Brasil

Caçula Vanderson chega na humildade para ser presente e futuro da Seleção e jogar Copa

Vanderson é lateral-direito do Monaco e o mais novo da lista de Diniz, sonhando com a titularidade na Copa de 2026 em posição carente

Vanderson desembarcou em Belém na calada da noite da última segunda-feira (4) com o status de caçula da Seleção Brasileira para a estreia de Fernando Diniz, na próxima sexta-feira (8), às 21h30 (horário de Brasília), no Mangueirão, contra a Bolívia pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2026. São 22 anos de idade recém-feitos. E mesmo assim, o lateral-direito do Monaco acompanhou o anúncio da convocação com uma expectativa que beirava a certeza de que estaria na lista de convocados.

Um sentimento que é até natural para quem hoje brilha como titular absoluto do atual líder do Campeonato Francês e tem seu nome na lista de desejos de Manchester United e Barcelona. Na mira de gigantes, Vanderson se acostumou a conviver também com a expectativa de ser o futuro – e quem sabe o presente – da lateral direita da Seleção. Ele foi convocado pela primeira vez pelo interino Ramon Menezes, e agora inicia o ciclo para o próximo mundial em alta.

“Minha experiência está começando agora em Seleção. É fazer meu trabalho bem feito no clube, e o resto é consequência. É aprender ao máximo aqui e não deixar que essa pressão de estar na Copa do Mundo atrapalhar meu trabalho aqui. É focar aqui e quando a oportunidade aparecer, estar preparado. Não deixar isso criar uma pressão sobre mim mesmo. É deixar ir naturalmente, e sei que o melhor vai ser para mim, para a Seleção e para o clube” (Vanderson)

O caçula da seleção brasileira conversou com a Trivela em entrevista exclusiva dias antes de se apresentar em Belém. O título de jogador mais novo, aliás, é por pouco. Vanderson é apenas cinco dias mais novo do que André. O lateral nasceu no dia 21 de junho, enquanto o volante faz aniversário no dia 16.

Em cerca de 20 minutos de conversa, Vanderson falou muito sobre o que se espera dele, mas também sobre o que já construiu na carreira. A evolução desde que deixou o Grêmio para atuar no Monaco, o aprendizado com os “professores” Rafinha e Danilo e como ele pode ajudar a Seleção de Diniz. Tudo para estar na Copa de 2026.

> Confira a entrevista com Vanderson:

Trivela: Você convocado pelo Ramon e foi pego de surpresa. Essa convocação, você acompanhou, imagino.

Vanderson: Essa eu acompanhei, já sabia a data certa. Já sabia o horário. Já estava ligado na TV. Essa deu para acompanhar desde o início. Estava esperando. Tenso, nervoso. Aí dá aquele alívio. A gente fica muito emocionado por ver o nome. A outra eu nao acompanhei. Essa foi a primeira. Foi muito especial.

Deu tempo de ter alguma conversa com o Diniz?

Ainda não cheguei a falar com ele. Acredito que na apresentação e no dia de treinamentos, a gente deve trocar ideias ali, mas ainda não conversei. Mas acompanhando o futebol brasileiro, o Diniz de muito tempo, a gente conhece o trabalho dele, o perfil dele. A gente que acompanha o futebol brasileiro, a gente entende as ideias táticas e o que quer colocar em jogo.

Então você já sabe o que ele pede para a posição?

Sim. Até por jogar algumas vezes contar ele no Brasil. E também por acompanhar o futebol da o Brasil aqui da Europa, e o Fluminense em especial, um futebol bonito de se ver jogar. A gente já conhece as ideias no novo treinador.

Você foi convocado pelo interino e agora pelo atual treinador. Quer dizer que o trabalho tem sido bem feito, né?

Acredito que é consequência de um trabalho bem feito. Estou indo na minha segunda oportunidade. Antes com o Ramon, que aprendi muito. COnversamos bastante. E agora com o novo treinador, que é o Diniz. Acredito que o trabalho vem sendo bem feito, e a última convocação também fui muito bem nos treinamentos. Isso deu frutos, e eu recebo hoje a segunda oportunidade.

No Grêmio você tinha o Rafinha como companheiro. Na seleção, você tinha a companhia do Danilo. Você procura encostar nesses caras mais experientes para evoluir na posição?

