Um Fla x Vasco para falar da arbitragem, mas também para discutir responsabilidades

Confesso a você, caro leitor, que é um tanto quanto frustrante escrever o texto sobre um jogo como o Flamengo x Vasco deste domingo. Um dos maiores clássicos do país, após duelo movimentado que terminou com o empate por 2 a 2, poderia ser abordado em diferentes aspectos: a maneira como os rubro-negros lidaram com os desfalques, a afirmação de Berrío, a postura até ousada dos cruz-maltinos agora sob as ordens de Milton Mendes, a influência que Nenê continua exercendo sobre seu time. Se quisesse, dava até para pegar o extracampo, sobre o público no Mané Garrincha. Mas não. É impossível traçar qualquer linha de raciocínio sem que ela seja invadida pela arbitragem. Mais especificamente, pelo apito desastroso de Luís Antônio Silva dos Santos.
Este espaço, portanto, fica dedicado a uma “contracrônica” do jogo – que, em menor escala, também poderia ser aplicada ao São Paulo x Corinthians. Porque é um tanto quanto inútil, ainda assim, tentar focar em algum detalhe da partida quando você sabe que tudo vai descambar pelo mesmo caminho. Para a mesma discussão ferrenha. E o mais irônico é que, diante de uma atuação marcante do árbitro, como a deste domingo, até os rivais convergem suas opiniões, fenômeno raro, por mais que cada um defenda o seu. Só os homens do apito para criarem uma unanimidade no futebol brasileiro: a reclamação. Não que isso seja bom. Mas provavelmente é o único ponto em que há uma “união nacional” ao redor da modalidade. E, que digam que “toda unanimidade é burra”, talvez a burrice não esteja exatamente no fato de ser unânime.
Chegamos ao ridículo de as condenadas encenações serem protagonizadas pelo próprio árbitro, quando não há, na face da Terra, qualquer motivo para isso. Quem ele queria ludibriar? Quem ele queria convencer, diante de tantas câmeras registrando o ocorrido? Embora tivesse a sua parcela de razão em punir Luís Fabiano por peitá-lo, sua ação perde um tanto de confiabilidade agindo daquela forma. Já ao final do jogo, cometeu um erro determinante para o empate em 2 a 2. Nada diferente do que estamos acostumados a ver. Infelizmente.
As melhorias na arbitragem brasileira dependem de diferentes aspectos. Inclusive da atitude, que não pode descambar ao absurdo, de diferentes maneiras, como foi no Mané Garrincha. E, vale dizer, não é só a CBF ou os árbitros que têm sua parcela de responsabilidade na questão. A própria imprensa tem, na espetacularização da polêmica em busca da audiência. Os torcedores, que não serão menos apaixonados por admitir que seu time se beneficiou, do mesmo jeito que não serão mais espertos ao bradarem que “roubado é mais gostoso”. E, claro, os jogadores, atores que compartilham o palco com o juiz.
Neste último sentido, voltando ao que aconteceu em Brasília, também desanima um pouco ver as declarações de Nenê na saída de campo, justo um dos mais experientes, um daqueles que servem de referência – e que, fique o registro, poderiam ter vindo de um jogador do Flamengo. “Na maioria das vezes, é contra a gente. Uma vez, veio para a gente”, afirmou o veterano, aos microfones do Sportv. Óbvio que é dificílimo esperar qualquer altruísmo. Mas esta ‘Lei de Gerson’, defendida sem pudores, perpetua o quadro crítico.
A mudança necessita de compreensão. Luís Antônio Silva dos Santos foi afastado e deve passar pela tal “reciclagem”. O problema é quando muito se remedia e pouco se previne – seja com melhor preparação, seja com orientações mais claras, seja até com a introdução de novos meios auxiliares. Além disso, as ações dependem de uma colaboração ampla, não apenas da capacidade das entidades gestoras. No entanto, ao invés de cada um fazer sua parte e tentar atenuar o caos, pelo contrário, querem tirar sua lasquinha e se aproveitar disso. E, aqui, deixo livre sua imaginação para fazer o paralelo que quiser com outra área da sociedade brasileira, não apenas o futebol.
Quanto a mim, como imprensa, cabe também olhar para o próprio umbigo. Há uma prática arraigada de se sobrevalorizar muitos erros apenas para “esquentar a pauta”. Na Itália, há até um termo para isso, a moviola, embora o “polêmica” em português caiba muito bem. E é esta postura recorrente que alimenta a histeria ao redor do assunto arbitragem. Enquanto não existir um pouco mais de ponderação de todas as partes, fica mais difícil de chegar a uma evolução. Mas, no momento, isso soa como utopia. Tão utopia quanto falar do Flamengo 2×2 Vasco sem que a insatisfação com o árbitro contamine o debate. Está tudo intimamente interligado. E, reitero, é um saco pensar em um texto quando você sabe que qualquer análise além do apito será em vão.



