Brasil

Valdivia, um dilema alviverde

No momento, Valdivia é um problema para o Palmeiras. Nada a ver com a mini-polêmica com Vanderlei Luxemburgo após a partida contra o Flamengo. A questão é que o clube não sabe o que fazer com ele. Em campo, ele varia momentos de condutor do time – como foi neste domingo contra o Ipatinga – e outros de grande ausência espiritual – como vinha sendo no Brasileirão até semana passada. Fora de campo, gerenciar a presença ou não do chileno no elenco é um dilema com o qual os palmeirenses não têm sabido lidar.

O primeiro ponto é saber o que representa Valdivia. O chileno é um bom jogador. Tem habilidade, se movimenta com velocidade, se dispõe a combater no meio-campo, sabe irritar os adversários e se aproxima bem do ataque, ainda que a finalização não seja seu forte. Considerando que o meio-campo palmeirense tem um Diego Souza cada vez mais apagado, o ex-colocolino se torna a única válvula de escape para o setor de armação alviverde.

Por isso, o meia é tão importante para o desempenho geral do Palmeiras. Nesta semana, o gol contra o Flamengo saiu justamente em um momento de brilho do chileno, que teve visão de jogo para encontrar Sandro Silva avançando nas costas de Juan para colocar o volante na cara de Bruno. Dias depois, ele fez os dois gols alviverdes contra o Ipatinga. No primeiro, iniciou a jogada, tocou para Elder Granja e foi ao ataque para aproveitar o cruzamento. No segundo, finalizou de fora da área depois de jogada individual.

Quando Valdivia não está bem, o Palmeiras sente demais. Torna-se um time sem imaginação, que se arrasta em campo. As jogadas são prolixas, com muito preâmbulo e pouca objetividade (um símbolo disso é que o substituto imediato do chileno é Denílson). A dependência recai para uma particular inspiração de Alex Mineiro ou Kleber, isso quando esse último não está suspenso.

A influência do chileno no desempenho geral alviverde poderia ser um sinal inequívoco de como ele é necessário ao clube do Parque Antarctica. Mas não é bem assim. Valdivia é um bom jogador, mas apenas isso. Ele tem dificuldade de lidar com marcação forte, perde a cabeça mais que o desejável e não tem boas atuações com constância. A dependência do Palmeiras em seu futebol é mais um sinal de fragilidade do elenco palmeirense do que de grande qualidade do jogador.

Até por isso, o meia ainda não teve grandes propostas de clubes europeus. Para muitos, não se trata de um craque de nível internacional. Tanto que, quando esteve na Europa, defendendo Rayo Vallecano e Servette, o chileno não se destacou. A melhor oferta recebida pelo Palmeiras foi do Hertha Berlim, de € 6 milhões por 60% do vínculo do jogador.

A proposta dos berlinenses é ótima, até porque alguém pode perceber que o estilo de Valdivia é exatamente o oposto do que se pratica em países como Alemanha, Inglaterra e Itália – ele tem características mais adequadas para Espanha ou França. Mesmo assim, o Palmeiras reluta em vender o meia. Não que queira ficar com o chileno. É que a diretoria alviverde acha que pode conseguir mais por ele, e qualquer milhão a mais é fundamental para um clube que tem dificuldade para arcar com seus compromissos financeiros.

Ou seja, Valdivia é um grande pepino para os palmeirenses. Ele não resolve os problemas como os torcedores gostariam, mas o time foi mal planejado e acabou dependendo de um jogador instável. Vendê-lo pode ajudar no caixa e a não ter mais de pensar no chileno. No entanto, isso obriga o clube a reconhecer que precisa negociar um jogador importante, mas até agora não se mexeu para buscar um substituto. Ou alguém acha que dá para conquistar o Campeonato Brasileiro com Denílson, Lenny, Maicosuel ou Léo Lima como referência na armação?

Números x desconfiança

O Grêmio é líder isolado, apresentando uma série de oito partidas sem derrota, o melhor ataque (ao lado de São Paulo e Vasco), a melhor defesa, a maior goleada e a melhor campanha como visitante. Os números são mais que consistentes e explicam o porquê de o clube da Azenha estar próximo do título simbólico de campeão do primeiro turno do Brasileirão. Ainda assim, muitos olham para os tricolores com alguma desconfiança.

