O que é ‘tolerância’ no impedimento semiautomático e como ela será aplicada no Brasileirão?
Tecnologia desenvolvida pela Genius Sports já é utilizada pela Premier League e entrará em vigor nesta temporada no futebol brasileiro
A regra do impedimento é clara: se qualquer parte do corpo que o atacante pode utilizar para marcar estiver à frente do penúltimo defensor no momento em que a bola é passada, ele estará em posição irregular. Entretanto, com as tecnologias do árbitro de vídeo, é possível haver uma “tolerância” ao ser marcado este impedimento.
A chegada das câmeras para determinar a posição de um atacante em campo e, consequentemente, se há um impedimento em determinado lance, não diminuiu as polêmicas: agora, a depender da competição a ser disputada, o atacante pode estar cinco ou seis centímetros à frente do último defensor, e ainda estar em uma posição considerada legal para fins de arbitragem.
Explica-se: as linhas utilizadas pelo VAR, para determinar a posição do atacante e defensor em campo no momento do lance, podem ter uma determinada espessura. A partir destas marcações, que são criadas digitalmente, o atacante se encontrará em posição irregular se estiver além dessas linhas.
Na Premier League, por exemplo, as linhas têm uma espessura de cinco centímetros. Portanto, se o atacante estiver até cinco centímetros à frente do último defensor, está em uma posição legal e a jogada não será anulada.
Tolerância causou polêmica na Premier League
Isso ocorreu, por exemplo, em Fulham x Liverpool, pela 20ª rodada da Premier League. O segundo gol dos Reds, marcado por Florian Wirtz no empate por 2 a 2, gerou confusão entre as câmeras da transmissão — que apontavam o meia alemão adiantado — e a tecnologia do impedimento semiautomático, desenvolvida pela Genius Sports e que validou o gol.
Harry Lennard, ex-árbitro da Premier League e diretor de arbitragem da Genius Sports, afirma à Trivela que as câmeras da transmissão da Premier League gravam menos quadros por segundo, em comparação àquelas utilizadas pelo sistema de impedimento semiautomático. Parte dessa premissa o problema no lance de Wirtz.
— Como temos câmeras mais precisas, pudemos selecionar um momento de contato mais preciso do que a filmagem transmitida, que opera com metade da taxa de quadros. Como resultado, o impedimento parecia mais marginal em nosso sistema do que na televisão, embora nossa decisão refletisse o momento real do passe — aponta.
A espessura da linha não passa pela Genius Sports, que apenas desenvolve o sistema e instala as câmeras nos estádios. No Campeonato Brasileiro de 2026, serão 24 câmeras dedicadas, capazes de gerar uma imagem em 3D com a posição do defensor e atacante no momento em que a bola é tocada. A ideia inicial era de que esse sistema fosse utilizado desde a primeira rodada, mas questões logísticas impediram esse plano.
A tolerância, discutida no duelo da Premier League entre Fulham e Liverpool, nada mais é do que a espessura da linha traçada pela tecnologia do VAR e do Semi-Automatic Offside Technology (SAOT) — o impedimento semiautomático. No Brasileirão, por exemplo, ela é mais grossa do que na Inglaterra (seis centímetros). Essa decisão é de exclusividade da liga em que o sistema será utilizado.
— É importante esclarecer que o nível de tolerância é inteiramente uma decisão da liga. Ele será decidido pela CBF, em consulta com clubes ou árbitros. Não é uma decisão tomada pela Genius. Podemos oferecer suporte a qualquer nível de tolerância, seja zero, cinco, vinte (centímetros) ou qualquer outro valor que a liga escolher, e incorporá-lo às métricas do nosso sistema — defende Lennard.
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Brasileirão terá tecnologia inédita
Inicialmente, era esperado que o sistema fosse lançado em 24 de janeiro, juntamente com a primeira rodada do Brasileirão. O contrato entre Genius Sports e CBF é de dois anos, mas as partes trabalham — a depender do resultado da tecnologia — para uma parceria de longo prazo. Nesta temporada, além do campeonato nacional, a ideia é de que a Copa do Brasil utilize o sistema.
As câmeras ainda não foram instaladas. Se nada for alterado, a tendência é que a espessura da linha de impedimento seja mantida em seis centímetros. No Campeonato Carioca de 2025, a Ferj adotou uma tolerância de 12 centímetros para medir os lances; ou seja, um atacante poderia estar até 12 centímetros a frente do defensor, com quaisquer partes do corpo, e o lance seria validado.

— A tolerância é um elemento subjetivo, mas o resultado será sempre consistente com a tolerância escolhida. Se a decisão for tolerância zero, ela se aplica igualmente a todos. Se for cinco centímetros, é a mesma para todos. Esta é uma decisão puramente da liga e da federação, não nossa. Nós somos simplesmente os fornecedores da tecnologia — argumenta Lennard.
De acordo com o “The Times”, diferentemente do que ocorre no Brasileirão com o VAR e para efeitos de comparação, a Copa do Mundo do Canadá, EUA e México não contará com a tolerância no impedimento. Além disso, a Fifa anunciou que criará avatares 3D dos jogadores, utilizando inteligência artificial para aprimorar a tecnologia semiautomática de impedimento do torneio.



