Brasil

Sob suspeita

Um foi campeão estadual invicto, vencendo três vezes o confronto direto com o maior rival e enfiando, pelo segundo ano seguido, 8 a 1 na final. O outro também levou o estadual sem perder uma partida, batendo duas vezes o tricampeão nacional e contando com o jogador (condição física à parte) mais talentoso em atividade no Brasil. Esse início de temporada colocou Internacional e Corinthians como os dois clubes mais afagados pela imprensa brasileira. Pois, no confronto direto entre ambos, será campeão quem fizer jus à fama rápida – e precipitadamente – conquistada.

Não se discute a qualidade das duas equipes. O Corinthians tem como principal virtude a solidez coletiva. A dupla de zaga mostra uma segurança rara, os laterais são competentes, Felipe voltou a passar confiança no gol, a dupla de volantes funciona e o sistema ofensivo conhece tem um sistema de funcionamento bem definido (ainda que nem sempre trabalhe bem).

O Internacional é mais espetacular. A leveza de seu ataque torna o time técnico, rápido e envolvente. Para dar suporte a isso, uma defesa experiente e uma das melhores duplas (se não a melhor) de volantes do Brasil. Para dar mais ânimo aos colorados, o banco de reservas funciona na maior parte das vezes em que é acionado.

Essa é a teoria. Uma teoria que não se reflete na prática há um tempo. Desde o primeiro tempo no jogo de volta das quartas de final da Copa do Brasil, contra o Fluminense, o Corinthians não tem uma atuação convincente. Ronaldo assumidamente perdeu sua melhor forma e o ataque se ressentiu disso. Como Dentinho e Jorge Henrique também não estão em bom momento físico, a má temporada de Douglas ficou mais evidente. O time não consegue criar e só tem se mantido em pé porque a defesa permanece segura.

Não é muito diferente no Beira-Rio. O jogo de marcação forte e saída rápida funcionou muito bem não tem dado as caras no Brasileirão. O Inter continua forte, mas não consegue mais impor seu jogo e sofre muito com isso. Na Copa do Brasil, a classificação contra Flamengo e Coritiba quase escaparam das mãos vermelhas. Para piorar, fará o jogo de ida da final sem Nilmar, Kleber, Bolívar e D’Alessandro.

Na decisão, será fundamental ao Corinthians recuperar a força no setor de armação para ter mais presença na área adversária. Os colorados contam com a volta do futebol rápido, que deixa o adversário acuado e atordoado em seu campo. Como a partida de ida é no Pacaembu, a obrigação de tomar a iniciativa é dos paulistas, o que deve deslocar o centro de gravidade do encontro para o duelo entre os volantes do Inter e os meias ofensivos alvinegros.

É nesse setor que o primeiro embate deve se definir. O problema é que, com duas equipes que não convencem completamente, fica difícil apostar em quem tem mais chances.

Cacofonia

No domingo, o Flamengo perdeu por 5 a 0 para o Coritiba em uma tarde sofrível de toda a equipe, de Bruno a Adriano. Ainda no estádio, dirigentes falaram em instituir uma nova ordem na Gávea, para aumentar o comprometimento dos jogadores. Na segunda, não se viu essa linha dura e aumentaram as especulações de que o técnico Cuca sairia. Na terça, surgiu a notícia de que o clube admitia que Adriano tinha tratamento diferente do resto do elenco, informação negada horas depois.

Nesse diz-que-diz, o Flamengo mostra estar perdido. A diretoria perdeu o comando e não sabe mais que linha seguir para tentar retomar o controle. Cuca não fica atrás, dividido entre a demonstração de poder e a compreensão de que há de se abrir mão de algumas coisas para ter um jogador como o Imperador no elenco.

Ainda que pareça lógico e óbvio que tenha havido um acordo – talvez verbal – de que Adriano terá algumas regalias, o clube reluta em admitir isso. Claro, prefere manter a imagem de que o tratamento a todos é igualitário e profissional. Ninguém fica contente: o atacante vai ao treino quando bem entende, a diretoria não sabe como inventar novas explicações e o resto do time não engole.

Muito mais fácil seria os dirigentes rubro-negros trabalharem com transparência. Se assumissem que Adriano tem regalias, a pressão sairia de suas costas e iria para a do jogador, que seria obrigado a fazer valer tal tratamento preferencial. Além disso, não precisariam desautorizar Cuca a cada resmungo do treinador.

O problema é que, para manter a autoridade nessa situação, o Flamengo teria de mostrar mais profissionalismo em suas atitudes. Pagar salário em dia é apenas uma parte disso.

Na falta de transparência e de uma administração mais consciente, o Rubro-Negro criou um clima difícil de gerir. Se continuar assim, com cada um falando uma língua diferente, o que poderia ser uma boa campanha no Brasileirão vai se transformar em crises intermitentes. E, claro, irritação da torcida.

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Equipe Trivela

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