Já virou comum, no futebol brasileiro: chega a data Fifa, o técnico da seleção brasileira principal (ou das categorias inferiores) convoca jogadores dos mais conhecidos clubes nacionais, sem que os campeonatos parem para jogos de seleções… e a torcida faz as críticas ácidas, e os clubes também. Quase sempre, para amainar a irritação, muitos lembram em tom de alerta: de nada adianta os clubes protestarem contra convocados, se aceitaram o calendário proposto pela CBF, com as datas previstas para os campeonatos estaduais, a sequência simultânea do Campeonato Brasileiro etc. Os mesmos que alertam dizem que as agremiações deveriam ser mais fortes, deveriam fazer crescer mais suas vozes contra a Confederação Brasileira de Futebol.

Pois é: ao nascer, em 1987, o Clube dos 13 pretendeu fazer isso, pelo menos por algum tempo. Mas fracassou, em toda a sua história. Justiça seja feita, não só por causas externas: discordâncias entre seus membros e incompetências quando teve a chance nas mãos também mataram qualquer força que a entidade teve, em seus 24 anos de história, que serão detalhados aqui.

O início: um idealismo nascido aos trancos e barrancos

Em 7 de julho de 1987, a CBF anunciou que não poderia organizar o Campeonato Brasileiro daquele ano, por falta de verbas. Simples assim, segundo as palavras de Otávio Pinto Guimarães (1922-1990), então presidente da entidade – dividindo o protagonismo com o diretor de futebol, Nabi Abi Chedid (1932-2006). Segundo diz a lenda, tão logo Otávio fez o anúncio, houve um telefonema entre Carlos Miguel Aidar, então presidente do São Paulo, e Márcio Braga, o mandatário do Flamengo naquele ano. Um disse para o outro: “Chegou a hora”.

Fosse quem fosse o dono da frase, a intenção estava clara entre ambos, Aidar e Braga: era hora de unir os principais clubes brasileiros em torno de uma entidade que pudesse não só organizar o Brasileiro, mas também representar os interesses das agremiações. Algo que não era feito até então – sim, havia uma associação prévia de clubes, mas com repercussão e representatividade nulas. Era uma tentativa de os próprios clubes evitarem os problemas organizacionais e “inchaços” no número de participantes, até então crônicos no Campeonato Brasileiro, que passara por problemas daquele tipo durante sua edição em 1986. E também uma tentativa de tornar a voz dos clubes mais grossa: naquele mesmo ano, em 1987, tanto São Paulo quanto Flamengo haviam se negado a ceder jogadores a uma convocação da Seleção Brasileira para jogos contra Irlanda e Inglaterra, pela amistosa Copa Stanley Rous, e Márcio Braga celebrara, dizendo que “era o fim do autoritarismo no futebol brasileiro”.

Coube a Aidar mobilizar os presidentes dos outros onze clubes pensados para integrarem a entidade que tentaria tomar a frente da organização do Brasileiro de 1987 – e, função mais importante, tentaria aumentar a representatividade deles. Claro, é fácil imaginar quais eram: além de São Paulo e Flamengo, lá estariam os outros “grandes” paulistas (Corinthians, Palmeiras e Santos), os outros “grandes” do Rio de Janeiro (Fluminense, Vasco e Botafogo), mais as duplas conhecidas de Rio Grande do Sul (Grêmio e Internacional) e Minas Gerais (Atlético e Cruzeiro). Adicionado a eles, estava o Bahia, como representante do Nordeste. E o presidente do São Paulo organizou uma reunião entre os 13 dirigentes, num salão dentro do estádio do Morumbi, em 11 de julho de 1987, um sábado, pela manhã.

