Brasil

Torcida brasileira reencontra Seleção depois da Copa com silêncio, frieza e algumas vaias

Fria, xoxinha, crica, indiferente, meio morta, meio chata, fraquinha, amena. Desanimada. O adjetivo fica ao gosto do freguês. O consenso entre os torcedores ouvidos pela reportagem da Trivela após a vitória do Brasil por 2 a 0 sobre o México, no Allianz Parque, é que o público brasileiro reencontrou a sua seleção quase um ano depois dela ser humilhada pela Alemanha no Mineirão sem muita empolgação. Houve vaias e cornetas, por outro lado.

LEIA MAIS: No jogo sonolento da Seleção, Coutinho e a movimentação do time valeram alguma atenção

Nem tinha como ser muito diferente. Dunga comanda uma reformulação e a equipe está longe de encher os olhos, ainda mais sem Neymar, ocupado comemorando o título europeu do Barcelona. A competitividade de um amistoso contra os reservas do México assemelha-se à da Copa do Mundo tanto quanto um dromedário é parecido com um crocodilo. Para ajudar, nem lotado o estádio estava. O público de aproximadamente 34 mil é bom, mas não representa a capacidade máxima da arena do Palmeiras.

E algumas feridas demoram mais para cicatrizar. “Sempre tem alguém falando ‘gol da Alemanha'”, afirma a auditora Bruna Onorato, que foi ao estádio pela primeira vez na sua vida. Sem a possibilidade de comparar com outras experiências, a sua referência é a expectativa. “Esperava um pouquinho mais, talvez uma vibração maior”, admite.  “Ninguém canta, ninguém apoia, ninguém faz nada”, emenda o estagiário Lucas Miranda, de 29 anos. “Cantaram um pouco daquele ‘mil gols’, cópia de uma música da Argentina, mas nada demais”.

A música de exaltação a Pelé e crítica a Maradona foi esboçada de vez em quando, mas sem a mesma vibração ou coordenação da época da Copa do Mundo. Também houve o lamentável “bicha” para o goleiro do México, quando este se preparava para cobrar tiro de meta, como em alguns jogos do Campeonato Brasileiro. “A gente fez ola, tentamos o ‘mil gols’, mas também não rolou. Quando a torcida do Palmeiras gritou, fizeram ‘Brasil eô’, mas poucas vezes”, conta o engenheiro Henrique Couto, 23 anos. “A torcida de São Paulo é meio chata”.

A torcida paulista tem mesmo a reputação de pegar no pé da seleção brasileira, e mesmo em momentos mais gloriosos da história, vaiou o time vestido de amarelo. Foi no Morumbi que o primeiro “Adeus, Dunga” foi gritado em alto e bom som contra o atual treinador na sua passagem anterior. Vaias contra o México eram inevitáveis e ecoaram na Turiassú por volta dos 30 minutos do primeiro tempo, pouco antes de Philippe Coutinho abrir o placar. “Uma hora eu falei: ‘estamos vaiando nosso próprio time, é isso?'”, questiona a administradora Carla Ventura de Oliveira, 29 anos. “Estava um jogo mais quieto, sem energia. O clima estava bem mais ameno. O jogo não foi muito intenso também. Acho que tudo se resume nessa falta de paixão”.

Mesmo considerando que o perfil do público das arenas não é mesmo dos mais empolgantes, como não foi um amistoso de preparação contra o México, também não dá para ignorar que a torcida está desconfiada com a Seleção brasileira. Aceitou retomar o relacionamento, meio que por falta de opção, mas mantém um pé atrás. “Não tem mais aquela conexão entre a torcida e a Seleção”, relata o gerente de qualidade Robson Nobrega, 38 anos. “Isso caiu muito depois do que aconteceu (Müller, Klose, Kross, Kross, Khedira…). O estádio estava muito frio. Durante muito tempo ficava um silêncio enorme. Você até escutava os caras dentro de campo”.

Não existe nada pior do que um estádio calado e sem vibração para um time que ainda precisa recuperar a confiança depois da pior derrota da sua história. Se havia a tentativa de fazer esses amistosos de preparação para a Copa América do Chile no Brasil para reaproximar o público da Seleção, em São Paulo isso não funcionou da maneira mais desejada. Vamos ver se Dunga e companhia conseguem mais sorte em Porto Alegre.

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo