A Argentina conquistou o Mundial também pelos jovens decisivos no acerto do time
Enzo Fernández, Alexis Mac Allister e Julián Álvarez deram bem mais equilíbrio à Argentina, que também viu Cristian Romero e Nahuel Molina crescerem durante a competição
A frase “seleção é momento” costuma ser repetida infindáveis vezes ao longo do ciclo de quatro anos de uma Copa do Mundo, especialmente às vésperas do Mundial. Já dentro da competição, esse “momento” é respeitar aquilo que os jogadores consegue entregar em campo num evento de tão elevada temperatura e pressão. E a Argentina aproveitou bem o momento de seus jogadores. Em especial, de tantos jovens que despontaram na hora certa para a Albiceleste. É uma Copa que premia no último momento a grandeza de Lionel Messi, assim como dimensiona da maneira devida o sempre decisivo Ángel Di María. Todavia, o time de Lionel Scaloni dependeu da ascensão recente de vários nomes essenciais. Jovens como Enzo Fernández, Alexis Mac Allister, Cristian Romero, Julián Álvarez e Nahuel Molina precisaram de só um Mundial para emplacar. Isso sem negar jogadores até mais rodados, que agregaram demais ao se somarem nesse ciclo, como Rodrigo de Paul e Emiliano Martínez.
Quando a Argentina sucumbiu na Copa de 2018, estava claro que precisaria de mudanças. A saída de Jorge Sampaoli era evidente, mas também alguns jogadores não pareciam aptos ao próximo ciclo da Albiceleste. De início, alguns jogadores importantes nos primeiros meses com Lionel Scaloni sequer se sustentaram depois. Nomes como Mauro Icardi, Cristian Pavón, Rodrigo Bataglia e Renzo Saravia não permaneceram. Mesmo outros que pareciam mais importantes de início não se garantiram como titulares até o final, a exemplo de Lautaro Martínez e Paulo Dybala. Em compensação, Scaloni aproveitou o momento.
O grande ponto de virada da Argentina, nos mais diferentes sentidos, foi a conquista da Copa América em 2021. Foi o instante em que Lionel Scaloni encontrou seu time e a Albiceleste deslanchou. Não à toa, a equipe usada contra o Brasil no Maracanã é praticamente a mesma que se viu na estreia diante da Arábia Saudita no Catar. Mudaram apenas os laterais, embora Gonzalo Montiel e Marcos Acuña seguissem importantes na rotação, enquanto o lesionado Giovani Lo Celso deu lugar a Papu Gómez inicialmente na ponta esquerda. Todavia, os argentinos desabaram de uma maneira inesperada contra os sauditas e, além dos acertos necessários, a comissão técnica contou com jogadores prontos a crescer na competição.
Enzo Fernández sai como o principal deles. Recebeu o prêmio de melhor jovem da Copa, figurou em diversas seleções do campeonato e transformou o time a partir de sua entrada. E não era difícil de perceber como o meio-campista de 21 anos poderia causar impacto na Argentina. Sua evolução foi meteórica, a começar pelo empréstimo ao Defensa y Justicia, antes de retornar como um dos principais jogadores do River Plate e depois emplacar de cara no Benfica. Já pela seleção, sua estreia na reta final de preparação impressionou. Não sentiu o peso da Copa do Mundo.
O golaço contra o México foi um baita cartão de visitas para Enzo Fernández. Ganhou a posição de titular contra a Polônia e foi um dos condutores da pressão da Argentina, que ganhou muito mais segurança no início da construção, no lugar de Leandro Paredes. Enzo fez um jogo mais dominante para ditar o ritmo contra a Austrália, quase resolveu nos minutos finais diante da Holanda, acelerou a transição contra a Croácia. Ainda assim, sua melhor exibição ficou para o grand finale contra a França. Conseguiu vencer o duelo dificílimo com Antoine Griezmann e foi implacável nos combates, com dez desarmes. O acerto do time passa por ele.
Assim como também passa por Alexis Mac Allister, este um pouco mais antigo nas convocações. Formado pelo Argentinos Juniors, mas de boa passagem emprestado ao Boca Juniors antes de seguir definitivamente ao Brighton, o meio-campista apareceu nas listas de Scaloni pela primeira vez em 2019. Virou um nome mais frequente na reta final das Eliminatórias e, no fim das contas, funcionou como o substituto de Giovani Lo Celso – mesmo que desempenhasse um papel distinto dentro de campo. Foi um jogador mais agressivo por sua capacidade de aproximação na faixa central.
Nem foi um começo tão bom de Mac Allister contra o México. O jogo que o confirmou no time veio diante da Polônia, com direito a gol e baita atuação. Aliás, a entrada de Enzo Fernández auxiliou demais Mac Allister. O Colorado não apareceu tanto na sequência dos mata-matas, como um jogador mais funcional que decisivo. Isso até que fizesse também uma excelente decisão contra a França. Foi um jogador de muita projeção pelo lado esquerdo, mas também flutuando pela direita quando necessário – vide o lance do segundo gol, em que dá a assistência para Di María. Entendeu o jogo e ofereceu verticalidade.
