação dos suecos. Mas o velho “biscoito” continua entalado na garganta.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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