Pelo menos, é a lembrança de um nome que esteve nessa e em todas as reuniões iniciais daquela nascente entidade: o jornalista Juca Kfouri – entusiasta dela, como expressava em suas colunas na revista Placar, da qual era o diretor de redação naquele 1987. Naquele encontro inicial, ficou decidido que ela teria um nome oficial, mais pomposo: a União dos Grandes Clubes Brasileiros. Pouco a pouco, porém, por serem 13 os clubes fundadores, ela ganhou o nome conhecido: o Clube dos 13, do qual Carlos Miguel Aidar seria o presidente.

Feita a reunião inicial organizada por Aidar no Morumbi, em 11 de julho de 1987, outras vieram. E outros presidentes começaram a preponderar dentro daquela nascente entidade. Como Elias Kalil (1930-1993), então presidente do Atlético Mineiro – como se pode deduzir, Elias era o pai do futuro sucessor Alexandre. Recorda Juca Kfouri: “O velho Kalil foi importante. Inclusive, houve uma reunião no Atlético Mineiro, à qual eu fui. Se eu não estiver muito enganado – acho que eu não estou -, foi nessa reunião que eu me adiantei e disse que Placar ofereceria a taça da Copa União”. Outro a se destacar foi Paulo Odone, então presidente do Grêmio, que tomou a frente das proposições junto a Carlos Aidar e Márcio Braga, a dupla mais destacada. “Intelectualmente, Odone certamente era o mais criativo. Claro que ele não tinha a força que Carlos Miguel e Márcio Braga tinham, mas teve um papel decisivo”, elogiou Kfouri.

Houve ainda outros nomes simpáticos à ideia de uma vinculação maior dos clubes, via Clube dos 13 – como Nélson Duque (1925-1998), presidente do Palmeiras, que mostrava polidez no tratamento dos adversários por um hábito que foi gozado até pelos torcedores palmeirenses: Duque chamava os adversários de “coirmãos”. E até mesmo Eurico Miranda (1944-2019), já então diretor de futebol do Vasco, destacado para as reuniões do grupo pelo presidente Antônio Soares Calçada (1923-2019), era “domável”, nas palavras de Juca Kfouri.

Obviamente, também havia quem desconfiasse daquela união. Como Althemar Dutra de Castilho (1914-2001), então presidente do Botafogo. Vicente Matheus (1908-1997), presidente do Corinthians, também era bastante reticente quanto às intenções do C-13, nas memórias de Kfouri: “Não me lembro do Matheus em reunião. Ele não ia. Sempre desconfiado, sempre achando que estavam querendo prejudicar o Corinthians”. Aos poucos, porém, caminhava o objetivo de organizar um torneio que seria o Campeonato Brasileiro de 1987. Objetivo potencializado pelo plano montado pelo publicitário João Henrique Areias, então vice-presidente de marketing no Flamengo. Tal plano já encontrava parceiros: a Coca-Cola para patrocinar, a TV Globo para exibir os jogos, a Varig para transportar os times, a Editora Abril para fazer o álbum – e, como já citado, a revista Placar (leia-se Juca Kfouri) como apoiadora. E o nome do torneio mencionaria aquele agrupamento de clubes: seria a Copa União.

A Copa União já nascia polêmica: afinal, desconsideraria times como Guarani e America-RJ, respectivamente o vice-campeão e um dos semifinalistas do Brasileiro de 1986. Pretendendo contemplá-los, a CBF pensava num Campeonato Brasileiro com 32 equipes, tendo dois módulos de 16 integrantes. Clubes como Botafogo e Fluminense já ouviam os planos da entidade maior do futebol no Brasil para o campeonato, e ameaçavam largar o C-13 antes mesmo dele se iniciar oficialmente. Para evitar a debandada, João Henrique Areias (e Celso Grellet, seu braço-direito no C-13, também diretor de marketing, mas no São Paulo) anteciparam a apresentação dos planos publicitários para a Copa União. Deu certo, e os membros se acalmaram. Para minorar as acusações de que aquele agrupamento era elitista e antipático, o Clube dos 13 pediu que as federações de Goiás, Paraná e Recife indicassem mais três membros “menores”. Eles foram aceitos: o Goiás, o Santa Cruz e o Coritiba. E o C-13 seguiu batendo o pé contra a CBF: a Copa União teria 16 clubes e nenhum mais.

