Brasil

‘Brasileiro de m…’: imaginem se o Abel Ferreira resolvesse xingar um dirigente de um clube da maneira como é xingado

Técnico do Palmeiras é alvo constante de xingamentos envolvendo sua nacionalidade e jamais retrucou na mesma moeda

Imaginem a cena: Abel Ferreira, possesso com a arbitragem, grita, em meio a um tumulto no saguão do Allianz Parque, que o árbitro de um Choque-Rei qualquer é um “brasileiro de merda”.

Ou visualizem o Palmeiras eliminado da Copa do Brasil, com um gol irregular de Calleri, numa jogada que começa com um impedimento que o VAR não vê. E Abel, possesso, grita: “Isso é por influência do presidente Julio Casares, aquele brasileiro de merda”.

Seriam cenas chocantes. Como deveria ser chocante que, em um intervalo de menos de dez dias, figuras proeminentes na política do Corinthians e do São Paulo tenham buscado ofender o técnico Abel Ferreira, do Palmeiras, usando sua nacionalidade como trampolim. Sem qualquer cerimônia.

Não faz dez dias, que o ex-presidente do Corinthians, Mario Gobbi, deu declarações do tipo a um podcast. Como acessório às palavras ofensivas, estava lá, a referência à nacionalidade do técnico:

— Aí vem um português aqui e manda no árbitro, agride o jogador do São Paulo, ofende o árbitro, caga na cabeça da Federação e da CBF. E todo mundo baba ovo para ele. Ele é competente, mas calma, aqui tem uma cultura, tem futebol. Os outros técnicos estão começando a bater nos árbitros também. Se o ‘senhor' Abel pode fazer isso, os outros também podem.

“Um português” não pode vir aqui e mandar no árbitro, reclamar da Federação e da CBF, crê Mario Gobbi. Dos brasileiros que aqui estão há mais de um século fazendo o mesmo, o delegado aposentado nunca achou por bem falar algo.

Gobbi foi infeliz, mas Carlos Belmonte foi além. Em uma discussão com o árbitro Matheus Candançan, que apitou o Choque-Rei do domingo (3), o diretor de futebol do São Paulo achou de bom-tom dizer que o técnico do Palmeiras era um “português de merda”.

Não é um técnico de merda ou um profissional de merda. Mas um “português de merda”. Nos dois casos, a ideia era usar a nacionalidade como uma forma de diminuir Abel. Assim como outros treinadores já fizeram, como Jorginho. Bem como jornalistas. Sempre citando o fato de ele ser português.

Xenofobia é crime previsto no Código Penal Brasileiro

A xenofobia, que é um crime previsto no Código Penal Brasileiro, é definida, pelo ódio, receio ou preconceito em relação ao que é estrangeiro ou visto como estrangeiro. Talvez “português de merda” seja um dos exemplos mais bem acabados de uma declaração xenofóbica.

Ao longo do tempo que está por aqui, Abel nunca fez críticas ao Brasil. Critica a arbitragem, mas não se limita a criticar a brasileira. Uma breve pesquisa no Google mostra que ele fazia o mesmo em Portugal e na Grécia.

Abel critica o calendário, mas porque é parte diretamente afetada. Quando fala do calendário brasileiro, está falando de seu próprio calendário, já que vive e trabalha em função dele. Vale o mesmo quanto aos gramados, inclusive o do próprio Palmeiras, o mais criticado por ele dentre todos.

E mesmo quando fala que os jovens jogadores brasileiros precisam receber uma melhor educação, Abel não está criticando o país, mas dizendo o que pensa do local em que vive há mais de três anos, como contribuinte e residente.

Cultura do futebol paulista é calcada no ódio, mas nunca como está sendo contra Abel

Abel Ferreira teve a sorte de vir trabalhar no clube mais bem organizado do Brasil. E, aproveitando-se da estrutura que lhe foi oferecida, ajudou com que ele se firmasse como o mais vencedor da última década.

Mas é também estar no Palmeiras, sua maior vulnerabilidade. No recorte histórico, ele já atrairia inveja e raiva pelas conquistas. Mas, no automático, atraiu também o ódio das três maiores torcidas do Brasil.

Já seria arquirrival de Corinthians e São Paulo pelo contexto histórico. E ainda conquistou a rivalidade do Flamengo, com quem briga pelos maiores títulos nacionais, ano após ano.

A cultura do futebol brasileiro, em especial a paulista, é muito calcada no ódio. Mas nunca se viu um Vanderlei Luxemburgo, Felipão ou Mano Menezes xingado pessoalmente como Abel é. Mas nunca houve também uma hegemonia tão grande. Ainda mais de um estrangeiro.

Enquanto não houver uma punição severa a uma atitude como a de Belmonte, Abel continuará sendo alvo de ataques frustrados e xenófobos. Já que a cor da sua camisa, certamente não irá mudar.

Foto de Diego Iwata Lima

Diego Iwata Lima

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, Diego cursou também psicologia, além de extensões em cinema, economia e marketing. Iniciou sua carreira na Gazeta Mercantil, em 2000, depois passou a comandar parte do departamento de comunicação da Warner Bros, no Brasil, em 2003. Passou por Diário de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ESPN, UOL e agências de comunicação. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e 2018, além do Super Bowl 50. Está na Trivela desde 2023.
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