Zidane na seleção brasileira? Possibilidade é curiosa e até divertida, mas improvável
Carrasco do Brasil nas Copas de 1998 e 2006, Zidane está sem trabalhar desde que saiu do Real Madrid, mas possibilidade de levá-lo ao comando da seleção brasileira parece mais uma fantasia
O jornal francês L’Equipe trouxe uma informação curiosa: a CBF pensaria em Zinedine Zidane para ser o técnico da seleção brasileira. É só um rumor e não parece ter muita possibilidade de acontecer, mas não deixa de ser curioso e até divertido de imaginar o primeiro técnico estrangeiro da seleção brasileira ser justamente um algoz histórico. Para além do fato curioso, é de se imaginar: o que dirigentes veriam em Zidane como características atraentes para que ele comande a seleção brasileira? É isso que vamos tratar aqui.
O contrato de Tite com a CBF acaba no fim deste ano e ele já tinha anunciado que não permaneceria. O presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, ainda pensa em quem será o nome e a escolha passa necessariamente por um desejo do dirigente. Diferente de outros momentos, não há nomes que pintam como favoritos. O técnico mais bem-sucedido no Brasil nos últimos anos é o português Abel Ferreira, que é um dos cotados. Se especula trazer um grande nome do exterior, um técnico estrangeiro que causasse impacto. Zidane entra nesse contexto.
Carrasco do Brasil em duas Copas O Mundo, em 1998, fazendo dois gols na final, e em 2006, quando teve uma das grandes atuações individuais da história dos Mundiais na vitória por 1 a 0 nas quartas de final, Zidane está sem trabalhar desde que deixou o Real Madrid, ao final da temporada passada. Sua trajetória por lá foi vitoriosa, indiscutivelmente: foram 11 títulos em quatro anos, sendo três Champions League. O currículo é vitorioso, sem dúvida alguma. E pelo nome que é, certamente causaria muitas manchetes. Apesar disso, parece altamente improvável.
As qualidades de Zidane que podem ter chamado a atenção da CBF
Parece óbvio que uma das coisas que mais chama a atenção da CBF em relação a Zinedine Zidane é o fato de ele ser um medalhão, tarimbado, vencedor. Imediatamente reconhecido e facilmente defensável em relação aos trabalhos que fez no Real Madrid. É um nome gigante, que mostraria ambição e prestígio da seleção brasileira por conseguir seduzir o técnico. A possibilidade até pode seduzir Zidane em algum nível também, claro.
Um dos grandes trunfos de Zidane no comando do Real Madrid foi a sua capacidade de gerenciamento do grupo de estrelas do clube. Parece pouco, mas não é, já que o time precisava de uma certa organização em campo, mas também de uma boa gestão de pessoas, algo que Zidane aprendeu bem trabalhando com Carlo Ancelotti – que curiosamente, voltaria ao clube para o suceder.
Zidane não é um grande artífice da tática, mas ele encontrou boas soluções, como a entrada em definitivo de Casemiro na equipe, que passou a formar o trio clássico de meio-campo ao lado de Luka Modric e Toni Kroos. Criou compensações importantes para ter Marcelo em excelente nível no lado esquerdo da defesa, atuando como um lateral ofensivo. Quando ele não rendeu mais, acabou no banco, como na temporada passada.
Foi com Zidane também que Cristiano Ronaldo viveu grandes momentos, liberado para ser decisivo em um time que tinha Karim Benzema pronto a fazer todo o trabalho no ataque para manter o português na melhor posição para render e fazer gols. Por vezes, era Benzema que fazia as compensações na pressão e na marcação para que Cristiano tivesse pernas descansadas para brilhar.
Ao longo do seu trabalho, Zidane achou diversos ajustes finos na equipe para fazer com que os jogadores rendessem bem. Era um time sempre capaz de decidir nos momentos cruciais, algo marcante do seu time do Real Madrid nesses anos sob o seu comando. Mentalmente, era um time muito forte.
Só que houve problemas também. Zidane não conseguiu fazer o time render tão bem com Vinícius Júnior na sua segunda passagem. Deu menos minutos ao brasileiro do que ele parecia merecer, pelo que rendia, e o funcionamento do time não foi tão bem quanto vimos em outros momentos. Sem Cristiano Ronaldo, foi difícil para o Real Madrid achar um esquema tático e uma forma de atuar que realmente convencesse.
