A Suíça provou sua superioridade num primeiro tempo eletrizante e revirou o placar para se classificar
Shaqiri de novo chamou a responsabilidade no reencontro com a Sérvia e comandou a vitória, num duelo com muitos gols e também suas doses de confusão
A última rodada do Grupo G prometia um dos reencontros mais explosivos desta Copa do Mundo. Sérvia e Suíça provocaram um terremoto em 2018, não apenas pela emocionante vitória suíça por 2 a 1 definida nos minutos finais, mas também pelas “comemorações geopolíticas” de Xherdan Shaqiri e Granit Xhaka. Os sérvios prometiam uma revanche. Outra vez, o confronto resultou num jogaço, de cinco gols e duas viradas. No entanto, os helvéticos riram por último de novo. Shaqiri chamou a responsabilidade e seria decisivo – agora sem provocar tanto, ainda que a temperatura do duelo tenha sido alta por algumas confusões. Com grandes trabalhos também de Breel Embolo e Ruben Vargas, a Suíça venceu por 3 a 2. Avança na segunda posição da chave, com seis pontos, para encarar Portugal na próxima fase. Já a Sérvia se despede como decepção. Com uma formação mais ofensiva de início, o time de Dragan Stojkovic teve bons momentos no primeiro tempo. Todavia, abusou dos erros na defesa e caiu demais na segunda etapa. Encerra uma campanha fraca, bem abaixo do que se projetava.
Escalações
A principal mudança da Suíça para o jogo vinha logo no gol. Yann Sommer está doente e não ficou nem no banco desta vez. Gregor Kobel assumiu a posição. Outra ausência era Nico Elvedi, com Fabian Schär acompanhando Manuel Akanji na zaga. O meio seguia com a trinca central formada por Granit Xhaka, Remo Freuler e Djibril Sow. Xherdan Shaqiri não podia perder esse jogo e retornava à ponta direita, com Ruben Vargas na esquerda. Breel Embolo era o centroavante.
Já a Sérvia finalmente entrou com a formação vista desde antes da Copa como a ideal. O quarteto defensivo era o mesmo de sempre, com as mudanças do meio para frente no 3-4-1-2 de Dragan Stojkovic. A linha central mantinha Filip Kostic e Andrija Zivkovic nas alas, com Sergej Milinkovic-Savic recuado no meio para o lado de Sasa Lukic. Dusan Tadic flutuava como meia central. Já na frente, a aguardada dupla formada por Aleksandar Mitrovic e Dusan Vlahovic – enfim recuperado.
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Primeiro tempo: Quatro gols e muitas chances
A desatenção inicial da Sérvia por pouco não custou caro. Vanja Milinkovic-Savic salvou seu time, com duas defesas logo no primeiro minuto. Breel Embolo apareceu sozinho numa bola espirrada, mas o goleiro cresceu para cima do adversário e bloqueou a bola com o peito. No rebote, também espalmou a chicotada de Granit Xhaka. Não que a resposta sérvia tenha demorado, num escanteio que Nikola Milenkovic cabeceou ao lado da meta adversária. E num jogo mais físico, os balcânicos ganharam terreno. Andrija Zivkovic quase cometeu o crime aos 11, numa pancada de longe que explodiu na trave. Ainda quase os centroavantes aproveitaram o rebote, pegos no susto. Começava uma partida quente, ao menos na bola.
A Sérvia tinha mais posse e mais presença ofensiva. Tadic se movimentava bem entre as linhas e a defesa da Suíça precisava manter um alto nível de atenção. Todavia, os helvéticos eram perigosos nos contragolpes. Existiam espaços principalmente nas costas dos alas sérvios. Um caminho cantado que resultou no primeiro gol, aos 20. Ricardo Rodríguez encontrou uma avenida pela esquerda e chegou à linha de fundo. Seu cruzamento seria rechaçado de início, mas a sobra ficou com Djibril Sow. O meia teve uma imensa calma para limpar a jogada e abrir com Shaqiri na direita. Tinha que ter o gol dele: bateu com desvio e superou Vanja Milenkovic-Savic. Não fez a águia de duas cabeças da Albânia desta vez, mas pediu silêncio àqueles que o vaiavam continuamente e apontou o nome nas costas. De novo ele.
