A contratação de Takumi Minamino amplia a representatividade do Japão na Premier League. O ponta comprado pelo Liverpool se tornou o décimo jogador do país na primeira divisão inglesa, bem como o primeiro japonês da história do Liverpool. Maya Yoshida, há sete anos no Southampton, é o recordista de partidas. Shinji Okazaki lidera em gols e certamente escreveu seu nome como o nipônico mais relevante, por sua importância no Leicester City campeão em 2015/16. Outros craques badalados, como Shinji Kagawa e Hidetoshi Nakata, tiveram passagens efêmeras. E vale lembrar o pioneiro: Junichi Inamoto, que desembarcou na Inglaterra há 18 anos.

Inamoto geralmente é lembrado por sua carreira na seleção japonesa. O meio-campista defendeu os Samurais Azuis por dez anos e disputou 82 partidas pela equipe principal. Seus melhores momentos aconteceram no início da década de 2000, sobretudo na Copa do Mundo de 2002. Com a camisa 5 do Japão, o jovem brilhou na campanha dentro do Grupo H. Anotou o segundo gol no empate por 2 a 2 contra a Bélgica e também o tento da vitória por 1 a 0 sobre a Rússia, eleito o melhor em campo nos dois jogos. Ajudou demais a classificação inédita às oitavas de final, com seus ótimos avanços ao ataque. Inamoto disputaria posteriormente os Mundiais de 2006 e 2010, já como reserva.

No entanto, seria exatamente nesta ascensão que Inamoto atraiu os olhares da Premier League. Nascido em Osaka, começou no Gamba Osaka e estreou aos 17 anos, logo se tornando titular. Emplacou cedo no clube, a ponto de ser eleito para a seleção da J-League com 20 anos. Ao mesmo tempo, foi vice-campeão mundial sub-20 com a seleção e já fez parte do elenco principal na conquista da Copa da Ásia em 2000. Por fim, realmente ganhou notoriedade na equipe que alcançou a decisão da Copa das Confederações de 2001, derrotada pela França. A poucos meses de completar 21 anos, virou aposta do Arsenal.

Os Gunners acertaram o empréstimo de Inamoto semanas depois, em julho de 2001. A relação de Arsène Wenger com o futebol japonês, aliás, seria fundamental na transferência. O antigo treinador do Nagoya Grampus trabalhou como comentarista da TV nipônica durante a Copa das Confederações e se impressionou com o nível do meio-campista. O negócio seria selado na esteira do torneio, após Inamoto também brilhar durante a realização da Copa Kirin.

“Estou ansioso para jogar, mas também um pouco nervoso. Ainda assim, estou definitivamente motivado e farei o possível para garantir um lugar no time principal. Espero ajudar o clube a vencer a Premier League. Não estou certo sobre o tipo de atmosfera que encontrarei na Inglaterra, mas quero jogar ao lado de tantos talentos. Wenger conhece bastante sobre o Japão, o que é algo positivo para mim”, declarou Inamoto na época, ao Japan Times. Mais de 100 jornalistas japoneses estiveram presentes em sua apresentação, por mais que o jovem não fosse uma estrela tão conhecida em seu país.

Wenger, por sua vez, bancava sua aposta: “Vi muito de Inamoto para saber que ele tem a habilidade para se tornar um jogador muito forte e uma realidade na Premier League. Sei que é muito difícil se mudar a um novo país. Você precisa ser mentalmente forte, mas Inamoto é um jogador que vi recentemente e me deixou impressionado. Sabia um pouco dele quando morava no Japão. Ele se desenvolveu muito bem desde então e estamos contratando um atleta de talento considerável”.

As expectativas exageradas, porém, não ajudaram Inamoto. O meio-campista precisava lidar com o grande assédio da imprensa japonesa, enquanto era apenas mais um no elenco. Não à toa, sequer entrou em campo na campanha do título da Premier League em 2001/02, embora tenha festejado com os companheiros na entrega da taça. Patrick Vieira e Ray Parlour dominavam a cabeça de área, com a alternativa de Edu Gaspar.

A estreia de Inamoto aconteceu em novembro de 2001, pela Copa da Liga, em vitória por 2 a 0 sobre o Grimsby Town. Compôs o meio-campo ao lado de Edu Gaspar. Juan, futuro lateral do Flamengo, também jogou naquela noite. O japonês começou ainda o embate contra o Blackburn, na etapa seguinte da Copa da Liga, mas saiu logo no intervalo, quando os Rovers venciam por três gols de diferença. Além do mais, teve a honra de acumular 20 minutos na Champions League, saindo do banco contra Schalke 04 e Bayer Leverkusen. E foi só.

