América-SP e Teixeirão, dois gigantes abandonados que tentam ressurgir das ruínas
Dono do quarto maior estádio de São Paulo, time de Rio Preto tenta reconstrução paulatina para sair do buraco
Quem trafega pelo bairro Jardim Bela Vista, na rica São José do Rio Preto, sem conhecer a história da cidade, se espanta ao dar de cara com um gigante abandonado.
Em meio a casas, lotes e terrenos comuns nesta parte do município, que tem 480 mil habitantes e fica a 420 quilômetros da capital paulista, surge do nada um estádio para 35 mil lugares — o quarto maior do Estado de São Paulo.
Tão surpreendente quanto a sua aparição é saber que aquele coliseu já recebeu diversos clássicos, jogo de título de Campeonato Brasileiro (do Santos, em 2004) e até a seleção brasileira de Zagallo (Brasil 8 x 2 Gana, com gols de Marques, três vezes, Zé Maria, Rivaldo, André Luis, Sávio e Luizão, em 1996).
O aspecto do Estádio Benedito Teixeira, o Teixeirão, reflete o de seu dono. O América Futebol Clube, agremiação interiorana com a maior sequência ininterrupta na Série A1 Estadual (1964 a 1997), passará por 2025 sem um time de futebol profissional.
A esperança é uma luz no fim do túnel. Pelas mãos de uma diretoria empossada em 2024, América, fundado em 1946, e Teixeirão, inaugurado em 1996, vão sendo paulatinamente reconstruídos.

Não dá para saber quando nem quanto
— A gente não tem um prazo para dizer quando estaremos de volta à elite do Paulista. Nem sabemos quanto a reforma inteira do estádio vai custar. Mas vamos vivendo o dia-a-dia, fazendo o que é preciso — contou à Trivela o engenheiro Marcos Cezar Vilela, 64, atual presidente do clube.
— Mas sabemos que não vai ser a curto prazo. O Teixeirão está abandonado há 20 anos. E faz mais de 15 que o América não tem um time à altura de sua camisa — completa o dirigente.
Foi justamente por conta de não receber um laudo liberando o estádio que o clube teve de abrir mão da Série B, quinta e última divisão paulista, a popular “Bezinha”, neste ano.
No fim, veio a calhar. Porque ainda que entrar em campo seja importante, a hora no clube mais tradicional do noroeste do Estado é literalmente de arrumar a casa.
Com humildade, Vilela toma como exemplo os hoje mais bem sucedidos vizinhos Mirassol (6 km de distância) e Novorizontino (85 km).
— Fui conhecer o que eles fazem e nos inspiramos. Um dia, voltaremos a ter três clubes da região na elite — profetiza.

- - ↓ Continua após o recado ↓ - -
Teixeirão traz um cenário pós-apocalíptico
A reportagem visitou o Teixeirão há pouco mais de dois meses. E se assustou, quando liberada para entrar por Francisco Rosati, 79, o Chicão. Com a benção do funcionário do clube há 50 anos, a Trivela encontrou um cenário pós-apocalíptico.
Arquibancadas, camarotes e cabines de TV estavam completamente tomados por mato e lodo. Bancos de reserva e túneis de acesso aos vestiários eram intransitáveis. Quadros de força estavam arrebentados.
Nas arquibancadas, ervas daninhas e mais mato cresciam incontrolavelmente. Ferragens estavam expostas. E, diante disso tudo, por comparação, o campo de jogo propriamente estava até bom.
— Uma empresa que está nos apoiando cuidou da recuperação do gramado — contou o presidente do clube.
Vilela relata que a situação do estádio atualmente já é outra. Vestiários e banheiros foram recuperados. A ponto de equipes das categorias de base estarem jogando no local.
— Logo vamos modernizar a entrada dos vestiários. Nos jogos do sub-20, que estreia em casa no próximo dia 30, esperamos poder receber até 2 mil torcedores — crê Vilela.










Uma casa para Chicão
Entre as muitas reformas pelas quais passa o estádio, está a construção de uma modesta moradia. É lá, onde antes ficava uma loja e parte da bilheteria, que está a casa de Chicão.
Uma espécie de zelador do local, Chicão foi jogador, auxiliar, técnico e roupeiro da equipe — além de quebra-galho para toda e qualquer necessidade. Por uma sucessão de acontecimentos familiares, ele se mudou para o Teixeirão há uma década e acompanhou a ruína de perto.
— É uma casinha pequena, mas para dar mais conforto a ele. Nos últimos dez anos, ele viveu em uma antiga sala de imprensa, sem nem ao menos uma janela. A gente tem que cuidar das pessoas — diz Vilela.
Com a autoridade de quem respira o clube a meio século, o funcionário diz estar esperançoso com o novo momento.
— Hoje, está bom, está melhorando. Se depender de mim, eu vou morrer aqui mesmo — afirma.

América tem dívida imensurável, mas apoio de empresários
Vilela chegou a fazer parte da administração anterior por cerca de oito meses. Mas, em 2017, rompeu com a diretoria de Luiz Donizette Prieto, o Italiano, afastado do cargo pela Justiça em janeiro de 2024. Prieto chegou a conseguir estruturar uma SAF para o clube, que Vilela conseguiu derrubar na Justiça.
— Eles falavam que iam investir R$ 18 milhões e a gente sabia que não havia como eles conseguirem tal investimento. A ideia deles era só se manter no poder — afirma Vilela.
A situação do América é tão complicada que ainda nem foi possível dimensionar o tamanho da dívida do clube. Por anos, dívidas trabalhistas vêm correndo à revelia na Justiça.
Diante de problemas assim, mais até do que reconduzir o clube à elite, a diretoria do América luta para reconquistar a confiança do empresariado e da população local.
— Aos poucos, vamos conseguindo. Hoje, 22 empresas estão conosco, oferecendo parcerias para serviços como reformas pontuais, parte elétrica, contabilidade, parte tributária, advogados. Queremos mostrar para a cidade e a torcida que não somos como as administrações anteriores — diz o presidente do clube.
— Temos também a parte de mídias sociais e marketing funcionando. Aos poucos, vamos conseguir reconstruir o clube. Temos uma tradição que também nos dá sustentação em um momento como esse — completa.
E, num clichê irresistível, o mesmo vale para o estádio.
— Por sorte, nossa base é sólida.