Durante os minutos seguintes, a Sérvia parecia exposta. Alguns avanços da Suíça soaram o alarme e Embolo dava muito trabalho no pivô. No entanto, os sérvios não demoraram a empatar, aos 26. Aproveitaram enfim uma abertura no contra-ataque. Tadic flutuou bem pela esquerda e cruzou no capricho, para Mitrovic ser soberano dentro da área. O centroavante desviou com consciência de cabeça e tirou do alcance de Kobel. Era um jogo completamente aberto, e bom, apesar do nível de fisicalidade e dos erros forçados. Não dava para se descuidar. Aos 30, numa linda inversão de Ricardo Rodríguez, Shaqiri apareceu com liberdade novamente, mas bateu para fora quando chegava a pressão.
Não existia um domínio claro de nenhum dos times. E a Sérvia usou a arma da Suíça para buscar a virada, aos 35. Shaqiri errou o passe e permitiu a recuperação dos adversários. Os sérvios aceleraram pelo meio e Tadic buscou o passe na entrada da área. A zaga não cortou, um erro fatal tendo Dusan Vlahovic do outro lado. O centroavante abriu para a esquerda e, num rompante, virou o chute. Surpreendeu os defensores suíços, inclusive o goleiro Kobel, que sequer saltou na bola mansa que entrou no seu cantinho. Na comemoração, extravasou. Segurou as suas partes, como se dissesse que tinha colhões.
A Suíça adotou uma postura mais ofensiva com a desvantagem. Apresentava bons recursos, especialmente ao explorar as duas pontas. E o novo empate saiu aos 44, num descuido enorme da Sérvia. Shaqiri arrancou pelo meio e pareceu um imã, ao atrair três marcadores. A defesa balcânica se concentrou totalmente no meio da área, com um rombo pelo lado direito do ataque helvético. Após o passe do ponta, Sow ajeitou e Widmer agradeceu, sozinho. O lateral teve todo o tempo para preparar o cruzamento e mandou um passe açucarado para Embolo. O centroavante, que fazia um primeiro tempo muito ativo, se esticou para guardar. Tudo igual na saída para os vestiários.
Segundo tempo: A Suíça mata o jogo cedo
O segundo tempo começou do mesmo jeito que o primeiro, com a Sérvia desatenta. E com uma diferença fatal: o gol saiu logo. A Suíça virou mais uma vez o placar, com seu terceiro tento aos três minutos. A defesa sérvia abusou dos erros, é verdade, mas a trama dos suíços foi um deleite de se assistir. Começou no ótimo pivô de Embolo. Shaqiri, sempre ativo, foi sublime com uma cavadinha para encobrir a marcação. O toque de classe, mesmo assim, ficou para a ajeitada de calcanhar de Ruben Vargas no ar. Habilitou Remo Freuler, que entrou sozinho na área para definir. A situação ficava mais confortável aos suíços, diante do desencontro visível entre os sérvios. Quase saiu o segundo gol numa cobrança de falta ensaiada. No susto, Embolo perdeu chance incrível, mas parecia impedido.
Vlahovic não durou mais de 55 minutos em campo. O centroavante deu lugar a Luka Jovic, enquanto Nemanja Gudelj suplantou Milos Veljkovic. Os ataques da Sérvia não tinham continuidade, com passes quebrados neutralizados pela defesa. Mitrovic chegaria a tentar cavar um pênalti e mergulhou na área, sem efeito. Logo depois, houve um princípio de confusão na beira do campo, quando Xhaka teria feito gestos obscenos para o banco de reservas sérvio. Os substitutos balcânicos partiram para cima e o goleiro Predrag Rajkovic recebeu o amarelo. O time de Dragan Stojkovic perdia o foco e também talentos, com a saída de Sergej Milinkovic-Savic dando lugar a Nemanja Maksimovic. E num momento do jogo em que não acontecia muito, os suíços fizeram duas trocas. Shaqiri saiu muito vaiado, ao lado de Sow, com as incursões de Denis Zakaria e Edmilson Fernandes.