Todavia, a reunião de assinatura dos contratos, pouco antes da abertura da Copa União, revelou como a unidade passava longe do Clube dos 13. Primeiramente, havia dirigentes que se abespinhavam com a transmissão dos jogos pela TV Globo, julgando que aquilo afugentaria o público dos estádios. Mais discutido ainda foi o acordo com a Coca-Cola, que patrocinaria 11 dos 13 clubes. Mesmo com seu presidente Márcio Braga sendo um dos cabeças do Clube dos 13, o Flamengo não abriu mão do contrato com a Petrobrás. Justamente na noite de assinatura dos contratos com os parceiros, mais clubes se insurgiram contra o acordo para que a mastodôntica multinacional dos refrigerantes estampasse sua marca.

O primeiro foi o Corinthians. Vicente Matheus foi lapidar e hilário, como Juca Kfouri (presente à reunião) se lembrou: “Matheus disse: ‘O Corinthians também não assina. Se é bom para o São Paulo, não é bom para o Corinthians. De mais a mais, o São Paulo não quis emprestar para nós o Renatinho [meio-campista que começava então a ter espaço no time principal do São Paulo, após surgir bem na base]’. Saem da mesa ele [Matheus], o Odone, o Márcio Braga e o Carlos Miguel. (…) Ficam lá uns quinze minutos. Voltam – os três com o rabo entre as pernas, e o Matheus todo pimpão. Carlos Miguel anuncia que haveria uma exceção para o Corinthians: revelou-se que o Corinthians tinha um acordo, depois se soube, com a Kalunga, e que o Corinthians não teria a Coca-Cola”. Curioso: nem o São Paulo teve a marca – na Copa União, a BIC patrocinou a camisa tricolor.

Seguiu a assinatura dos contratos. E depois, mais uma particularidade clubística – esta de regimento interno – dificultou demais as coisas. Mesmo sendo apoiador de primeira hora do Clube dos 13, Paulo Odone acabou protagonizando uma história que se tornou anedota clássica do futebol brasileiro, como Juca Kfouri lembrou: “O livro [de contratos] recomeça a passar. Quando chega ao Odone, ele – ironias à parte – fica vermelho como um pimentão, põe a mão na cabeça e diz: ‘Vocês vão me desculpar, mas eu andei tão enfronhado nessa história toda, que não li minúcias do contrato. Estou lendo aqui na primeira página que os clubes estamparão, em tantos centímetros, a marca da Coca-Cola, em vermelho’. Isso significa o meu impeachment, em 24 horas. Porque a cláusula pétrea do estatuto do Grêmio [diz] que não há vermelho em nada’”.

Presidente da Coca-Cola no Brasil, o argentino Jorge Giganti estava apressado – viajaria na mesma noite a Atlanta, sede mundial da Coca-Cola, exatamente para apresentar o case de marketing que unia a empresa aos clubes mais conhecidos do futebol brasileiro. Coube a Giganti uma rápida resolução daquele dilema de Odone: uma autorização para que cada membro do Clube dos 13 que tivesse restrição daquele tipo estampasse o famoso logotipo da Coca-Cola na cor que melhor lhe aprouvesse. Problema resolvido: para equipes como Grêmio e Santos, a marca do novo patrocinador seria estampada em preto. “Assim nasce o Clube dos 13”, na lembrança de Juca Kfouri.