Muito. Quando joguei com o Rafinha no Grêmio foi a mesma forma. Sempre buscando aprender, buscando experiências. Dispensam comentários. São jogadores com 10, 15 anos de carreira. A gente tem que ouvir, quem tá começando. Eu sou um cara mente aberta para todos os ensinamentos. Como foi com o Rafinha, tem sido com os jogadores que passaram. E agora novamente na Seleção tem uma referência que é o Danilo, um cara muito inteligente, que dispensa comentários pelo seu futebol. Não é à toa que está há muito tempo em alto nível na Europa. Temos que absorver ao máximo o aprendizado que esses caras têm. E aprender para a gente crescer numa carreira de sucesso como a deles.

Você começa o ciclo da Copa de 2026 sendo convocado, jogador com idade olímpica… É um grande indício de que pode estar na lista em 2026, não?

Espero. Esse é um dos meus objetivos pessoais. É um sonho que pode ser realizado e muito feliz por estar iniciando esse ciclo. É a primeira convocação nas Eliminatórias para a próxima Copa. É muito orgulho. Espero que possa estar lá representando o Brasil da melhor forma possível.

Isso pode ser visto de duas formas: uma é que você está com moral, e a outra é que aumenta a responsabilidade para o que vem pela frente. Como você lida com essa expectativa e responsabilidade toda?

Todo mundo tem essa expectativa. Porque muito se fala que a Seleção após Daniel Alves, Cafu, Maicon e Danilo não teve grandes laterais. Então a gente tem que lidar com isso também. Eu sou novo, tenho muito a aprender. Ainda tem três anos para a Copa do Mundo. Minha experiência está começando agora em Seleção. É fazer meu trabalho bem feito no clube, e o resto é consequência. É aprender ao máximo aqui e não deixar que essa pressão de estar na Copa do Mundo atrapalhar meu trabalho aqui. É focar aqui e quando a oportunidade aparecer, estar preparado.

Desde a aposentadoria do Cafu, a Seleção teve Maicon, Daniel Alves, Danilo. Não teve um cara como o Cafu, que assumiu e ficou quase 20 anos na posição. Você acha que consegue ter uma longevidade assim como titular?

A gente não sabe. Eu procuro, é um objetivo. Estar representando sempre o Brasil. Representar a Seleção é um sonho, uma grande realização. Se chegar a ter uma carreira na Seleção como foi essa grande referência que é o Cafu, é excelente. É não deixar isso criar uma pressão sobre mim mesmo. É deixar ir naturalmente, e sei que o melhor vai ser para mim, para a Seleção e para o clube. Estando bem aqui, sei que vou representar a Seleção muito bem.

Além de você, Caio Henrique, seu companheiro de Monaco, também foi convocado. Para ele, você é o veterano na Seleção… Vocês conversaram sobre isso, já preparou ele para o trote?

Eu já estou indo na segunda vez. É a primeira dele, mas ele já teve experiências na olímpica, então já conhece os atletas. Conhece algumas pessoas do staff também. É um ajudando ao outro. Já trocamos ideia de apresentar ali. Mas eu também sou novo, é minha segunda. Estou me adaptando, mas com ele, já tem um diálogo a mais para ir um ajudando ao outro.

Caio Henrique e Vanderson transportam laterais da Seleção para Monte Carlo (Foto: Iconsport)

Agora, tem uma galera mais experiente… Neymar, Casemiro, Marquinhos.. Tem que chegar “devagarinho”…

Claro. Não só ali. Todo ambiente assim, tem que ir com pezinho no chão, representando a hierarquia. São grandes jogadores, que estão ali há bastante tempo. Tem que chegar querendo mostrar o trabalho, mas também respeitando quem está lá.

Aliás, as laterais da Seleção tiveram Turim como “capital” durante muito tempo. Agora, essa capital migrou para Monte Carlo, né?

Estamos juntos. Essa convocação, fiquei feliz por ele (Caio Henrique). Um cara que vinha há bastante tempo fazendo um trabalho incrível. Todo mundo que acompanha sabe. Estou feliz por ele. E espero que nosso nome esteja sempre ali para ajudar a Seleção e ter o nome do nosso clube representando também a Seleção.

Falando sobre posicionamento. Você já foi extrema, tem atuado mais como ala, porque o Monaco joga com uma linha de três zagueiros. Muda muito para você se adaptar a um esquema com uma linha de quatro na defesa?

Sim. A gente tem que se adaptar a tudo. Cheguei, já fui extrema, joguei na linha de quatro, agora estamos na linha de cinco, com dois alas. E conhecendo o perfil do Diniz, é a linha de quatro. Mas já conheço, sei jogar assim. A gente tem que se adaptar ao que for passado e pedido.

