A Alemanha deixou o controle escapar e tomou a virada por temores que não eram exatamente novos
Com dificuldades para converter seu controle em gols e uma defesa na qual Rüdiger ficou sobrecarregado, a Alemanha perdeu a temperatura do jogo e ficou tarde para se recuperar
Quatro anos e meio se passaram desde que a Alemanha causou enorme decepção no Mundial da Rússia. E o retorno do Nationalelf ao Catar mantém um sentimento de frustração parecido, com a derrota para o Japão na estreia do Grupo E. Se por um lado a contratação de Hansi Flick trazia boas perspectivas, por outro, velhos problemas vigentes desde os tempos mambembes de Joachim Löw se repetiram durante os últimos meses preparatórios, o que gerava certa cautela na análise sobre as chances alemãs. A equipe dominou o primeiro tempo e poderia ter construído um placar mais confortável. Entretanto, a virada por 2 a 1 referendou alguns temores que não eram novos – da defesa exposta demais ao time que não sabe medir a temperatura dos jogos.
A Alemanha levou um tempo para entrar na partida. Deu sorte quando o gol sofrido logo de cara acabou anulado por impedimento e só depois disso conseguiu estabelecer o seu controle. Foi um time de ampla posse de bola no primeiro tempo, mas nem sempre penetração, algo recorrente nesse ciclo alemão. O Nationalelf rodava os passes, mas demorava para encontrar as brechas e preferia arriscar de longe. A melhora aconteceu quando Joshua Kimmich pôde distribuir um pouco mais e Jamal Musiala deixou para trás o nervosismo inicial. A postura do garoto, ao puxar da esquerda para o meio, abria uma avenida para as subidas de David Raum. Ilkay Gündogan já poderia ter servido o lateral antes, mas no fim seria mesmo Raum a sofrer o pênalti que Gündogan converteu.
O primeiro tempo terminou de forma positiva para a Alemanha, não apenas pela vantagem no placar. O meio-campo funcionou bem para ditar o ritmo e, graças a esse controle da posse, a defesa ficou menos vezes exposta. Quando necessário, Antonio Rüdiger sempre estava presente para chegar firme. Nem todas as peças do time haviam entrado no jogo, mas quem estava bem possibilitava a vantagem. E essa noção se preservou ao menos no início do segundo tempo. Musiala, em especial, se mostrou mais disposto a bagunçar. Quase anotou um golaço. Mas a falta de eficiência nas finalizações, como em outros momentos do ciclo, era um porém.
Cabe dizer que o Japão fez um primeiro tempo abaixo do potencial que demonstrou nos últimos meses, quando o trabalho de Hajime Moriyasu engrenou. Os Samurais Azuis procuravam bastante Junya Ito, herói nas Eliminatórias, mas estavam muito recuados e ainda deixavam um enorme espaço no lado direito. Ao longo do segundo tempo, contudo, os japoneses melhoraram a cada mexida. Primeiro, para consertarem a marcação com Takehiro Tomiyasu e a formação de um trio de zaga. Depois, para se soltarem mais ao ataque, especialmente com Kaoru Mitoma e Takuma Asano. A Alemanha, por outro lado, teve dificuldades em suas trocas.
Hansi Flick já tinha feito uma escalação questionável, sobretudo pela montagem da defesa. Em compensação, se Ilkay Gündogan nem era exatamente cotado para o 11 inicial, o volante entregou bastante quando esteve em campo. Era um dos termômetros do time e apareceu bastante para finalizar, inclusive com uma bola na trave no segundo tempo. Saiu para a entrada de Leon Goretzka, que dava mais potência no meio, mas custava a cadência. A Alemanha demorou a se encontrar. Da mesma forma, Jonas Hofmann não entrou bem e mudava as características em relação a Thomas Müller, de maior circulação no controle.