A composição que desfez tudo

Clube dos 13 e CBF viveram às turras, quando a Copa União começou. Até 3 de setembro de 1987, quando se anunciou o famoso acordo assinado entre Otávio Pinto Guimarães (presidente da CBF, conforme supracitado) e Eurico Miranda (representante do C-13), segundo o qual o campeão brasileiro seria definido num quadrangular seria realizado entre campeões e vices da Copa União – o Módulo Verde daquele Campeonato Brasileiro – e do Módulo Amarelo que a CBF organizava. Não que o Clube dos 13 planejasse cumprir o acordo, segundo Juca Kfouri se lembrou: “O Eurico Miranda assinou e disse para os seus pares que assinou para que não enchessem o saco, ‘na hora H a gente dá um pé na bunda desses caras e não faz cruzamento nenhum’”.

Mas o resultado final do torneio organizado pelo Clube dos 13 fez com que as intenções de Eurico não fossem bem assim, novamente segundo Kfouri: “Sendo o Flamengo o campeão, o inimigo figadal do Vasco… embora o Eurico tenha dado a célebre declaração ‘é claro que o Flamengo é o campeão brasileiro’, em seguida ele tentou dinamitar isso”. Já era tarde: a posição do Clube dos 13 ficava dificultada, como lembrou o jornalista. “Ele [Eurico Miranda] foi repelido tão logo chegou à reunião e disse que tinha assinado. Imediatamente o Clube dos 13 disse ‘isso não vale’. Mas do ponto de vista do Sport… ‘como, isso não vale? Mandaram o cara aqui, o cara veio e assinou, isso vale’”. De fato, Sport e Guarani, campeão e vice respectivos do Módulo Amarelo, fizeram valer o acordo polêmico – principalmente o clube pernambucano, a partir de suas sucessivas vitórias na Justiça.

A partir daqui, repetem-se duas dicas de leitura para quem quiser entender o que ocorreu na resolução do Campeonato Brasileiro de 1987. Para todo um histórico da Copa União, indica-se “Crise, revolução e traição”, matéria que Ubiratan Leal fez originalmente para a revista Trivela, em novembro de 2007. Para a compreensão de como o Sport viveu aquele segundo semestre que lhe rendeu um título brasileiro, legalmente falando, se sugere o livro “1987: de fato, de direito e de cabeça” (2017, Editora Onze Cultural), dos jornalistas Cássio Zirpoli e André Gallindo.

Presidente do Conselho Nacional do Desporto, órgão ligado ao Ministério da Educação e Cultura, o professor Manoel Tubino (1939-2008) defendia que o Flamengo era o legítimo campeão brasileiro de 1987. Ainda assim, para evitar que o racha se repetisse em 1988, Tubino decidiu mediar uma contemporização. Novamente, Juca Kfouri entrou na história: “Tubino me liga e diz que existe essa possibilidade [de conciliação]. Aí, ele me faz o pedido que eu não deveria ter aceito: ‘Nós não temos onde nos reunir sem que isso se torne público. Nós temos de fazer uma reunião – eu, o Carlos Miguel [Aidar, presidente do Clube dos 13] e o Nabi [Abi Chedid, diretor de futebol da CBF]. Podemos fazer na sua casa?’. Falei: ‘Tubino, aqui na minha casa?’. ‘Podemos?’ ‘Está bem…'”.

Uma das partes que havia sido parceira da Copa União ainda tentou chamar o Clube dos 13 à independência, segundo Juca Kfouri: a TV Globo, emissora na qual o jornalista começara a trabalhar justamente naquele 1988. “O Boni [José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, vice-presidente de operações da TV Globo] mandou um recado por meu intermédio ao Tubino, ao Carlos Miguel e ao Márcio Braga. O recado era de que a Globo bancava a guerra, não a conciliação. ‘Não tem nada que conciliar com esses caras'”. Mas Tubino, Aidar e Nabi fizeram o acordo. O Clube dos 13 se aliava à CBF, que voltaria a organizar o Campeonato Brasileiro a partir de 1988, acrescendo oito clubes aos 16 da Copa União (América-RJ, Athletico Paranaense, Bangu, Criciúma, Guarani, Portuguesa, Sport e Vitória).

E o C-13 perdia o aspecto de (relativa) independência com o qual nascera.