Desde seus tempos de Grêmio, você era um lateral quase imparável quando partia para cima dos adversários. Mas lá atrás você tinha uma deficiência na marcação… Deu para trabalhar bastante esse quesito nesses anos de Europa?

Eu cheguei recentemente à Europa. Tenho que aprender muitas coisas, e a marcação é uma delas. Desde a minha chegada, eu falei com o estafe, todos os treinadores que passaram, me ajudaram muito nesse quesito, que é uma deficiência entre aspas no meu jogo. Que eu venho melhorando cada vez mais. Última temporada mostrou isso, tive bastantes desarmes, roubadas de bola. Isso vem evoluindo muito. Aqui no futebol europeu tem mais tempo de trabalho, mais paciência com os jovens. Venho aprendendo para evoluir. Sou jovem. Tenho muito a aprender, e irei aprender muito mais com o tempo.

Vanderson estreou pela Seleção em amistoso contra Guiné Bissau (Joilson Marconne / CBF)

Você sente que na Europa se tem mais paciência com os jovens, mesmo?

Eu acho que são duas coisas. Tempo de trabalho também. No Brasil se joga de três em três dias, não tem tempo de treinar, fazer o básico. Tem que mostrar o resultado ali para no final de semana e no meio da semana, ter que ir novamente. Às vezes, não se tem muito tempo de trabalho. De fazer um trabalho com linha de quatro, posicionamento. E eu jovem, também não tinha totalmente. Não estava pronto defensivamente. Aì, se tinha um pouco de dificuldade. Agora, se adaptando ao clube, ao futebol, a gente vai aprendendo muito, muito mais.

Você logo no segundo ano de Grêmio, é um ano de rebaixamento. Você com 19 para 20 anos… Lidar com esse tipo de pressão tão cedo na carreira, está pronto para tudo, né?

Sempre falo. Foi um grande aprendizado para a minha carreira, querendo ou não. A gente não queria que acontecesse aquilo, uma tragédia naquele ano ser rebaixado. No mesmo ano, estávamos na final da Copa do Brasil, eu iniciando minha trajetória. Quatro jogos como profissional, estava na final da Copa do Brasil, e o ano termina daquela forma. Eu criei uma casca, querendo ou não. É triste falar até hoje sobre aquele ano. Tinha um grupo muito bom, grupo de muito trabalho. Infelizmente, não saiu da forma que a gente queria. A gente acaba criando uma casca e aprendendo também.

Em 2019, você foi sparring da Seleção. Olhando no Instagram, você tem fotos tietando os caras que são seus companheiros. Você chega a pensar nisso?

Lembro como hoje. Estava em Eldorado treinando e recebemos informação de que a Seleção precisava de atletas para o treinamento na Copa América. E aí, eu estava no meio. Ver os caras ali, é uma sensação muito boa de estar com grandes jogadores. Hoje, a gente está do lado deles ali, dividindo o ambiente. Sabendo que você é um dos 23 selecionados, é motivo de muito orgulho, de felicidade para toda a família. É a realização de um sonho.

Na última janela se falou de Manchester United, Barcelona. O que teve de concreto disso?

Agora, concreto não tem nada. A gente está começando bem a temporada com o Monaco. Vamos atrás dos nossos objetivos. De concreto é isso. Começamos bem a temporada, somos líderes. É continuar esse trabalho, que sei que será muito vitorioso no final da temporada. Agora, com essa oportunidade na Seleção, é foco no Monaco. É isso.

Agora, quando fala de Vanderson, se fala em Manchester e Barcelona… Como fica isso para você?

É bacana. Saber que mesmo que não seja nada definitivo, saber que o trabalho é reconhecido, mesmo que não seja assim tão oficial, mas é bacana. Os maiores clubes do mundo, todo mundo sabe. É muito bom saber que seu nome é mencionado em grandes clubes.

Um cara jovem, de velocidade, drible… Por estas características, você tem o perfil que os clubes da Premier League gostam. É um sonho para você?

Sim. É uma grande liga. Todo mundo sabe. Eu tenho objetivos de talvez depois de uma grande carreira aqui no Monaco mudar também. Mas hoje é defendendo as cores do Monaco. Não tem muito o que falar. Temos objetivos pessoais para ser alcançados na Europa. É deixar acontecer. Trabalhar e logo logo pode acontecer aquilo que sonhou. Mas hoje, são as cores do Monaco.

Foto de Eduardo Deconto

Eduardo Deconto

Eduardo Deconto nasceu em Porto Alegre (RS) e se formou em Jornalismo na PUCRS. Antes de escrever para a Trivela, passou por ge.globo e RBS TV.
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