Já mais uma mudança providencial realizada por Scaloni no time foi a de Julián Álvarez. Foi outro que chegou às convocações apenas mais recentemente, respaldado pelas grandes temporadas com o River Plate, antes de se transferir ao Manchester City. Embora reserva na Copa América, ganhou mesmo espaço nas Eliminatórias e nos amistosos preparatórios, correspondendo com gols. Por sua mobilidade, se tornou um parceiro mais adequado a Messi na linha de frente, exatamente por se encaixar nos esquemas camaleônicos de Scaloni. Sempre entregou esse entendimento do jogo, algo que Lautaro Martínez não deu tanto, até pela Copa tecnicamente também ruim.
Se o impacto de Julián Álvarez não foi tão grande contra Arábia Saudita e México, ao sair do banco, ele foi uma das razões por melhorar o time a partir da imposição contra a Polônia. Não saiu mais, especialmente por corresponder com gols em momentos importantes dos compromissos. A atuação contra a Croácia na semifinal foi enorme, em que a sorte também esteve ao seu lado inclusive quando não tomou as melhores decisões. Já a sua final, se não foi tão ativa na construção dos gols, contou com sua movimentação em ótimos momentos da equipe. Destaque à “pré assistência” no lance do gol de Di María.
Na zaga, se não foi exatamente uma nova escolha de Scaloni, Cristian Romero também cresceu no Mundial. E o zagueiro dispensava apresentações, não só pelo crescimento que teve por Atalanta e Tottenham, como também pelo impacto positivo na seleção. A firmeza de Cuti foi uma das razões da conquista da Copa América contra o Brasil, mesmo que as lesões tenham atrapalhado uma sequência maior durante as Eliminatórias. Mas parecia o parceiro ideal a Nicolás Otamendi, até pela forma complementar com que atua ao lado do companheiro.
A estreia de Romero contra a Arábia Saudita foi ruim e, depois, ele perdeu a vaga contra o México. Recuperou-se a partir do jogo contra a Polônia, para ser essencial nos mata-matas. Virou uma figura definitiva não apenas por sua reconhecida capacidade no combate, mas também pela forma como ajudou a organizar o início da construção de jogo da Argentina. Virou um ponto de confiança ao lado de Otamendi. E se, por um lado, pareceu sobrecarregado a partir do segundo tempo da final, ainda deu conta do recado na maior parte das provações. Saiu com uma Copa até maior do que a do parceiro no fim. E fica uma menção a Lisandro Martínez que, embora reserva, auxiliou a completar o sistema – como opção no banco e também em variação na linha de três adotada em momentos importantes dos mata-matas.
Se as laterais argentinas não foram tão exuberantes, elas também não comprometeram. Pelo contrário, Scaloni teve certa regularidade nas constantes mudanças. Nicolás Tagliafico e Marcos Acuña estavam em 2018. Não era o caso de Gonzalo Montiel e Nahuel Molina. O camisa 26, aliás, foi outro que fez um Mundial que melhorou de nível. Sem começar bem, seria um dos melhores do time contra a Polônia e anotou um gol essencial contra a Holanda. Ainda é um jogador irregular, inclusive no Atlético de Madrid, mas o Mundial indicou que pode ser melhor aproveitado.
E isso sem falar nos demais que estouraram nesta Copa do Mundo, mais velhos, mas que não jogaram outros Mundiais anteriores. Emiliano Martínez foi convocado a primeira vez em 2011, mas em 2018 era reserva do Getafe. Sua explosão na Premier League foi muito útil à Albiceleste, ganhando o goleiro que não se via na seleção havia tempos. O mesmo pode se dizer de Rodrigo de Paul, que tinha bom cartaz nos tempos de Racing e principalmente de Udinese. Virou um verdadeiro operário desse time, com destaque à estelar final de Copa América, e se reinventou na Copa, depois da fraca estreia contra a Arábia Saudita. Difícil imaginar o título sem o seu trabalho, excelente contra Austrália e Holanda, mas também muito batalhador na final contra a França – até para tirar os adversários dos prumos.
Entre todos aqueles que ascenderam, ainda há um espaço para Lionel Scaloni. O próprio técnico foi uma revelação do período, ao chegar como interino e se manter no posto com o passar dos meses, até realmente provar seu valor como a melhor opção possível. Foi quem aliviou o ambiente de pressão e também promoveu a confiança do time. Já na Copa do Mundo, apresentou-se como um técnico bastante flexível e com ótima leitura dos adversários, especialmente em suas escalações iniciais. E sem se prender a nomes. Se ele mesmo ganhou espaço como resposta ao seu trabalho, não negaria isso aos seus jogadores. Encontrou a formação ideal com o bonde andando e a consolidou graças também à versatilidade das novas peças. Impossível alcançar esse tricampeonato sem aqueles que chegaram na hora certa, por méritos na convocação e naquilo que entregaram em campo.



