Há pouco mais de dois anos, esta coluna fez uma série formada por quatro textos (disponíveis aqui), descrevendo a caminhada da seleção da Holanda em seu único título, a Euro 1988. A campanha realizada em campos alemães foi digna de conto de fadas: a primeira fase viu um crescimento gradual, até o auge na semifinal e na final. E a qualidade daquela geração de jogadores, que enfim dera um troféu à Laranja, fazia crer que a dose se repetiria na Copa de 1990.

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Junto do tradicional quarteto Itália-Alemanha-Argentina-Brasil – com a Azzurra como destaque, por jogar em casa –, a Oranje era considerada a grande favorita ao título. Provavelmente nunca uma seleção holandesa teve tamanho favoritismo antes de um torneio começar – somente, talvez, na Euro 2000, em que foi um dos países-sedes. De quebra, um trio de holandeses (Rijkaard, Gullit e Van Basten) era o destaque do principal time do mundo na época, o Milan bicampeão europeu.

Porém, veio a decepção na Itália: quatro jogos, três empates, uma derrota nas oitavas de final. Um time sem vontade, desmotivado, apático. E até hoje, 25 anos depois, torcedores holandeses (talvez no mundo todo) se perguntam: como uma das grandes gerações de jogadores que o país legou ao futebol, campeã europeia, pôde ser tão decepcionante? O que deu errado? A resposta é mais fácil do que parece: além do parco nível de jogo mostrado em campos italianos, a unidade mostrada pelo elenco na Euro 1988 fora quebrada num espaço de dois anos, por traições e guerra de vaidades.

Por sinal, a primeira rachadura no encantamento trazido pela conquista continental veio logo depois dela. Já com a saída rumo ao Bayer Leverkusen confirmada antes da Euro, Rinus Michels deixou o comando da seleção para Thijs Libregts. Que teve péssima relação com os jogadores, em sua turbulenta passagem de um ano e meio como treinador da seleção holandesa.

Com Gullit, a coisa era ainda pior. Em 1984, quando este fora comandado por Libregts no Feyenoord, o treinador deu uma entrevista ao jornal “De Volkskrant”, elogiando-o, mas com uma advertência que seguia pela perigosa seara étnica: “Eu espero que a mentalidade dele [Gullit] continue boa. Negros, sabe como é…”. Antes mesmo da Euro, em fevereiro de 1988, entrevistado pela revista “Voetbal International”, Gullit já reconhecia: “Será difícil trabalhar com um treinador como Libregts”.

E foi. Nas eliminatórias para a Copa de 1990, nem houve problemas quanto ao resultado: com 10 pontos, a Oranje terminou na primeira posição do grupo 4 (que tinha justamente a futura campeã mundial Alemanha) e garantiu a volta a uma Copa, após 12 anos. Mas houve problemas quanto ao estilo de jogo, considerado conservador demais para um país que sempre teve gosto pelo ofensivo. Basta dizer que, em seis jogos de qualificação, foram apenas oito gols. Menos do que a Alemanha, que marcou treze.

Começaram aí os rachas. Após o empate em 1 a 1 com os alemães, em Roterdã, Gullit escreveu uma coluna ao jornal “De Telegraaf” desancando o técnico. Pior: Libregts passava recibo às críticas dos jogadores que convocava, agindo de maneira autoritária demais, no estilo do “quem manda aqui sou eu”. Um bom exemplo veio na vitória fora de casa sobre a Finlândia (1 a 0), quando Gullit ficou no banco mesmo em boas condições físicas, dando lugar ao medíocre Juul Ellerman. E justamente a “Tulipa Negra” fez a jogada do gol da vitória, marcado por Wim Kieft.

Outro: na vitória contra o País de Gales, que confirmou a classificação (2 a 1, em Wrexham), Van Basten entrou somente aos 27 minutos do segundo tempo, substituindo Rob Witschge. Segundo o atacante do Milan, não havia lesão nenhuma que o impedisse de jogar – algo raro, em se tratando de Van Basten. E nada de justificativas de Libregts. O que só arruinava mais e mais sua (não) aceitação no elenco.

A resolução foi brusca. Ainda em 1989, antes do último jogo pelas eliminatórias, houve uma reunião, na cidade de Oegstgeest. Os envolvidos: Thijs Libregts; seu auxiliar Nol de Ruiter; Martin van Rooijen, diretor de futebol profissional da federação; Rinus Michels, que fracassara no Bayer Leverkusen, ficando menos de um ano no clube; e um grupo de “cardeais” do elenco – Gullit, Van Basten, o goleiro Van Breukelen e o capitão Ronald Koeman. Ali ficou definido: Libregts seguiria, mas com Michels tornando-se um diretor técnico da federação, sendo interlocutor do treinador.

Assim funcionou a Oranje no amistoso que celebrou o centenário da federação, contra o Brasil (1 a 0 para a Seleção, em Roterdã, gol de Careca, em 20 de dezembro de 1989). Nenhum dos grandes destaques holandeses esteve em campo, fosse por cansaço (Van Basten e Rijkaard haviam acabado de disputar e ganhar o Mundial Interclubes pelo Milan) ou lesão (um problema no joelho deixou Gullit fora de combate até meados de 1990).

