Brasil

Ataques de Mário Gobbi a Abel Ferreira refletem dois aspectos: xenofobia gritante e indisfarçável inveja

Declarações do ex-presidente do Corinthians sobre o técnico do Palmeiras transbordam sentimentos e carecem de lucidez

Antes de mais nada: quando fala sobre ou disputa futebol, no banco de reservas, Abel Ferreira é sim, muitas vezes, um cara chato, que já passou inúmeras vezes do ponto. Não há como se negar o óbvio. Por conta de seu alto nível de exigência, perfeccionismo e competitividade, o técnico do Palmeiras é, frequentemente, complicado de se engolir.

Aturá-lo, diga-se, é tão ou mais difícil do que vencê-lo. Em 263 partidas no comando do Palmeiras, a comissão técnica liderada pelo português obteve 151 vitórias, 65 empates e 47 derrotas. Do montante de partidas disputadas, 12 foram contra o Corinthians, das quais o Alviverde ganhou seis e empatou outras cinco.

Isso posto, as falas de Mario Gobbi, ex-presidente do Corinthians, ao podcast “Tomando Uma Com…”, chegam a ser engraçadas, de tão obviamente carregadas de uma inveja latente. Além disso, os trechos que se espalharam pelas redes sociais nos últimos dias são patéticos por, mais uma vez, trazerem um patriotismo canhestro e a xenofobia para o centro da discussão.

Mais do que isso até, dão a entender que Abel Ferreira foi quem trouxe para o futebol brasileiro a cultura de reclamação com os árbtitros. Que foi ele o primeiro a criticar o esdrúxulo calendário do futebol nacional e a cultural falta de organização sistêmica das confederações e federações locais. E, o pior de tudo, que ele não pode reclamar, pelo fato de ser um estrangeiro.

— Aí vem um português aqui e manda no árbitro, agride o jogador do São Paulo, ofende o árbitro, caga na cabeça da Federação e da CBF. E todo mundo baba ovo para ele. Ele é competente, mas calma, aqui tem uma cultura, tem futebol. Os outros técnicos estão começando a bater nos árbitros também. Se o ‘senhor' Abel pode fazer isso, os outros também podem – foi um pouco do que disse o ex-dirigente alvinegro.

Afirmações falsas

O primeiro ponto é que a afirmação é falsa. Técnico mais querido por Gobbi, Mano Menezes já batia de frente com a arbitragem em meados dos anos 2000. Vanderlei Luxemburgo, num espetacular áudio vazado na final do Paulista de 1993, disse a Oscar Roberto de Godói, bandeira do jogo, “você é são-paulino e quer me f…”.

Antônio Lopes, o ex-técnico e delegado aposentado como Gobbi, chegou a dar voz de prisão para um árbitro que o irritou, também três décadas atrás. Emerson Leão, no Atlético-MG, ao ser eliminado pelo Palmeiras, no Campeonato Brasileiro de 1997, disse que a derrota era “esquema do Palmeiras, estou cansado de saber, eu sou de São Paulo”. São só alguns exemplos.

Fernando Diniz tem desafios para acertar o Fluminense antes da final da Libertadores - Foto: Icon sport
Agenda de Diniz pelo Fluminense impacta na Seleção – Foto: Icon sport

Em 2023, o treinador de Série A mais vezes expulso no Brasil foi Fernando Diniz, do Fluminense. Recorde batido em setembro, pouco antes de o treinador, inclusive, ser apontado para a seleção brasileira. Na cabeça de Gobbi, deve ter sido por causa de Abel Ferreira, que Diniz foi tantas vezes expulso. Não fosse o português, Diniz jamais bateria boca com arbitragem.

Como se Felipão, por exemplo, coincidentemente técnico de Portugal, não tivesse apontado o dedo na cara de Van Basten, na semifinal da Euro de 2006. Ou não tivesse dado com a bola no ombro de Válber, na final do Brasileiro de 1997, quando dirigia o Palmeiras. De certo, foi também Abel quem encorajou o pentacampeão a chamar Wilton Pereira Sampaio de safado, no ano passsado, e ser expulso em sua estreia pelo Galo, no Mineirão.

Leviandade

Como era esperado, o Palmeiras saiu em defesa de Abel Ferreira e repudiou as declarações, que classificou como levianas. Em comunicado, o clube afirmou que o técnico nunca agrediu qualquer outro profissional e sempre se empenhou em contribuir com o futebol brasileiro, valorizando as virtudes e propondo as melhorias indispensáveis para o crescimento da modalidade.

Em que pese o destempero de Abel em algumas entrevistas coletivas e os condenáveis episódios de bate-boca com Liziero, em 2021, e Calleri, no ano passado, não se trataram de agressões.

Mas há feitos de Abel Ferreira que poucos técnicos conseguiram, quaisquer que sejam suas nacionalidades, de fato. Por exemplo, ganhar duas Copas Libertadores e fazer outras duas semifinais em quatro anos de disputa. Conquistar um bicampeonato brasileiro e terninar outras duas no G4, também em quatro edições jogadas. Conquistar dois Paulistas e ser finalista de um outro, em três edições disputadas.

Todos esses feitos, porém, foram obtidos com Abel vestindo verde e branco. Talvez, isso tenha um pouco a ver com as falas de Mario Gobbi. Talvez.

Foto de Diego Iwata Lima

Diego Iwata Lima

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, Diego cursou também psicologia, além de extensões em cinema, economia e marketing. Iniciou sua carreira na Gazeta Mercantil, em 2000, depois passou a comandar parte do departamento de comunicação da Warner Bros, no Brasil, em 2003. Passou por Diário de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ESPN, UOL e agências de comunicação. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e 2018, além do Super Bowl 50. Está na Trivela desde 2023.
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