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Um beijo pro Jô! Apaixonado por futebol, Jô Soares pediu pontas em 1982, invadia programas de TV e contracenou com um jovem Pelé

O humorista, escritor e apresentador morreu nesta sexta-feira, aos 84 anos

Ainda bem que não foi diplomata. Seria uma pena se o talento de Jô Soares tivesse ficado escondido no Itamaraty, como era o seu plano, ainda jovem e estudando na Suíça. Seria difícil, a menos que virasse chanceler ou embaixador em Washington, dar uma contribuição ao Brasil à altura de todas as suas décadas de risadas, entrevistas, personagens marcantes, livros, comentários e muito carisma.

Humorista, escritor, apresentador, o companheiro dos insones, e um apaixonado pelo Fluminense, Jô Soares morreu nesta sexta-feira, aos 84 anos, no hospital Sírio Libanês, e separamos alguns de seus melhores momentos no mundo do futebol para prestar uma merecida homenagem.

Bota ponta na seleção, Telê!

Com uma inacreditável quantidade de talento no meio-campo (Toninho Cerezo, Sócrates, Falcão e Zico), Telê Santana armou a seleção brasileira de 1982 com um quarteto no setor e apenas um ponta no ataque ao lado de Serginho Chulapa. Uma decisão tática que era contestada na época e que virou o principal bordão do personagem Zé da Galera, do programa Viva o Gordo, que era um representante da torcida que tinha linha direta com o técnico do Brasil.

Em um quadro histórico, Jô Soares, fingindo que falava com Telê em um orelhão, cobrava a entrada de pontas na escalação. “Telê, acorda Telê, quem fala aqui é o Zé da Galera. Estou ligando para fazer um apelo. Bota ponta na seleção, Telê! Para com isso, ponta é importante, Telê. Você não vê a galinha? Se ela não tem ponta no bico, como vai fazer para comer o milho?”, brincava Jô Soares.

Outro dia, ele disse, assistiu a um jogo da seleção em que o banco de reservas, o de madeira, tinha duas pontas, mas “sentado no banco não tinha uma”. “Bota ponta na seleção, Telê! Tu tem estrela, todo mundo diz isso, e estrela também tem ponta. Tem estrela até de seis pontas. Um apelo que estou fazendo, de coração. O coração também tem ponta, Telê, bota ponta nessa seleção. Você está cuspindo no prato que comeu”, completou, lembrando que Telê Santana, na época de jogador, curiosamente era ponta.

Antes da Copa do Mundo começar, Jô Soares também escreveu um artigo à Revista Placar em que justificava o seu pedido por pontas. Ele pode ser lido na íntegra aqui.

Defensor da Copa do Mundo a cada dois anos

A Fifa causou revolta ao apresentar uma proposta, produzida por Arsène Wenger, para realizar a Copa do Mundo a cada dois anos. Recebeu resistência de quase todo mundo, como Conmebol, Uefa, Trivela, mas sabem quem era a favor? “A Copa é uma coisa que puxa o melhor das pessoas. Acho que deveria ter de dois em dois anos”, disse Jô Soares, em participação no programa Arena SporTV em 2014. “Haveria menos guerras porque o mundo inteiro fica ligado. A Copa passa a ser a coisa mais importante. Isso é bom porque estimula o lado lúdico das pessoas, o lado criança. Se você vir o que tem de estrangeiro nos bares confraternizando e brincando. E você vê que o crime no Brasil é realmente organizado porque eles devem ter mandado não assaltar em massa, é um momento em que há menos crimes”.

Invasões

Fã e telespectador de esportes, Jô Soares gostava de invadir programas de futebol. Em 2012, teve uma participação marcante o antigo Bate-Bola da ESPN Brasil, apresentado por João Carlos Albuquerque. Segundo um relato na época no Yahoo, ele simplesmente apareceu na redação da emissora porque queria falar com o “Canalha”. O programa também contava com Paulo Vinicius Coelho, Mauro Cezar Pereira e Lúcio de Castro, no Rio de Janeiro, e com o convidado especial Abel Braga, que havia conquistado o Campeonato Brasileiro pelo Fluminense, clube de coração do humorista. Até convidou Abel Braga para participar de seu programa na TV Globo ao lado do músico Ivan Lins, outro famoso tricolor.

Dois anos depois, após a Copa do Mundo de 2014, Jô apareceu de surpresa no programa Bem-Amigos do SporTV, apresentado pelo seu amigo Galvão Bueno. Kaká era um dos entrevistados. Ele disse que o craque, na época no São Paulo, estava no “tricolor errado”. Cornetou Dunga, que havia substituído Felipão, e disse que não acreditava em Thiago Silva como capitão da seleção brasileira.

Família Trapo

Em um episódio da Família Trapo, programa dos anos 1960 que criou ao lado de Carlos Alberto de Nóbrega, Jô Soares fez o papel de um goleiro que tenta convencer o personagem de Ronald Golias a mudar de posição para abrir espaço a um reforço. O reforço? Edson Arantes do Nascimento.

Apaixonado pelo Fluminense, gostava mais de futebol do que do clube

Jô Soares era torcedor do Fluminense. Nunca escondeu de ninguém. Mas no fim da vida, admitiu que a paixão havia diminuído um pouco. “Com o tempo, fui me desvinculando da paixão cluâbística porque o futebol passou a me interessar mais pela sua qualidade do que pela paixão clubística. Aí não dá para assistir a qualquer campeonato europeu. Para mim, principalmente o Campeonato Inglês, e deixar de ver um jogo para assistir a um do Fluminense eu não consigo”, disse, ao programa Bola da Vez da ESPN em 2018. “Não fui eu que me afastei do Fluminense. Foi o Fluminense que se afastou da gente porque não dá para torcer por um time que de repente pinta um jogador como o Gustavo Scarpa e não sei nem que time levou. Eu gosto mais de futebol do que do clube. O que posso fazer? Não é culpa minha”.

As entrevistas com personalidades do futebol

Durante tantos anos como um dos mais famosos entrevistadores do Brasil, Jô Soares conversou com dezenas de personalidades do futebol. De Pelé a Ronaldo e Romário, ou Neymar, que esteve no último ano do seu programa na Globo, em 2016. Um momento marcante foi quando conversou com todo o time do Santos de 2010. Zé Love dançou “Single Ladies”, da Beyoncé, Madson mediu sua altura ao vivo e Neymar pediu refrigerante.

Jô Soares e a Copa do Mundo

Jô Soares estava no Maracanã na final da Copa do Mundo de 1950, quando o Brasil perdeu do Uruguai, em uma das mais dolorosas derrotas do país. Em 1954, por acaso morava na Suíça, e teve a chance de acompanhar de perto um segundo Mundial. Em 1994, lançou um livro sobre as duas experiências, junto com Armando Nogueira e Roberto Muylaert. Naquele mesmo ano, realizou o seu programa “Jô Soares Onze e Meia” direto dos EUA, onde os comandados de Carlos Alberto Parreira conquistaram o tetracampeonato mundial. Mais recentemente, em 2018, foi comentarista convidado da Fox Sports durante o torneio russo.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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