Mas o clima não melhorou muito. Em fevereiro de 1990, num amistoso sem gols contra a Itália, com Nol de Ruiter comandando a seleção (Libregts acabara de passar por uma remoção de hérnia de disco), todos os principais jogadores estavam disponíveis. O que não significou que estavam satisfeitos. Em março, por meio de Van Basten, o elenco exigiu a Rinus Michels outro técnico para comandá-los na Copa. Um técnico que tivesse mais pulso firme e ascendência sobre os jogadores do que Libregts jamais teria.

Após uma tensa reunião entre Libregts e os atletas, com Gullit confirmando que o elenco não o queria mais, o técnico deixou a seleção. E nova reunião foi feita, entre Michels, os líderes do elenco e a federação. Ali os jogadores receberam uma lista com três sugestões de nomes para treinar a Oranje na Copa. Eram Aad de Mos (treinador do Anderlecht, com sucesso no futebol belga – treinara o Mechelen campeão da Recopa em 1987/88), Leo Beenhakker (técnico do Ajax, então) e… Johan Cruyff, que dispensava qualquer comentário (e já reerguia o Barcelona).

O resultado? 8 votos para Cruyff, 5 para Beenhakker e 2 para De Mos. Os jogadores teriam o técnico que desejavam – e era de se imaginar o que um gênio como Cruyff faria com um elenco daquela qualidade. Teriam… se a federação não pensasse diferente. A KNVB ignorou a votação e anunciou Beenhakker como treinador para a Copa.

Michels justificou, em um livro sobre o torneio: “Tínhamos nossa própria visão sobre os três candidatos, na qual a relação pessoal não estava em discussão. Dependia mais de outras qualidades, e a direção de futebol profissional decidiu-se por Beenhakker em função delas. Foi uma comoção, sobretudo porque os partidários de Cruyff – com Van Basten à frente – disseram-se traídos. E traídos pelo homem de confiança deles – acho que falavam de mim. O que é injusto. (…) O trio do Milan não tinha autorização do grupo para nos comandar. Daí, imaginamos que poderíamos tirar nossas conclusões. Van Basten e seus representantes deveriam ter se tocado que a federação tem sua própria responsabilidade e deve, pois, seguir seu próprio caminho”.

Motivos? Nunca foram revelados, abertamente. Mas fala-se em ciúme inconfesso de Rinus Michels. Afinal de contas, se era Cruyff, e não ele, considerado o maior responsável pelo Futebol Total em 1974, o que aconteceria se o título mundial viesse em 1990? Por isso, supõe-se que o diretor técnico da federação decidiu “cortar o mal pela raiz”, evitando que o “Nummer 14” ocupasse um cargo que muitos lamentam não tê-lo visto ocupar, até hoje. Além disso, sabe-se que Johan faria as coisas do jeito dele. E Michels talvez desejasse manter algum tipo de ascendência sobre a comissão técnica.

Fosse como fosse, houvera uma traição, uma quebra de confiança. O que já é ruim em qualquer relação. No futebol, então, “trairagem” é sinônimo de elenco rachado. Exatamente como aquele elenco de 22 jogadores chegou à Itália para a Copa. Em qualidade técnica, nada a questionar: os grandes destaques da Euro 1988 estavam lá, além de alguns novatos que faziam sucesso à época, como Bryan Roy e Richard Witschge.

Mas o rumo estava perdido. Mesmo Beenhakker estava sem comando nenhum: com Rinus Michels simultaneamente auxiliando-o e sendo uma sombra, e um elenco que não o respeitava. Na verdade, não respeitava nem a federação: o lateral esquerdo Adri van Tiggelen chegou a dizer que “se formos campeões mundiais, vamos chutar os diretores de futebol profissional pra fora da festa”. Era um elenco imerso em elogios e vaidades. Afinal, Van Basten, Gullit e Rijkaard haviam acabado de ser bicampeões europeus com o Milan, e Ronald Koeman era considerado um dos melhores zagueiros do mundo, no Barcelona.

Como se não bastasse, Beenhakker se mostrou indeciso quanto à melhor escalação. Na estreia contra o Egito, escalou a equipe no 4-3-3 velho de guerra, com dez remanescentes da Euro 1988. Após o vexatório empate por 1 a 1, mudou o esquema para um 4-4-2, colocando o novato Hans Gillhaus ao lado de Van Basten. Também fracassou: 0 a 0, com a Inglaterra jogando melhor e fazendo dois gols anulados. Finalmente, contra a Irlanda, uma leve evolução, mas uma falha de Van Breukelen resultou no gol de empate, em novo 1 a 1.

Com o empate em todos os critérios com os irlandeses, um sorteio “deixou” a Oranje em terceiro lugar no grupo F. Restou enfrentar a tradicional rival Alemanha, nas oitavas de final. Curiosamente, a Holanda teve seu melhor começo de jogo naquela Copa. Mas a expulsão de Rijkaard, que perdeu a cabeça e ainda levou Rudi Völler junto, fez a equipe se perder. A calma e o entrosamento alemão tomaram conta do jogo, fazendo um tranquilo 2 a 1, despachando os holandeses e confirmando uma das maiores decepções daquela Copa.

Periodicamente, rachas internos continuaram fazendo parte da seleção holandesa aqui e ali. As Euros de 1996 e 2012 são os dois melhores exemplos. Todavia, essas crises foram mais raras, de 1990 para cá. E seja como for, nenhuma delas causou resultados tão decepcionantes quanto naquela Copa do Mundo, há 25 anos.