A partida perdeu muito ritmo no segundo tempo. E por culpa da Sérvia, em especial. Os balcânicos diminuíam seu poder de fogo e indicavam um claro desgaste. A saída de Tadic aos 33 parecia minar ainda mais essa qualidade criativa. Zivkovic também saiu, enquanto entraram Filip Djuricic e Nemanja Radonjic. Não havia qualquer ousadia nas trocas de Dragan Stojkovic, para colocar o time mais para frente. A Suíça estava confortável com o resultado, mais recuada, sem correr grandes riscos.
A partida se transformava num grande nada, em que a Sérvia sequer conseguia mandar chuveirinhos para Mitrovic. A equipe tocava a bola sem objetividade e sem mais qualidade para resolver. No máximo, arrumariam confusão numa falta na entrada da própria área, que Akanji bateu para fora. Enquanto isso, os suíços rodavam suas peças e administravam, numa situação em que o empate já seria favorável. Ruben Vargas, outro bem na noite, deu lugar a Christian Fassnacht. O reserva recebeu um grande passe de Fernandes e poderia assinalar o quarto aos 44, mas parou no mano a mano em Vanja Milinkovic-Savic.
Por fim, nos sete minutos de acréscimos, o único risco para a Suíça viria de Camarões. Com a vitória parcial dos Leões Indomáveis sobre o Brasil, um empate da Sérvia derrubaria os suíços. Mas seria um final quente só pelas confusões mesmo. Na linha de fundo, Xhaka se desentendeu com Milenkovic e aconteceu um empurra-empurra. Depois que ambos receberam o amarelo, Xhaka ainda foi tirar satisfação com Mitrovic. Murat Yakin deveria sacar Xhaka, mas resolveu substituir o imparável Embolo, muito aplaudido para dar vaga a Noah Okafor. Por conta dos entreveros, os acréscimos ainda se estenderam até os 55. Porém, nem a Suíça encaixou seus contra-ataques, nem a Sérvia cobrou bem suas faltas. Ficaria por isso, com a segunda colocação do time de Murat Yakin.
Ficha técnica
Sérvia 2×3 Suíça
Local: Estádio 974, em Ras Abu Aboud (Catar)
Árbitro: Fernando Rapallini (Argentina)
Gols: Xherdan Shaqiri, aos 20’/1T; Aleksandar Mitrovic, aos 26’/1T; Dusan Vlahovic, aos 35’1T; Breel Embolo, aos 44’/1T; Remo Freuler, aos 3’/2T.
Cartões amarelos: Silvan Widmer, Ruben Vargas, Sergej Milinkovic-Savic, Strahinja Pavlovic, Nemanja Gudelj, Aleksandar Mitrovic, Nikola Milenkovic, Granit Xhaka, Fabian Schär.
Cartões vermelhos: nenhum
Sérvia: Vanja Milenkovic-Savic, Nikola Milenkovic, Milos Veljkovic (Nemanja Gudelj), Strahinja Pavlovic; Andrija Zivkovic (Nemanja Radonjic), Sergej Milinkovic-Savic (Nikola Maksimovic), Sasa Lukic, Filip Kostic; Dusan Tadic (Filip Djuricic); Dusan Vlahovic (Luka Jovic), Aleksandar Mitrovic. Técnico: Dragan Stojkovic.
Suíça: Gregor Kobel, Silvan Widmer, Fabian Schär, Manuel Akanji, Ricardo Rodríguez; Granit Xhaka, Remo Freuler; Xherdan Shaqiri (Edmilson Fernandes), Djibril Sow (Denis Zakaria), Ruben Vargas (Christian Fassnacht); Breel Embolo (Noah Okafor). Técnico: Murat Yakin.