“Minhas melhores lembranças são sobre a grandeza do clube, com tantos jogadores famosos. Considero toda a minha passagem uma experiência positiva”, relembraria Inamoto, em entrevista dada à revista do Arsenal, em 2013. “Sabia que o time possuía outros ótimos jogadores e que seria difícil jogar. Entretanto, aprendi bastante nos treinamentos, então não me senti tão frustrado. Além do mais, foi meu primeiro clube na Europa, então tudo era muito novo e isso dificultava a conquista de um lugar no time. Wenger sempre me apoiava nos treinos. Acho que ele entendia a situação, porque eu acabava de chegar na Europa e era duro para mim. Sou muito grato à forma como ele me ajudou”.

O impacto de Inamoto na Copa de 2002, no fim das contas, permitiu que ele se realocasse na Premier League. O Fulham acertou o empréstimo do meio-campista depois do Mundial. O novato teria relativo sucesso em Craven Cottage. Sua estreia na Premier League (e, por consequência, a estreia de um jogador japonês) aconteceu logo na primeira rodada de 2002/03, ao sair do banco contra o Bolton. Ganharia a posição de titular e faria dois gols em setembro, nas vitórias sobre Tottenham e Sunderland. Todavia, voltaria ao banco, em uma campanha que serviu para evitar o rebaixamento dos londrinos, com o 15° lugar.

Inamoto também faria barulho na extinta Copa Intertoto de 2002/03, ao anotar uma tripleta contra o Bologna, que valeu a classificação dos Cottagers à Copa da Uefa. Já na segunda temporada, o meio-campista até somou mais minutos na Premier League. Foram 22 aparições e dois gols em 2003/04, incluindo o tento que fechou a vitória por 3 a 1 sobre o Manchester United em Old Trafford. O Fulham fechou o campeonato numa honrosa nona colocação, a oito pontos de distância da zona de classificação à Champions League.

Para a temporada 2004/05, Inamoto arrumou as malas mais uma vez. Transferiu-se ao West Bromwich. Sem espaço de início, foi emprestado ao Cardiff em janeiro e atuou na Championship. Antes do fim da Premier League, retornou aos Baggies e ajudou o clube a evitar o rebaixamento, numa louca salvação que saiu apenas na última rodada. Por fim, em 2005/06, disputaria sua última campanha na Premier League. Revezou-se entre o banco e o time titular, com 22 aparições. Desta vez, o West Brom não escapou do descenso. O único gol com a camisa do time, curiosamente, valeu a classificação contra o Fulham na Copa da Liga. O japonês definiu a vitória por 3 a 2 na prorrogação, antes da queda nas oitavas diante do Manchester United.

Inamoto participou da Copa de 2006 como jogador do West Brom e esteve presente nas primeiras rodadas da Championship 2006/07. No entanto, arrumou as malas pouco depois, ao assinar com o Galatasaray. A partir de então, passou a se aventurar em outros cantos da Europa. Teve passagens por Eintracht Frankfurt e Rennes, antes de retornar à J-League em 2010. Passou quatro anos no Kawasaki Frontale e depois mais quatro no Consadole Sapporo. Aos 40 anos, o meio-campista permanece na ativa, vestindo a camisa do Sagamihara na terceira divisão. E sustenta uma marca que permanece na Premier League.

Outros japoneses foram contemporâneos de Inamoto em seus tempos de Inglaterra. Akinori Nishizawa chegou ao Bolton em 2001/02, mas não estreou pela Premier League, limitado à Copa da Liga. Também na mesma época, Yoshikatsu Kawaguchi fechou com o Portsmouth, que militava na Championship. O goleiro deixou o clube após a conquista do acesso. Kazuyuki Toda passou um semestre no Tottenham durante o início de 2003 e virou uma companhia a Inamoto em Londres. Por fim, sem emplacar, Nakata pendurou as chuteiras após um ano com o Bolton, em 2005/06.

Depois de um hiato, a lista de japoneses se renovou a partir da década de 2010. O Arsenal novamente se frustraria com Ryo Miyaichi, enquanto nomes mais famosos tentaram a sorte. Okazaki e Yoshida deixaram suas impressões marcadas por lá, enquanto Kagawa, bem ou mal, conseguiu ser campeão. E se Yoshinori Muto abriu as portas no Newcastle em 2018/19, Minamoto inaugura a história no Liverpool. Seguem os caminhos desbravados por Inamoto há quase duas décadas.