Copa do Mundo

A torcida da Tunísia garantiu uma atmosfera vibrante e já mostrou que será uma atração especial nos estádios da Copa

O Catar realiza uma Copa cheia de artificialidades, mas as torcidas do norte da África prometem um ambiente trepidante, como se viu nesta terça

A escolha do Catar como sede da Copa do Mundo recebeu inúmeras críticas, a maioria absoluta pertinente. A própria falta de tradição dos catarianos no futebol era um ponto, e o comportamento dos locais na abertura do Mundial deu mais elementos ao debate. Porém, talvez um dos aspectos mais legais do torneio no Oriente Médio é a abertura para vizinhos. É uma Copa dos árabes, como se percebe logo nos primeiros dias. E, em termos de atmosfera nas arquibancadas, poucos cantos do mundo se equiparam ao que acontece nos estádios do norte da África. É algo que se transfere ao Catar, como os fanáticos pela Tunísia bem demonstraram no empate por 0 a 0 com a Dinamarca. Os magrebinos jogaram junto com seu time e fizeram a diferença no ambiente.

Os clubes da Tunísia não são necessariamente os mais famosos do norte da África. A festa das torcidas de Marrocos é mais exaltada ao redor do mundo, assim como a intensidade da paixão no Egito. Em termos de seleção, é a Argélia que protagonizou os momentos mais célebres dos últimos anos – de mosaico feito com fogo às insanas comemorações pela conquista da Copa Africana de Nações. Entretanto, os tunisianos se sobressaem nessa primeira rodada como uma das melhores torcidas da Copa.

Tradição de arquibancada existe de sobra no país. A Tunísia conta com alguns clubes de peso no cenário continental, por seus títulos, mas também por suas atmosferas. O Espérance é o clube mais vitorioso, mas ligado desde seus primórdios à aristocracia árabe e a diferentes governos pós-independência. O caráter popular mais forte se concentra no Club Africain, criado para exaltar a cultura islâmica e que geralmente foi atrelado a símbolos de resistência. Os principais times tunisianos, aliás, possuem relação com os movimentos anticoloniais. Étoile du Sahel e Sfaxien são outros times tradicionalíssimos indo além da capital, Tunes – localizados respectivamente em Sousse e Sfax, a segunda e a terceira maiores cidades do país.

Deixada a rivalidade de lado, a seleção da Tunísia representa algo maior. E a torcida magrebina demonstrou bem isso durante o duelo contra a Dinamarca. O comportamento de ultras dos grandes clubes se sentiu nas arquibancadas do Catar. Os tunisianos abafaram os dinamarqueses no gogó, empurrando o time e pressionando os adversários europeus. Foi um time que competiu em alto nível por sua intensidade e que ofereceu também alguns bons escapes pelo ataque, sobretudo com Youssef Msakni. As Águias de Cartago tinham uma motivação a mais pelo comportamento dos torcedores, que até abusaram dos adversários com gritos de “olé”.

O empate sem gols pode não ser o melhor dos resultados, mas sai acima das expectativas para a Tunísia, contra uma Dinamarca bem mais badalada. As Águias de Cartago têm totais condições de derrotar a Austrália e, diante da França, se impor nas arquibancadas será uma questão de honra. A contraposição aos antigos colonizadores, afinal, é algo que os torcedores dos maiores clubes tunisianos praticam há décadas. Pode ser o jogo que colocará a seleção pela primeira vez num mata-matas de Copa do Mundo.

A Tunísia quase sempre é vista como uma seleção insossa em Mundiais. Não costuma ter tantos destaques individuais, pratica um futebol mais pragmático, carece de um pouco mais de ousadia. Diante da Dinamarca, foi possível notar uma equipe melhor composta do ponto de vista tático e com chances de aprontar, especialmente por Msakni, o diferencial técnico. Mas, acima disso, os tunisianos contam com um estímulo massivo do lado de fora que garante mais sabor a essa campanha no Catar. Se vai fazer diferença na tabela ainda não dá para saber, mas certamente confere um clima maior de Copa do Mundo ao país-sede cheio de artificialidades.

Uma pena que outros vizinhos do norte da África, como Argélia e Egito, ou mesmo países fanáticos por bola do Oriente Médio, a exemplo do Líbano ou do Iraque, não tenham conquistado a classificação. Caberá a tunisianos, marroquinos, sauditas e iranianos honrarem a atmosfera tão costumeira nos jogos de clubes da região.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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