Pareceu encontrar o rendimento só no final da sua passagem, no 4-3-3 que nos acostumamos a ver o Real Madrid, por vezes até com Rodrygo e Vinícius Júnior pelos lados do campo, algo que poderemos ver na seleção brasileira em breve, seja qual for o técnico.
Ao final de duas passagens pelo Real Madrid, o que mais chamou a atenção mesmo em Zidane foi a sua capacidade de gerir bem um grupo de estrelas e fazê-los render bem, sem grandes alterações táticas ou adaptações de jogo para jogo. Em uma seleção, esse tipo de característica pode ser útil, já que há pouco tempo de treinamento.
- - ↓ Continua após o recado ↓ - -
Quais as possibilidades reais para Zidane?
A trajetória vitoriosa de Zidane o fez ganhar prestígio mundialmente. É notório que o ex-jogador sonha mesmo em dirigir a seleção francesa, sucedendo Didier Deschamps, seu ex-companheiro de seleção francesa e que levantou a taça em 1998. Só que oficialmente a Federação Francesa de Futebol se pronunciou a favor da permanência de Deschamps após a Copa de 2022, quando ele levou os Bleus à final. Se o técnico da seleção francesa continuar o mesmo, Zidane terá que procurar outro destino.
Há caminhos para ele. A Juventus, por exemplo, especula a contratação do francês, que jogou por lá de 1996 a 2001 e pelo qual se tornou ídolo. Massimiliano Allegri tem contrato longo com a Velha Senhora, até 2025, mas o desempenho não tem agradado. Longe da disputa do título na temporada passada, também não tem jogado muito bem na temporada atual. Com isso, se especula uma troca de treinadores, ainda mais com a saída do presidente do clube, Andrea Agnelli, sob intensa pressão por um escândalo financeiro.
Sem ser a Juventus, não há muitos lugares onde Zidane pode encontrar lugar a curto prazo. Os clubes de ponta no mundo estão com os lugares ocupados. Zidane pode ser inclusive o sucessor de Carlo Ancelotti em algum momento, quando o treinador italiano deixar o clube – ele tem contrato até 2024. Parece uma chance maior do que esperar outro clube de ponta abrir espaço.
Isso se ele não quiser, por exemplo, voltar à França para dirigir o Olympique de Marseille, clube do coração e da cidade onde nasceu, mas onde nunca atuou como jogador. O time, porém, tem um treinador com contrato e fica no mínimo até o final da temporada. Voltar à França, aliás, seria algo que poderia atrair interesse de vários clubes, mas nenhum deles parece forte o bastante para seduzir o treinador a se aventurar por lá.
A seleção brasileira seria um posto de técnico de seleção, como Zidane queria, mas não da França, onde ele gostaria de trabalhar. Zidane nunca quis se arriscar muito em termos de carreira, nem como jogador, nem como técnico. Como jogador, ficou três anos no Caen, foi para o Bordeaux, onde ficou quatro anos, e de lá para a Juventus, onde permaneceu por cinco temporadas.
Sua última parada foi o Real Madrid, já como estrela mundial, e ficou por cinco anos, até 2006, quando pendurou as chuteiras. Nunca quis jogar em ligas alternativas, que pagam muito, como Oriente Médio ou Estados Unidos.
Como técnico, só dirigiu o time B do Real Madrid, o Castilla, e nunca aceitou propostas além do próprio Real Madrid, embora tenha sido especulado em diversos clubes. Foi treinador do Real Madrid de janeiro de 2016 a maio de 2018 e depois de março de 2019 a junho de 2021. Zidane pareceu ter a expectativa de treinar a seleção francesa já em 2018, mas o título conquistado por Deschamps o fez permanecer. Assim, ele voltou ao Real Madrid quase um ano depois de sair.
Por isso, é difícil imaginar que desta vez Zidane aceitaria uma proposta de fora da sua zona de conforto. Ainda que, claro, a seleção brasileira seja tentadora para qualquer um, é menos quando se trata de um trabalho que exige uma mudança significativa de vida e de trabalho. Zidane não parece ser alguém que mudaria a sua vida para treinar o Brasil, ainda que possa haver um ponto de curiosidade. O foco parece ser a seleção francesa e, sem ela, é provável que Zidane fique à espera da oportunidade certa. Parece difícil imaginar que, para ele, esta seja a seleção brasileira.



