A dois anos da Copa, a seleção russa busca seu prumo, mas parece pronta a decepcionar

As obras avançam em ritmo intenso. Se as duas últimas Copas do Mundo sofreram com o cumprimento dos prazos na entrega dos estádios, este não deve ser um problema da Fifa em 2018. A Rússia acelera a reforma e a construção das arenas do Mundial, com parte dos locais já inaugurada. Dentre os 12 estádios selecionados pelo comitê organizador, três deles estão prontos para receber os jogos, enquanto os outros noves serão concluídos até 2017. Mas a infraestrutura tinindo não significa que os russos não terão seus entraves na preparação ao Mundial. E um dos maiores questionamentos fica para dentro de campo. Contando com uma geração distante de empolgar, a seleção de Stanislav Cherchesov cambaleia às vésperas torneio.
Ausente nas Copas de 2006 e 2010, a Rússia vem de uma participação bastante modesta no Brasil. Não venceu um jogo sequer em sua chave e foi precocemente eliminada, superada por Bélgica e Argélia. Já na Eurocopa, mais uma decepção. A qualificação nas eliminatórias do torneio continental veio sem maiores dificuldades, em uma chave da qual saíram também Áustria e Suécia. Porém, na hora em que o bicho pegou, os russos não conquistaram mais do que um empate contra a Inglaterra e terminaram com a segunda pior campanha no geral.
Desde o início de 2016, a Rússia disputou 12 partidas, entre amistosos e a Eurocopa. Venceu apenas três e perdeu seis. Em outubro, a equipe já tinha desapontado sua torcida na inauguração do Estádio Krasnodar, ao ceder a derrota por 4 a 3 para a Costa Rica nos acréscimos do segundo tempo. Já última semana, uma derrota realmente vexatória, perdendo de virada para a fraca seleção do Catar por 2 a 1, em Doha. O time limpou um pouco de sua barra nesta segunda, ao bater a Romênia por 1 a 0, em Grozny. O chorado gol da vitória só saiu aos 48 do segundo tempo, com Magomed Ozdoyev. Nada que sirva para sustentar as esperanças.
Olhando no papel, alguns medalhões resistem, enquanto o foco é o de tentar firmar novas opções ao elenco. Vasili Berezutski, Igor Akinfeev e Yuri Zhirkov continuam sendo chamados, mesmo distantes de seus melhores momentos. Já o restante da espinha dorsal é formada por jogadores que até possuem a sua rodagem internacional, mas nunca estouraram como um dia apontaram, a exemplo de Aleksandr Kokorin e Alan Dzagoev. Dos 39 atletas convocados desde o término da Euro, apenas dez possuem no currículo mais de 20 aparições na seleção principal. E não que os novatos sejam tão espetaculares assim. A maioria se concentra na faixa dos 22 aos 27 anos, mas que não participou de um processo sistemático de renovação da equipe nacional.
A base praticamente inteira vem do Campeonato Russo. Ao longo do último ano, apenas dois atletas que atuam fora da liga local foram convocados: Denis Cheryshev, que cresceu na Espanha, mas sempre defendeu as seleções de seu país-natal; e Roman Neustädter, que nasceu na antiga União Soviética, embora tenha feito sua vida na Alemanha. A naturalização de jogadores, aliás, se tornou uma alternativa interessante aos russos. Não à toa, dois brasileiros passaram a integrar as listas recentemente: o goleiro Guilherme Marinato e o defensor Mário Fernandes. Ambos atuam no futebol local há anos, em decisões bastante justificáveis. Não existe uma busca compulsória sobre os estrangeiros. Mesmo assim, este é o um meio para tentar tornar a equipe um pouco mais competitiva.
O próprio comando técnico atual não é dos mais badalados, considerando o histórico recente da Rússia. A partir de 2006, o país contou com as orientações de Guus Hiddink, Dick Advocaat e Fabio Capello. Na Euro 2016, o técnico era Leonid Slutsky, conciliando o trabalho com o CSKA Moscou, o qual dirige desde 2009. Já depois do torneio, a federação resolveu apostar. Stanislav Cherchesov rodou por diversos clubes do país sem nunca emplacar e conquistou seus únicos títulos na última temporada, com a dobradinha nacional à frente do Legia Varsóvia. Mesmo assim, os dirigentes resolveram confiar no ex-goleiro da seleção, presente em duas Copas do Mundo. Um nome local, que conheça a realidade para moldar o elenco com urgência, em apenas dois anos. Tarefa dificílima.

Atualmente, as perspectivas da Rússia são pequenas. A Copa das Confederações será um preparativo necessário para se notar o real nível competitivo da equipe. Já na Copa do Mundo, ainda que o chaveamento possa ser favorável, é difícil imaginar que os russos consigam escapar do destino da África do Sul em 2010, a primeira seleção anfitriã a cair na fase de grupos. Cherchesov precisará moldar o conjunto, o que parece difícil pelos resultados de momento.
Além disso, tendo em vista o próprio Campeonato Russo, fica difícil esperar que os convocáveis consigam se manter em alto nível para chegar voando na seleção. Rostov e CSKA Moscou sequer venceram na atual campanha na Liga dos Campeões, embora o primeiro apresente novos nomes que merecem uma chance na equipe nacional. Na Liga Europa, Zenit e Krasnodar ao menos brigam por classificação. Principal base de convocados, o time de São Petersburgo pode beneficiar a seleção graças ao trabalho do competente Mircea Lucescu. De qualquer maneira, é pouquíssimo para um país que depende da sorte para fazer as honras da casa dentro de campo no Mundial e que não vem de um trabalho consistente na formação de jogadores.
Cherchesov, ao menos, tem consciência do tamanho de seu desafio. “Nosso primeiro obstáculo é formar um novo time e nos preparar para os amistosos. Só depois disso nós começaremos a pensar sobre objetivos”, declarou em agosto, durante entrevista ao site da Fifa. “Precisamos perceber nosso patamar corretamente. Temos que entender do que somos capazes e do que não somos. Você só pode exigir de um jogador o que ele pode fazer. Eu estive em duas Copas do Mundo e sei o quanto ela é importante. Se você exigir muito dos jogadores, os problemas e conflitos irão começar”. As esperanças residem nas possibilidades de fortalecer o coletivo, encaixando as novas peças na seleção. Mesmo assim, o trabalho é árduo e as expectativas de sucesso, mínimas, por aquilo que tem sido exibido nos últimos tempos.



