Brasil

Vaivém

Dois dias depois de conquistar o tricampeonato brasileiro, Muricy Ramalho convocou uma entrevista coletiva. Nela, o técnico foi bastante explícito: “A Libertadores está engasgada na minha garganta. É preciso acabar com a enganação: para vencê-la, é preciso priorizar”. O técnico são-paulino pode ser acusado de muita coisa, mas não de ser mentiroso. De fato, ele tentou priorizar a competição internacional, a ponto de escalar time misto até no clássico contra o Corinthians na primeira fase. Mas até o treinador foi engolido.

Para um clube que se vende como um modelo de organização, as constantes mudanças de posição do São Paulo nas últimas semanas não podem ser ignoradas. Depois de o time B perder um jogo despretensioso contra o Mogi-Mirim, a diretoria tricolor deu uma freada na política de escalação de reservas. Já dava para colocar em dúvida a validade de tal estratégia, mas ficou pior na última semana.

A vitória sobre o Defensor Sporting na última quinta assegurou a classificação para as oitavas-de-final da Libertadores. Muricy tentou se manter fiel à declaração de dezembro e disse que, mesmo com a vaga entre os 16 melhores já garantida, o São Paulo jogaria com força máxima contra o Independiente Medellín na Colômbia. Tudo para fazer mais pontos e ter um mata-mata teoricamente mais fácil.

Bastou perder para o Corinthians para o discurso mudar. E nem demorou. Na entrevista coletiva no Pacaembu, os são-paulinos já falaram em “poupar”, “conversar com os jogadores para ver quem está desgastado” e outras expressões que deixam claro que, nesta semana, o compromisso mais importante é o jogo de volta da semifinal do Paulistão, não a Libertadores. A rivalidade e o receio de ser eliminado pelo rival superaram momentaneamente a tal “prioridade”.

Esse vaivém de estratégia é danoso à comissão técnica e ao elenco. Ainda que o São Paulo permaneça vivo na Libertadores e tenha condições de conquistar o título (aliás, continua sendo um dos favoritos), fica mais difícil a diretoria convencer os jogadores de que perder no estadual é permitido. Além disso, dá para desconfiar que esse excesso de jogos possa estar ligado às contusões musculares de Zé Luís e Arouca.

Para “consumo externo”, o discurso de “todo jogo é importante” é politicamente adequado. Mas, internamente, o São Paulo precisa saber o que quer e deixar isso claro para seus jogadores e comissão técnica. Caso contrário, a eventual eliminação para o Corinthians nas semifinais do Paulista não será a maior decepção do Tricolor no primeiro semestre.

O Gauchão é importante, sim

Virou um clichê falar que campeonato estadual não vale nada. Ou que vale pouco. Só serviria de aquecimento para a temporada de verdade – Brasileirão – e para atrapalhar quem está na Libertadores ou na Copa do Brasil. Há muito de verdade nisso, mas é assim em condições normais. Por exemplo, 2009 é um ano atípico para o Internacional. Por isso, uma eventual conquista do Campeonato Gaúcho deve ser bastante festejada.

O universo colorado muda na medida em que o clube comemora seu centenário. No Brasil (um país relativamente jovem que ainda não se acostumou a ver coisas sobreviverem por séculos a fio), comemorar 100 anos com glórias virou obsessão. Um sentimento que rapidamente se transforma em pressão. O Flamengo foi o caso mais famoso, mas a série de clubes que caíram nessa armadilha é grande. O último foi o Atlético Mineiro, no ano passado.

O Internacional não vive situação diferente, até porque teve grandes títulos em um passado recente. Assim, pelo menos na visão da torcida e da imprensa, não deveria ter dificuldade e levar mais um neste ano. Claro que o sonho do clube era a Libertadores e o Mundial, algo que se tornou impossível após a campanha mediana no Brasileirão 2008. Agora, vencer a Série A é a missão.

Se fosse fácil assim… Ano passado, com um elenco quase igual ao atual, o time não atingiu esse objetivo. E, ainda que a equipe de Tite entre como favorita no Brasileirão (e é indiscutível que entra), não há como garantir que o título vá para o Beira-Rio na primeira semana de dezembro. Nesse cenário, qualquer título já é importante para garantir que o centenário não passe em branco.

Por isso, conquistar o Gauchão, ainda mais de forma invicta e com três vitórias em Gre-Nais, seria muito importante para o Internacional. Com um troféu em mãos, os jogadores terão um pouco menos de cobrança para o resto da temporada (a não ser que o Grêmio conquiste a Libertadores), algo fundamental para fazer uma grande campanha no segundo semestre.

Assim, se o Inter vencer o Caxias e conquistar a Taça Fábio Koff (e o título estadual por antecipação), tem todo o direito de comemorar. Não que o Gauchão preencha a cota de títulos imaginada pelos torcedores colorados para o ano do centenário. Mas será um feito importante psicologicamente para que o segundo semestre seja de acordo com o sonhado.

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Equipe Trivela

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