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Turco Mohamed tem diferentes qualidades que parecem encaixá-lo bem no comando do Galo

Vitorioso especialmente no Campeonato Mexicano, Turco Mohamed se apresenta como um nome bem pensado para suceder Cuca

O Atlético Mineiro entregará o legado vitorioso de 2021 nas mãos de Antonio Mohamed. E o treinador argentino soa como uma ótima escolha do Galo, para renovar as conquistas depois do Brasileirão e da Copa do Brasil. El Turco teve passagens importantes à frente de clubes do seu país, inclusive ao conquistar a Copa Sul-Americana com o Independiente. Ainda assim, sua reputação seria construída especialmente no México, onde também fez seu nome nos tempos de jogador. Mohamed conseguiu levar o título nacional na direção de três clubes diferentes (Tijuana, América, Monterrey) e chegou a ser cogitado como técnico da seleção mexicana. Os atleticanos agora contarão com esse grande personagem, que também chega com uma bela bagagem como treinador de alto nível.

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Como jogador, Turco Mohamed teve uma carreira sem tantos holofotes em outros países, mas com uma história respeitável na Argentina e no México. O atacante explodiu no Huracán, onde acumulou gols e se credenciou para a seleção argentina que conquistou a Copa América em 1991. Seria contratado pela Fiorentina, mas não jogou na Serie A, passando por empréstimos em Boca Juniors e Independiente. Isso até se transferir para o México em 1993. Mohamed foi ídolo do Toros Neza, com o qual se estabeleceu entre os melhores atacantes da Liga MX na década de 1990. Ficaria no clube até 1998, antes de defender o Monterrey. Depois disso, já com o sobrepeso evidente, rodou por outras equipes menores até se aposentar em 2003.

Turco Mohamed emendou sua carreira de treinador logo depois de pendurar as chuteiras. Começou no próprio México, ao dirigir Zacatepec, Morelia, Querétaro e Chiapas. Quando retornou à Argentina, para dirigir seu Huracán, conquistou o acesso em 2007. Ficaria dois anos com o Colón e se credenciaria ao seu grande trabalho no país, à frente do Independiente. Em outro clube que conhecia bem, por seu passado como jogador, Turco Mohamed encerrou o jejum de conquistas internacionais ao faturar a Copa Sul-Americana. Ficaria cerca de um ano em Avellaneda, mas respaldado o suficiente.

A partir de 2011, Turco Mohamed viu seu nome se estabelecer no México. Assumiu o Tijuana e realizou um trabalho transformador, que botou os Xolos como um dos principais clubes do país no momento e rendeu o inédito título nacional. Seria por lá seu primeiro encontro com o Atlético Mineiro, na inesquecível consagração de São Victor do Horto na Libertadores de 2013. Nada que diminuísse o moral do técnico no país, embora ele tenha decidido retornar à Argentina para mais um trabalho no Huracán. Assumiria depois o América, para dar continuidade ao ótimo período com Miguel Herrera, e conseguiu se sair bem apesar das turbulências. Tanto é que sua despedida aconteceu com mais um título nacional.

Mohamed teria trabalhos mais modestos nos anos seguintes. Dirigiu Monterrey e Huracán com seus maiores feitos se restringido às aparições nos torneios continentais. Neste meio tempo, também teve uma experiência frustrada na Europa à frente do Celta de Vigo. Isso até reassumir o Monterrey em 2019, no lugar de Diego Alonso. Os Rayados haviam conquistado a Concachampions pouco antes, mas não vinham em boa fase. El Turco conseguiu levar seu terceiro título no Campeonato Mexicano, num troféu que representava o cumprimento de uma promessa. A imagem do treinador em prantos, com um terço nas mãos, correu o mundo na época: ele fazia a vontade do filho, falecido em 2006, que era fanático pelo clube.

Turco Mohamed ficou no Monterrey até o final de 2020. Ao longo de 2021, não treinou equipe alguma. E a proposta do Atlético Mineiro parecia tentadora o suficiente para atuar no Brasil pela primeira vez. A adaptação do comandante ao novo ambiente é uma questão. Mas, em termos de pressão, o que ele viveu no México e na Argentina não é tão diferente do que encontrará por aqui – com um calendário mais puxado, porém. De qualquer forma, o currículo de Mohamed parece suficiente para assumir um elenco que dominou o futebol doméstico na última temporada. Isso sem falar nos predicados como técnico.

A transição de Cuca para Mohamed não deve ser das mais abruptas. O treinador gosta de aplicar um estilo de jogo vertical, muito veloz em suas investidas no ataque. Não é tão diferente da postura adotada pelo Galo em parte dos últimos meses. Obviamente, o argentino fará suas adaptações e terá suas particularidades. Mas dá para esperar uma equipe agressiva, que também marca de forma adiantada sem a bola. E que pode explorar muito bem os talentos à disposição, diante da forma como muitos bons jogadores renderam em alto nível nas mãos do Turco. Não são poucos os atletas que viveram o seu melhor momento com o técnico.

Mohamed levará para a beira do campo um estilo passional. A maneira como se relaciona com os jogadores transmite isso, e certamente facilitará desde o primeiro contato num elenco cheio de medalhões. Apesar da personalidade explosiva, Turco também é considerado um bom gestor de vestiários e um ótimo comunicador. São características que o colocam numa posição totalmente oposta, por exemplo, à de Jorge Sampaoli. Até por isso, Mohamed costuma ter muitos atletas que compram a briga por ele, assim como o comandante sabe encaixar as aptidões dentro de campo. Considerando um ciclo que precisa reafirmar os feitos, o manejo do novo treinador parece vir em bom momento.

Talvez a ascensão do Tijuana seja mais lembrada no Brasil, mas os trabalhos no América e no Monterrey são bom indícios do que Mohamed poderá fazer em BH. Nos dois casos, o argentino assumiu equipes que vinham de taças recentes. No caso das Águilas, tinha a árdua missão de substituir um técnico adorado como Miguel Herrera e num clube com pressão midiática imensa. No caso dos Rayados, assumiu um campeão continental e num momento em que a concorrência do rival Tigres era pesada no contexto nacional. Ambas as passagens foram reconhecidamente bem sucedidas pela forma como Mohamed aproveitou as bases vitoriosas.

É lógico que seu sucesso pode não acontecer num passe de mágica. Turco Mohamed será cobrado e talvez lide com a paciência curta de muitos no Brasil. Mas é fato que possui diferentes predicados que parecem se encaixar na realidade do Galo hoje. Considerando alguns nomes aventados no Atlético durante as últimas semanas, até mesmo alguns mais badalados, Mohamed provavelmente conta com perspectivas melhores para se adaptar bem em Belo Horizonte. O argentino monta boas equipes, gere bem as personalidades e tem um bom trânsito com os torcedores. Com um time qualificado como este do Galo e uma torcida fervorosa, o caminho até se mostra facilitado. Depois dos feitos em Argentina e México, emplacar no Brasil seria outro grande passo para Turco se confirmar como um técnico acima da média no contexto continental.

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Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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