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Eduardo Baptista fez com o Sport o que os clubes deveriam parar de fazer com os técnicos

Para um Campeonato Brasileiro com tantas trocas de técnico, a 26ª rodada deve ter sido um orgulho à parte. Figueirense, Goiás, Fluminense e Sport terminaram-na sem ninguém para comandar o treino no dia seguinte, e neste momento, apenas o Atlético Mineiro tem o mesmo profissional desde o ano passado na Série A. E se muitos clubes podem ser culpados por demissões intempestivas e falta de convicção, o Leão da Ilha não é um deles. Foi Eduardo Baptista quem interrompeu o projeto.

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Isso foi confirmado tanto pela nota oficial do Sport, que fala em “decisão unilateral” de Baptista em razão de “proposta financeira mais vantajosa”, e nas palavras do próprio treinador, que se disse “seduzido” pelo projeto apresentado por Peter Siemsen. “O Fluminense é meu prato de comida. Vim pelo meu prato de comida. Deixei uma certa estabilidade no Recife pelo que eu acho ser a oportunidade da minha vida”, afirmou, na entrevista coletiva em que foi apresentado à imprensa.

Eduardo Baptista chegou ao Sport no final de 2011 para ser preparador físico. O filho de Nelsinho ganhou a oportunidade de ser treinador quando foi efetivado dois anos depois, após a saída de Geninho. Teve a confiança da diretoria não apenas para manter o seu emprego em momentos díficeis, como na série de 10 jogos sem vencer que o time enfrentou entre o final de julho e começo de setembro, quanto para contratar jogadores que ele queria e moldar o time à sua maneira.

Em junho, dando entrevista para a ESPN Brasil, Baptista disse que conseguiu até levar o time da Ilha do Retiro para o Centro de Treinamentos, de tanto que o clube acreditou nele, e em seguida emendou: “No meu plano de carreira, vou até o fim do contrato. Pode vir a oferta que for. Não tem dinheiro que pague isso para mim. É uma ética minha, um critério meu”.

O Fluminense deve ter sido mesmo muito convincente para Eduardo Baptista voltar atrás em uma declaração tão categórica. Pegou a diretoria de surpresa, em meio a um Campeonato Brasileiro difícil, justamente no momento em que o time voltou a vencer. O sentimento de traição que os seus ex-chefes sentem só não é maior que o da torcida, que também havia depositado a sua confiança no trabalho do treinador.

Como ele próprio também havia dito, caso uma proposta fosse feita no final do ano, com a temporada encerrada, seria uma situação completamente diferente. É natural que Baptista tenha a ambição de treinar um grande clube do Rio de Janeiro. Todos têm. Mas interromper o seu trabalho no Sport abruptamente em busca de uma proposta financeira melhor e a chance de brilhar em centros mais importantes difere muito pouco do presidente que demite o treinador para dar satisfação à torcida ou criar o tal do “fato novo” para motivar o elenco.

As duas situações mostram a falta de convicção e a procura por benefícios imediatos em detrimento de planos em longo prazo. Porém, quando Baptista assume a posição de agente, de certa maneira, legitima os dirigentes a fazerem o mesmo com ele. E isso depõe contra a sua própria classe profissional em outros clubes, mesmo que as demissões de cima para baixo ainda sejam muito mais numerosas do que as de baixo para cima.

No balanço geral, o Sport ficou sem o treinador no qual apostou suas fichas; o Fluminense contratou um profissional com um perfil parecido ao dos que fracassaram recentemente no clube, Ricardo Drubscky e Enderson Moreira; e Baptista terá em mãos um time que não vence há seis partidas no Brasileirão, a seis pontos da zona de rebaixamento, com problemas de relacionamento nos vestiários entre Fred e Ronaldinho Gaúcho. Acabou sendo ruim para todo mundo.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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