Por Daniel Brito

“Continue andando, continue andando
  Com esperança no seu coração
  E você nunca andará sozinho”

Mais de 60 mil vozes cantam este refrão no Celtic Park, assim que o time da casa entra em campo. O trecho faz parte da popular canção da década de 40 You’ll Never Walk Alone, composta por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II e regravada por nomes como Elvis e Frank Sinatra. Esta música foi incorporada pelo Liverpool e todos os torcedores a cantam em Anfield Road, sendo o clube que mais tornou a canção famosa. Depois, acabou sendo adotada por diversos times da Europa, com o Celtic sendo um deles.

A torcida

Quando se fala de torcidas em futebol, é comum compará-las a religiosos fanáticos. A torcida do Celtic talvez seja a que mais faz jus a esta comparação. Fundado em 1888 por um padre irlandês católico, conhecido como Brother Walfrid, seu primeiro uniforme foi uma camisa branca com a gola verde e uma cruz celta no peito. Mais à frente, a gola daria lugar a listras verticais verdes para, em 1903, serem mudadas para horizontais, como é ainda hoje.

“The Bhoys”, como eram conhecidos por causa da pronúncia irlandesa, fizeram seu primeiro jogo oficial em 28 de maio de 1888 contra um certo time de azul: o Glasgow Rangers. A estreia foi boa: um sonoro 5 a 2 contra o time com o qual estabeleceria uma das maiores rivalidades do futebol mundial.

The Old Firm

Celtic e Rangers nasceram para serem opostos um ao outro, de uma forma que extrapola – e muito – as quatro linhas. Os alviverdes são populares na Irlanda e por escoceses descendentes de irlandeses, todos católicos; os Rangers, por sua vez, são identificados com a comunidade protestante e, tradicionalmente, sua torcida era de escoceses nativos.

O dérbi de Glasgow é conhecido como The Old Firm. Entre as muitas explicações para este nome, a mais popular é de que o “firm” se refere à rentabilidade que o clássico proporcionava sempre que era jogado.

Apesar da enorme rivalidade, os dois times não tiveram grandes êxitos no cenário europeu. O Rangers conquistou apenas uma Recopa da Uefa (que reunia os campeões das Copas nacionais, competição atualmente extinta), em 1972. Já o Celtic conseguiu feitos maiores. Conquistou a Copa dos Campeões em 1967 e ainda conquistou dois vice-campeonatos da Copa da Uefa (2003) e da Copa dos Campeões (1970).

The Lisbon Lions

Em 1967, o Celtic tinha como técnico um ex-jogador que começou a fazer história assim que assumiu o cargo, dois anos antes. Jock Stein era um ex-meio-campista com passagens por diversos times na Escócia e, na época, tornou-se o primeiro técnico protestante da história do clube.

Entretanto, a forma com que Stein ficaria definitivamente marcado estava por vir. Em 1967, Stein tinha em mãos um time com uma incrível particularidade: todos os jogadores haviam nascido a menos de 50 quilômetros do Celtic Park. Além da total identificação com o clube, o time era ótimo: não à toa, fez deste o mais bem-sucedido ano da história do Celtic, ganhando todos os campeonatos que disputou.

A final do mais importante deles, a Copa dos Campeões, foi contra a poderosa Internazionale, em Lisboa. Os italianos abriram o placar com Alessandro Mazzola cobrando pênalti aos sete minutos do primeiro tempo. O empate só viria aos 20 do segundo, com Tommy Gemmell, após intensa pressão do Celtic. Faltando cinco minutos para o fim do jogo, Stevie Chalmers desviou um chute de Bobby Murdoch, fazendo o gol da vitória do Celtic.

O primeiro time escocês a chegar e ganhar uma final de Copa dos Campeões entraria para a história como os Lisbon Lions. Jock Stein ainda chegaria a uma outra final do mais importante torneio europeu, em 1970. Entretanto, desta vez, o Celtic perdeu para o Feyenoord por 2 a 1, na prorrogação.

De Larsson até agora

Diversos grandes jogadores vestiram a camisa alviverde de Glasgow, como Neil Lennon, Kenny Daglish, Billy McNeil, entre outros. Porém, é impossível falar sobre o Celtic sem citar o melhor jogador estrangeiro de sua história e um dos melhores atacantes de sua época: o artilheiro sueco Henrik Larsson.

Larsson jogou sete anos pelo Celtic, de 1997 a 2004, quando, no encerramento de seu contrato, assinou com o Barcelona. Durante este período, os bhoys ganharam quatro Campeonatos Escoceses, duas Copas da Escócia e duas Copas da Liga. O artilheiro também fez parte do grupo conhecido como “The bhoys from Seville”, vice-campeões da Copa da Uefa de 2003. Apesar de marcar dois gols na final, Larsson viu o Celtic ser derrotado pelo Porto de Deco e José Mourinho, em Sevilha, por 3 a 2 na prorrogação.

Atualmente, o Celtic tem como técnico seu antigo meio-campista, o ídolo Neil Lennon. Os bhoys ocupam a segunda colocação do Campeonato Escocês, atrás de seus maiores rivais, o Rangers. Na Liga Europa, o time está em terceiro no Grupo I, que também tem Atlético de Madrid, Udinese e Rennes.

Lennon tem em suas mãos um time mediano, que tem como principais destaques o meia Kris Commons e o atacante Gary Hooper. Se a equipe está longe dos Lisbon Lions ou dos Bhoys from Seville, ao menos ela conta com o ingrediente comum a todos esses grandes times – uma torcida apaixonada que não se cansa de repetir:

“Continue andando, continue andando
  Com esperança no seu coração
  E você nunca andará sozinho”