A Copa João Havelange: quanto mais forte, mais fraco

Desde a recomposição com a CBF, a partir de 1988, o Clube dos 13 passou a se concentrar apenas numa função: a de negociador dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro. Seguiu assim sob Carlos Miguel Aidar, seu presidente até 1990; com Carlos Facchina, então presidente do Palmeiras, que dirigiu a entidade entre 1990 e 1992; com Afonso Paulino, dirigente maior do Atlético Mineiro, comandante do C-13 entre 1992 e 1994; e desde 1995, sob o comando de Fábio Koff (1931-2018), então presidindo o Grêmio.

E nem ter só essa tarefa livrava o Clube dos 13 de controvérsias – como se viu na negociação dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro no triênio 1997/2000, quando a oferta do consórcio Globo/Bandeirantes foi a escolhida pela entidade, mesmo com o SBT fazendo proposta mais vantajosa financeiramente (a Trivela já comentou sobre isso, neste texto). De todo modo, o Clube dos 13 celebrou seus dez anos com abertura para mais membros: em 1997, passaram a ser membros Coritiba, Goiás e Sport. Em 1999, o Clube dos 13 passou a ter 20 integrantes, com as entradas de Athletico Paranaense, Guarani, Portuguesa e Vitória. O acordo com a CBF seguia, sem perturbações – tanto que o chefe da delegação brasileira na Copa de 1998 foi justamente… Fábio Koff, o presidente do C-13.  E o processo teve seu auge em 2000, quando o que seria o Campeonato Brasileiro daquele ano virou a Copa João Havelange.

Tudo começou ainda em 1999: neste ano, o Brasileiro teria seu rebaixamento decidido de acordo com a média ponderada das pontuações dos 22 clubes nas edições da Série A em 1998 e no próprio 1999. Os clubes com as quatro piores médias seriam os quatro rebaixados. Em meio à primeira fase do campeonato, o STJD (Supremo Tribunal de Justiça Desportiva) tirou do São Paulo os pontos das partidas contra Botafogo (goleada são-paulina: 6 a 1) e Internacional (empate por 2 a 2), pela equipe paulista ter escalado nelas o atacante Sandro Hiroshi, cuja inscrição fora feita falseando a sua idade – o caso que tornou famoso a gíria “gato” para qualquer jogador com idade maior que a registrada. Com isso, o Botafogo se salvou das ameaças de rebaixamento que o fizeram sofrer por toda a fase de classificação. Em seu lugar, caiu o Gama, estreante na Série A.

Estaria tudo certo para a CBF… se o clube verde do Distrito Federal não decidisse entrar com um processo na Justiça comum, tão logo foi rebaixado, pela manutenção dos resultados de campo. O processo impetrado pelo advogado Paulo Goyaz  – ele mesmo, futuro presidente do Gama – teve apoio do Sindicato dos Técnicos de Futebol do Distrito Federal, do então deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP) e do então PFL, hoje DEM. Todos contra a CBF. A entidade maior do futebol brasileiro entrava numa disputa jurídica que não teria fim até meados de 2000, às vésperas de mais uma edição da Série A.

Em disputa na Justiça, a confederação não poderia organizar o campeonato. Qual foi a solução? Exatamente: a CBF cedeu de bom grado a tarefa ao Clube dos 13, que organizou o campeonato de 2000. Inicialmente, sem o Gama, mas uma liminar impetrada pelo clube da cidade-satélite brasiliense fez com que ele fosse incluído no torneio. Com Eurico Miranda – eleito presidente do Vasco justamente naquele ano – como principal articulador, nasceu a Copa João Havelange.