Não é difícil entender o motivo de haver restrições à condição de favorito ao título dos gremistas. Celso Roth não é um técnico dos mais carismáticos e já teve outros trabalhos em que o início foi muito bom, mas faltou fôlego no final do campeonato (o Palmeiras de 2001 é o maior exemplo). Além disso, o Tricolor gaúcho tem um elenco sem tantas opções no banco e falta algum jogador que possa carregar a equipe em dias poucos inspirados.

Tudo isso é verdade, mas é preciso ver o Grêmio jogar para perceber que, desconfianças à parte, o time de Roth tem praticado um futebol muito competitivo. Rever, Pereira e Léo formam um trio defensivo dos mais competentes, que permitem que os volantes Rafael Carioca e William Magrão apóiem o ataque com relativa liberdade. Foi em um desses avanços, aliás, que William Magrão abriu o marcador contra o Vitória neste domingo.

Com Tcheco de referência na armação e Perea se movimentando bastante, os gremistas contam com muita consistência pelo meio. Como Anderson Pico e Paulo Sérgio são laterais/alas mais eficientes na marcação do que no ataque, o time centraliza as jogadas, mas aparece sempre com uma quantidade de jogadores suficientes para ter força.

Talvez não seja um time poderoso o suficiente para ser considerado favorito em um campeonato em que o São Paulo ameaça decolar, o Cruzeiro pinta com jovens promissores, o Palmeiras tem parceiro forte e o Flamengo investiu pesado. Mesmo assim, é inegável que, até agora, o Grêmio foi mais sólido que todos os concorrentes. Os números comprovam e deixam claro que, no mínimo, o Tricolor gaúcho merece ser levado em consideração.

Meio bloqueado

O Corinthians tem tudo para ser campeão da Série B com os pés nas costas. E tropeçar em algumas partidas é mais do que normal, até porque o time corintiano, por melhor que seja na comparação com os concorrentes, não é infalível. Ainda assim, não dá para encarar como se fosse algo ocasional o fato de só ter vencido um dos últimos cinco jogos (sendo que, nos últimos dois em casa, perdeu um e empatou o outro).

O Alvinegro nitidamente passa por uma oscilação. E parte disso se deve a uma mudança no sistema de jogo. Em seu melhor momento no ano, no início da Série B com reta final de Copa do Brasil, o time ganhou solidez em um 4-2-3-1. No sistema, Fabinho e Eduardo Ramos ficavam como volantes, dando proteção a um trio de armação: Dentinho pela esquerda, Lulinha pela direita e Douglas (ou Diogo Rincón) distribuindo o jogo pelo meio. Na frente, Herrera era a referência.

Com esse esquema, Lulinha e Dentinho no setor de criação, mas tinham liberdade para abrir o jogo e tabelar com os laterais até levar a bola à linha de fundo. Isso obrigava a defesa adversária a se espalhar de lateral a lateral do campo, dando um pouco mais de espaço para Herrera brigar por espaço na área.

Nas últimas partidas, Mano Menezes mudou o modo de montar a equipe. Dentinho se tornou segundo atacante, enquanto que Lulinha e Elias se tornaram alas em um meio-campo em diamante. Não vem funcionando, sobretudo porque matou as jogadas pelas laterais.

Na direita, Elias não tem como característica cair pela ponta e mata as jogadas, porque o lateral que fica a seu lado, Carlos Alberto, é volante de origem e tem muito mais familiaridade com a marcação do que com o apoio. Pela esquerda, Lulinha está muito distante da linha de fundo e, como se vê obrigado a marcar, fica mais preso (e com menos condição de chegar à ponta). Para piorar, o lateral-esquerdo é André Santos, cujo futebol caiu muito desde que começaram as especulações de negociação com algum clube europeu.

Com isso, todas as jogadas corintianas acabam passando pelos pés de Douglas, que fica sobrecarregado (leia-se: mais marcável) e sem ter alguém ao lado para abrir pelos flancos. O jogo alvinegro, por conseqüência lógica, se concentra pelo meio, facilitando demais o trabalho da defesa adversária. Bahia e Criciúma mostraram isso: congestionando o meio, o Corinthians não sabe o que fazer. Os meio-campistas trocam passes na intermediária, mas não há penetração. Enquanto isso, Dentinho e Herrera ficam perdidos no meio de tantos zagueiros.

Como é muito superior tecnicamente, é provável que o Corinthians acabe encontrando uma solução para esse problema e volte a se impor na Segundona. No entanto, a dificuldade para se adaptar a uma pequena mudança tática já mostra como o time tem limitações.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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