Todos torcem para Falcão dar certo, e o Sport representa uma ótima chance para ele conseguir
A primeira conversa foi no começo do ano passado, mesma época em que o Sport efetivou Eduardo Baptista no comando técnico. Uma vez que o filho de Nelsinho pulou do barco e foi para o Fluminense, nada mais natural que retomar aquele contato. Em poucos dias, a negociação foi finalizada, e nesta terça-feira, Paulo Roberto Falcão, 61 anos, conversou com jornalistas pela primeira vez sobre sua nova tentativa de se firmar no mercado de técnicos do futebol brasileiro. E ele tem uma grande chance de finalmente conseguir.
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Desde que se aposentou, o melhor trabalho de Falcão foi como comentarista da Rede Globo. Passou mais de 15 anos como um dos principais da emissora carioca, mas nunca teve tanta sorte quando se aventurou como treinador. Entrou em uma roubada na seleção brasileira, sem poder convocar jogadores que atuavam em outros países, e perdeu o título da Copa América para a Argentina. Ainda assim, deu as primeiras oportunidades a Cafu e Mauro Silva, por exemplo. Passou pelo América do México, Internacional e Japão, sem grande destaque.
Veio o grande hiato da sua carreira com a prancheta na mão, antes de ele voltar ao Colorado, em 2011. Foi campeão gaúcho, mas aguentou apenas 19 jogos até ser demitido, no rescaldo de uma sequência de três derrotas seguidas. O motivo da sua saída, porém, foi mais político que técnico: teve um aproveitamento razoável de 56%, que deveria ser suficiente para segurar o maior ídolo da história do clube por mais do que três meses.
No ano seguinte, assumiu o Bahia, em fevereiro, e também venceu o título regional, quebrando jejum de dez anos. Ficou até julho, quando uma goleada por 4 a 0 para o Fluminense e a 19ª posição do Campeonato Brasileiro causaram mais uma demissão. Tinha apenas uma vitória em dez rodadas. Durou pouco mais de cinco meses, e no total, comandou o clube baiano em 36 partidas, com outro aproveitamento razoável de 53,6%. Seu trabalho mais longo continuou sendo os quase dois anos como treinador do América do México.
Esse breve histórico das passagens de Falcão como técnico de futebol serve para mostrar que, por mais que possa ter cometido erros, sua principal dificuldade até agora foi a falta de respaldo. Nunca completou uma temporada com um clube brasileiro. Não é possível, nem para quem contrata, nem para quem analisa, saber exatamente qual o seu estilo de treinador ou sua formação tática favorita. Tem dificuldades para passar suas teorias ao elenco? Como vamos saber? Em três ou em cinco meses, é impossível sequer decorar o nome de todo mundo. Imagina dominar exatamente qual a melhor abordagem com cada um dos jogadores?
Falcão também tem uma parcela de culpa nisso. Na sua apresentação no Sport, disse que encarou outro hiato, desta vez de apenas três anos, porque as propostas que recebia eram ruins. “Não me satisfizeram, não me motivaram, não havia planejamento. Aproveitei esse tempo para conversar com alguns profissionais do mundo da bola que eu respeito”, afirmou. Informar-se é sempre saudável, mas ele não poderia ter sido tão exigente, pois ainda não tem nenhum grande trabalho para mostrar. Aposta na confiança que existe em seus conhecimentos sobre futebol e na inteligência que sempre demonstrou, mesmo dentro de campo.
Mas, de fato, escolheu bem. O Sport parece ser o lugar ideal para Falcão finalmente conseguir um trabalho sólido. Primeiro, porque está em um clube que segurou Eduardo Baptista em pelo menos dois momentos complicados (terceiro colocado no Pernambucano e após dez jogos sem vencer no Brasileirão) e que desde o começo do ano passado queria contar com seus serviços. Pode esperar no mínimo uma ou duas doses extras de confiança. Segundo, não tem uma desafio tão difícil pela frente. Busca o título da Copa Sul-Americana, e além disso, precisa apenas terminar o Campeonato Brasileiro com dignidade, na parte de cima da tabela, por exemplo. Atualmente, o time está em 11º lugar com 37 pontos. E o elenco tem qualidade mais do que suficiente para alcançar esses objetivos.
Pode dar um pouco mais da sua cara ao time no começo do ano que vem, quando disputa o Pernambucano e o Nordestão, duas competições nas quais o Sport tem definitivamente um orçamento e uma estrutura superiores à maioria dos times, e apenas em maio, mais ambientado e acostumado à função, enfrentará novamente o Brasileirão. Caso o Sport vença a Sul-Americana, também terá a Libertadores no primeiro semestre.
Falcão tem as qualidades necessárias para ser um bom treinador. Conhece futebol, o que sempre ficou claro em seus comentários, busca conhecimento, é educado, sabe se expressar com clareza e tem o respeito de todos os envolvidos com o esporte. Tanto que é muito difícil encontrar alguém que não goste dele e que não torça para que ele dê certo como técnico. Agora, o Rei de Roma finalmente tem uma excelente chance para corresponder às expectativas.