Um bombardeio alemão quase rendeu o segundo gol logo depois das mudanças, é verdade. Kimmich foi ótimo na criação do lance, mas Serge Gnabry esbarrou continuamente no goleiro Shuichi Gonda. E cada vez mais a Alemanha deixou o Japão ganhar campo. Se a montagem da zaga por Flick não parecia boa de antemão, isso se tornou gritante a partir dos 25 minutos. Niklas Süle era lento demais na lateral direita, enquanto Raum tem dificuldades sabidas na esquerda. Nico Schlotterbeck, em temporada ruim no Borussia Dortmund, também não transmitia qualquer confiança. Sobrava para Rüdiger. O zagueiro se multiplicava para fazer as coberturas e dar combate a cada escapada japonesa, numa zaga exposta, sem um meio-campo que também colaborasse na contenção. Entretanto, o beque não conseguiria estar em todos os lugares. O Japão cresceu mais com as mexidas.
O empate do Japão se desenhava, mesmo que Manuel Neuer tentasse adiar com suas defesas – e a chance perdida por Hiroki Sakai também ajudasse. Entretanto, a atitude dos nipônicos ao colocar Mitoma e Ito nas alas fragilizou ainda mais as laterais alemãs. Foi no espaço no setor de Süle que surgiu o gol de empate, num rebote. Já a virada aconteceu numa pane geral dos alemães. Desatenção pura da defesa. Ko Itakura lançou e Süle facilitou ao dar condições. Schlotterbeck foi muito frouxo na marcação de Asano e sequer travou o chute. A batida quase sem ângulo ainda encontrou a fresta entre Neuer e a trave. O Nationalelf sucumbia.
E se a Alemanha tinha deixado se envolver pelo Japão neste momento, também havia perdido a concentração para tentar a reação. Outro demérito de Flick foi tirar Musiala, o cara do lance individual, entre um gol e outro dos japoneses. O garoto fez falta, especialmente porque era um dos mais ligados no jogo. Niclas Füllkrug até cumpriu sua parte no lugar do apagado Kai Havertz, especialmente para as casquinhas nas bolas altas. O gol poderia ter saído numa bola vadia de Goretzka ou num chuveirinho com Rüdiger, mas o desespero já batia. Youssoufa Moukoko virou a cartada na reta final, mas a impressão era de que o Nationalelf tinha perdido o jogo bem antes, quando abriu mão do controle.
As lições quanto à Alemanha são expressas e dá para melhorar na sequência da Copa do Mundo. O problema? Algumas dessas falhas se arrastam há tempos e seguem sem solução, independentemente da mudança de técnico. A defesa continua vulnerável e a sorte dos alemães é que Rüdiger vive a melhor fase da carreira, senão seria pior. O time tem carências especialmente nas laterais, que custam a ser resolvidas. Por mais que tenha estourado no Freiburg, Schlotterbeck vive meses péssimos. Já no setor ofensivo, a dificuldade para transformar volume em gols é outro ponto. Foram 26 finalizações e, ainda que se reconheça os méritos de Gonda naquela sequência de defesas, marcar só um tento de pênalti para um xG de 3.27 é pouquíssimo.
Por fim, há uma questão sobre sentir a temperatura dos jogos. Foi onde a Alemanha se perdeu com o crescimento do Japão e Hansi Flick também não fez tanta coisa para ajudar o time a se achar. Quando a equipe despertou, acabou sendo tarde demais. Qualidade existe na Alemanha, mas nem sempre lideranças técnicas aparecem – e ficou um pouco mais difícil quando aqueles que tentavam, Musiala e Gündogan, acabaram saindo antecipadamente de campo. O Nationalelf completa quatro jogos com três derrotas nas duas últimas Copas. Vai precisar se achar exatamente num embate duro, contra a Espanha, a adversária que marcou o ponto mais baixo do ciclo atual. E a dificuldade para encarar adversários mais qualificados era mais uma das interrogações sobre os germânicos desde antes do Mundial. Terão que provar um ponto diferente, diante de um adversário que tende a exigir mais concentração da defesa, embora ofereça mais espaços para os alemães acelerarem – talvez o mapa da mina para a recuperação.



