Copa do Mundo

A seleção de Gales transforma Hennessey, um goleiro mediano em clubes, no herói de toda uma nação

Hennessey teve uma carreira razoável por clubes na Inglaterra, mas é a vaga na Copa que o torna memorável

Wayne Hennessey é um goleiro que, não fosse a nacionalidade, passaria batido para muito mais gente. O veterano de 35 anos até conseguiu construir uma carreira de respeito na Inglaterra, com 182 partidas de Premier League divididas entre Wolverhampton, Crystal Palace e Burnley. Nada, porém, que o tornasse unanimidade na competição. Os momentos mais relevantes de sua carreira vieram mesmo com Gales, somando 102 partidas desde a estreia de 2007. O camisa 1 manteve a titularidade durante quase todo esse tempo e tinha vivido seu ápice com a campanha até a semifinal da Euro 2016. Mas, no futebol de seleções, uma partida pode bastar para transformar em herói nacional. E é esse o status atual de Hennessey para os seus compatriotas. O retorno da nação à Copa do Mundo depois de 64 anos não seria possível sem os seus milagres.

Hennessey tinha apenas 20 anos quando John Toshack promoveu sua estreia na seleção de Gales, em maio de 2007. O goleiro atuava na quarta divisão do Campeonato Inglês, pelo Stockport County, mas quebrava recordes na Football League e era visto como um potencial dono da meta dos Dragões. O fato de despontar numa nação sem tantas opções certamente auxiliou o arqueiro. Por mais que ele tenha se tornado titular do Wolverhampton na temporada seguinte, após se formar na base dos Lobos, ainda era um jogador de Championship. Mesmo assim, virou um nome intocável na meta galesa com o passar dos anos.

Hennessey atravessou a transição das eras entre Ryan Giggs e Gareth Bale na seleção de Gales. Conviveu com a mediocridade de uma nação que fazia figuração nas eliminatórias, tanto da Euro quanto da Copa. Ele mesmo não ia muito além de mediano, oscilando entre titulares e reservas no Wolverhampton. O camisa 1 mudou de ares em 2013/14, quando assinou com o Crystal Palace. Seria a deixa para seu auge em pouco tempo. Na temporada 2015/16, Hennessey virou titular das Águias na Premier League. Ao mesmo tempo, também foi um personagem importante na campanha inédita dos galeses rumo à Euro 2016. Disputou todas as partidas do qualificatório e sofreu apenas quatro gols em toda a competição, fundamental para garantir presença na fase final. Os Dragões tinham seu lugar ao sol, enfim.

Curiosamente, Hennessey começou no banco aquela Eurocopa, por uma lesão na coluna. Retomou seu posto a partir da segunda rodada e não saiu mais. Não era um goleiro que impunha respeito nos atacantes adversários, mas era o melhor à disposição de Gales. O time limitado, mas aguerrido e ciente dos seus talentos pontuais, superou demais às expectativas. Deixou a Bélgica pelo caminho e só parou nas semifinais contra Portugal. Mesmo sem o troféu, aquela campanha se tornava memorável. Hennessey encabeçava a escalação. A geração dos Dragões, ainda assim, tinha a Copa do Mundo como objetivo.

Hennessey manteve seu posto na meta do Crystal Palace até 2018/19, quando passou a esquentar o banco. A falta de ritmo e as lesões mais frequentes custaram também sua posição na seleção. Embora Danny Ward também fosse um eterno reserva do Leicester, ele assumiu a posição na Euro 2020 e fez um bom torneio. Hennessey iniciaria as Eliminatórias para a Copa de 2022 na reserva, por mais que tenha trocado de clube recentemente – para também ser uma opção secundária no Burnley, rebaixado na Premier League.

Hennessey, de Gales (GEOFF CADDICK/AFP via Getty Images/One Football)

A volta de Hennessey ao gol de Gales teve uma pitada de infortúnio de Ward, que precisou passar por uma cirurgia no joelho. O veterano de 35 anos segurou as pontas na semifinal da repescagem, contra a Áustria, quando nem precisou ser muito exigido. E manteve a posição, mesmo com a volta de Ward, para a decisão da vaga no Mundial contra a Ucrânia. Foi quando o camisa 1 viveu a partida de sua vida. Por mais que a Ucrânia criasse diversas chances, aquela era a noite de Hennessey.

Hennessey correu o risco de sair como vilão logo aos três minutos. A cobrança de falta rápida dos ucranianos terminou nas redes, com o goleiro fora de posição, mas a batida não estava autorizada. Depois disso, o gramado molhado pela chuva forte dificultava o trabalho do arqueiro, e ele não transmitia tanta confiança, mas conseguia pegar tudo. E pôde comemorar o que viria do outro lado, quando o cruzamento de Bale acabou desviado para as redes por Andriy Yarmolenko.

Já o segundo tempo traria o melhor de Hennessey. Era como se o arqueiro tivesse um imã para atrair a bola, enquanto as traves a repeliam. Entre competência e sorte, ele sustentava o resultado, enquanto os companheiros não eram precisos para aumentar a vantagem. A defesa que valeu a eternização de Hennessey, por fim, aconteceu aos 38 minutos. Artem Dovbyk tinha todas as condições para ser herói. Saltou sozinho e desferiu uma cabeçada potente. O camisa 1, todavia, se esticou e espalmou um lance de enorme dificuldade. O maior milagre de sua vida, aquele que confirmou o triunfo por 1 a 0 e recolocou Gales em uma Copa do Mundo depois de tanto tempo. Ao final da partida, naturalmente, as câmeras miravam o arqueiro transformado em salvador da pátria.

“Esse é o melhor jogo que fiz por Gales, estou em transe. Foi incrível. Todos em campo foram incríveis. Somos uma pequena nação e é ótimo levar nossa gente para uma Copa do Mundo. É disso que os sonhos são feitos. Quando eu era garoto, Gales nunca estava nas fases finais dos grandes torneios. Então, disputar um Mundial é inacreditável”, afirmou Hennessey, depois da partida. O moral era tanto que Bale afirmou que aquela foi “a melhor atuação que tinha visto de um goleiro”. Nenhum outro galês ousaria discordar.

Aos 35 anos, Hennessey não tem grandes perspectivas na carreira. Possui mais um ano de contrato com o Burnley e pode se tornar titular, caso Nick Pope seja vendido com o rebaixamento. A trajetória por clubes, contudo, vira detalhe em sua biografia. É mesmo a seleção que o transforma em nome célebre ao redor do mundo e que o fará lembrado por décadas pelos seus compatriotas. A Copa é o que ele tem de mais concreto no horizonte. E, por aquilo que aconteceu diante da Ucrânia, não dá para imaginá-lo em outro lugar a não ser na escalação titular durante a estreia do Mundial. É um privilégio que ele faz por merecer.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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