Nunca tantos clubes brasileiros tiveram chance de ser campeões nacionais em 2000: a Copa JH teria 116 clubes, divididos em quatro módulos (lembrança involuntária de 1987), sem rebaixamento. No Módulo Azul, o principal, 25 clubes – os 17 vindos da Série A em 1999; Gama e Juventude, que haviam sido rebaixados, mas não caíram; o Botafogo, beneficiado pela decisão do STJD que o mantivera na Série A; Santa Cruz e Goiás, os dois promovidos da Série B em 1999; Bahia e América-MG, que ficariam na Série B em 2000, mas conseguiram cavar um lugar no principal módulo; e o Fluminense, promovido à Série B como campeão da Série C em 1999, mas içado imediatamente para o Módulo Azul, fundador do Clube dos 13 que era.

No Módulo Amarelo, 36 clubes, provindos das Séries B e C do ano anterior – sendo 15 deles os clubes restantes que estavam na Série B, mais 21 agremiações convidadas pelo Clube dos 13. Os Módulos Verde e Branco foram disputados em conjunto, com clubes da Série C – no Verde, 28 clubes das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste; no Branco, 27 times, de Sudeste e Sul. Cada módulo ocorreu, e o mata-mata da Copa JH teve 16 times: os 12 melhores classificados do Módulo Azul, os três melhores colocados do Módulo Amarelo, e o campeão dos Módulos Verde e Branco. Foi por esse caminho que o São Caetano surgiu como uma engraçada novidade no futebol brasileiro: vice-campeão do Módulo Amarelo (o Paraná foi o campeão), o Azulão ganhou vaga nas oitavas de final… e seguiu até a decisão daquele torneio, como muita gente se lembra.

Só não ganhou porque havia o Vasco, com um grande time em campo. Romário, Euller, Juninho (justamente a partir daquela Copa JH, apelidado Pernambucano, com a chegada do Juninho “Paulista”, ex-São Paulo), Mauro Galvão, Viola, Gilberto, Hélton… destaques sobravam na equipe da Colina. Mas acima de tudo, houve a influência decisiva de Eurico Miranda. Não só no time vascaíno, mas na própria Copa João Havelange, como Juca Kfouri amargamente se lembrou: “Fez-se o ‘campeonato do Eurico Miranda’, que terminou da forma mais simbólica possível: pró-Eurico Miranda. Leva o jogo [final] para São Januário, cai o alambrado, ele manda continuar o jogo, para o jogo, depois faz o jogo um mês depois, Vasco campeão. Foi um campeonato à Eurico Miranda”.

Em 2001, a CBF já voltou a organizar o Campeonato Brasileiro. E o Clube dos 13 estava quase totalmente desmoralizado em relação ao que se pensava dele, inicialmente. Podia até estar mais forte, com mais membros… mas estava fraco em relação ao público que acompanhava futebol. Cada vez mais fraco.

O descrédito em relação a entidades formadas por clubes vitimava até agrupamentos nascentes. Por exemplo: em 2002, os clubes da Série B decidiram formar a própria entidade para cuidar do relacionamento com a CBF e das compras de direitos de transmissão. Era a Futebol Brasil Associados. A iniciativa durou menos de um ano: em 2003, com a presença de Palmeiras e Botafogo atraindo interesse incomum ao campeonato, a CBF e a TV Globo assumiram à força os papéis pensados pelos clubes, asfixiando a Futebol Brasil Associados praticamente no nascedouro.

A desunião leva ao golpe fatal

Tão frágil estava o espírito de união do Clube dos 13 que, em 2007, com o São Paulo (penta)campeão brasileiro, o clube do Morumbi fez questão de iniciar a briga pela “taça das bolinhas” com o Flamengo, parceiro no início da história da entidade, então presidido novamente por Márcio Braga: afinal, na incerteza entre quem fora o campeão brasileiro de 1987, o São Paulo preferiu se atribuir o galardão de primeiro clube a conquistar o principal torneio nacional cinco vezes, que receberia a “taça” atribuída pela Caixa Econômica Federal.

Era discutível, claro. Mas era mais um sintoma de como vários dos integrantes do C-13 andavam insatisfeitos com a entidade naqueles meados de 2007 – principalmente com o comando ininterrupto de Fábio Koff, presidente dela desde 1995. Assim, São Paulo, Botafogo, Flamengo, Cruzeiro e Atlético Mineiro chegaram a propor que um Conselho Administrativo, formado por oito clubes, participasse da entidade, auxiliando a presidência. A diretoria do C-13 se opôs, e os cinco insurgentes chegaram a ameaçar uma ruptura. Ficaram no grupo. Mas passaram a adotar postura independente.

Independente também queria ficar o Clube dos 13 – mas em relação à TV Globo, habitual compradora dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro. Assim, para a negociação dos direitos no triênio 2011/13, Fábio Koff decidiu que a diretoria deveria organizar uma licitação, a exemplo do que a Uefa organiza com seus torneios. E uma equipe capitaneada por Ataíde Gil Guerreiro, conselheiro do São Paulo, organizou um leilão, após estudos sobre o mercado. Pela primeira vez em muito tempo, não só haveria concorrência, mas os direitos seriam separados por plataformas (televisão aberta, televisão por assinatura e internet). Já distante da entidade, mas ainda acompanhando os desdobramentos, Juca Kfouri viu aquilo com simpatia: “Era, enfim, um grito de independência em relação à Globo. Não que a Globo fosse cair fora da coisa: a Globo ia comprar a coisa toda, mas ia comprar pelo valor que a coisa tinha. O Ataíde [Gil Guerreiro] não tinha dúvidas que o SBT não bancaria, que a Record não bancaria… só a Globo bancaria, mas ia fazer a Globo se coçar, de fato”.

Todos os representantes do cenário vigente se insurgiram contra aquela tentativa liderada por Fábio Koff. E na eleição de 2010 para a presidência do Clube dos 13, surgiu um candidato para rivalizar com o dirigente gremista: o empresário Kléber Leite, ex-presidente do Flamengo, vindo de larga história no marketing esportivo, dono de empresa para exploração de placas de publicidade (a Klefer) e parceiro da Traffic que era. De quebra, Leite era apoiado por Ricardo Teixeira, ainda presidente da CBF, e por Marcelo Campos Pinto, o homem do Grupo Globo para negociações de direitos.

E em 2010, o Clube dos 13 começou a rachar, na eleição entre Fábio Koff e Kléber Leite. Do lado do gaúcho, clubes como Atlético, Athletico Paranaense, São Paulo e Palmeiras. Como votantes de Kléber, estavam Corinthians, Santos e Vasco, entre outros. E na votação, em dezembro, Koff foi reeleito, após dura disputa: dos 20 filiados, 12 votaram no presidente em exercício. A licitação pelos direitos foi realizada, sem a TV Globo, que protestava – e a Rede TV triunfou.

Todas essas vitórias se revelaram sem utilidade: logo em 23 de fevereiro de 2011, o Corinthians anunciou que pediria a desfiliação do Clube dos 13, por discordância do processo liderado pela entidade. Em 25 de março, foi a vez do Botafogo se desfiliar. Logo, seguiram pela mesma porta de saída Flamengo, Fluminense, Vasco, Coritiba, Cruzeiro, Santos, Sport, Bahia… e mesmo os apoiadores de Fábio Koff acabaram sucumbindo. O Clube dos 13 se implodia. Só restou ao dirigente gaúcho lamentar o fim de sua gestão polêmica à frente da entidade, num desabafo a Juca Kfouri (com quem tivera relação turbulenta), ainda em fevereiro de 2011.

Desde então, é cada clube por si. Cenário que o Clube dos 13 até queria mudar, no começo – conforme lembrou Kfouri, “estamos falando de uma entidade de clubes que nasceu cinco anos antes da Premier League”. Mas que terminou vendo o sonho frustrado, por erros na sua concepção, pela tendência à conciliação – e principalmente, pela crônica tendência à desunião.