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Sete clássicos e um funeral

A rodada final do Brasileirão 2012 não terá lá muitos encantos, ainda que esteja repleta de clássicos. A ideia de brindar a saideira do campeonato com uma série de confrontos entre rivais históricos teve uma motivação clara: dificultar as cada vez mais comuns suspeitas de “entregadas”, sejam elas justificadas ou puramente paranoicas. Ou seja, tivemos de manipular a tabela para renegar a falência moral do nosso futebol. Que coisa linda. Mas como quase tudo nessa vida tem seu lado bom e seu lado ruim, havia uma contrapartida: poderíamos ter clássicos absurdamente eletrizantes.

Já estamos na segunda temporada fazendo uso desse artifício. Sonhamos com clássicos onde os dois clubes estivessem brigando pelo título. Não aconteceu ainda. Mas e se um estiver na luta para ser campeão e outro para não ser rebaixado? Também não. Os dois lutando por uma mesma vaga na Libertadores? Quem sabe na próxima. E os dois lutando contra o rebaixamento? Seria fantástico! Mais uma expectativa frustrada. No ano passado, ainda tivemos o Vasco, sonhando com o título, enfrentando o Flamengo, que queria se garantir na Libertadores. O empate só favoreceu ao clube da Gávea. Neste domingo, teremos de nos contentar com rivais se limitando a tentar estragar os objetivos alheios.

O que não deixa de ser um belo tempero para qualquer clássico. Embora o tiro tenha nitidamente saído pela culatra em 2011. Se a intenção era evitar especulações, o que foi aquela tempestade de teorias conspiratórias que pairou sobre a goleada cruzeirense em cima do Atlético, em partida na qual o Galo poderia selar o rebaixamento do maior rival. Há de se lamentar também o esvaziamento de alguns desses clássicos. Tivessem sido disputados mais cedo, despertariam mais interesse, renderiam bilheterias maiores, mas vão passar quase como nota de rodapé nessa rodada final.

No Rio, será preciso espremer muito a rivalidade para dar algum sabor aos confrontos entre Flamengo e Botafogo e Vasco e Fluminense. No primeiro caso, o torcedor rubro-negro terá sérias dificuldades para prestar atenção na partida, com a cabeça sobrevoando as urnas que podem fazê-lo se livrar de Patrícia Amorim (e até cair nas mãos de gente pior, vai saber… ou você já não começa a desconfiar se José Maria Marin não sairá mais caro que Ricardo Teixeira?). No segundo, além dos cruzmaltinos terem dores de cabeça semelhantes às dos rubro-negros, a faixa dos tricolores já foi carimbada pelo Cruzeiro, nem esse gostinho haverá mais.

Não muito longe dali, Santos e Palmeiras se despedirão de uma temporada frustrante. O santista comemorou dois títulos (o Paulista e a Recopa), mas esperava mais, muito mais. Esperava, inclusive, que o seu presidente fosse mais corajoso ao cobrar da CBF que Neymar não o desfalcasse durante praticamente metade do Brasileiro. Sobre o Palmeiras, nada preciso dizer. São Paulo x Corinthians poderia marcar a despedida entre torcida e elenco corintianos, mas como o mando é tricolor, mesmo que o jogo aconteça no Pacaembu, os alvinegros viverão tarde de visitante. E por mais que um rival queira traumatizar o outro, estando ambos às vésperas de disputas por títulos internacionais, o corintiano já está com a cabeça no Mundial e o são-paulino na final da Sul Americana. E nem poderia ser diferente.

Pela sobrevivência

O grande clássico do domingo será jogado no Recife. O Náutico recebe o Sport nos Aflitos, ainda que a aflição esteja só do lado rubro-negro. Com a queda de rendimento do Timbu nas últimas partidas, houve até o risco de que ela valesse a sobrevivência para ambos. O Náutico fez um campeonato bastante tranquilo, mas demorou demais para conseguir a salvação matemática, que só veio na rodada passada, com um empate diante do Bahia. O Leão fez o caminho inverso. Ameaçado desde o primeiro turno, melhorou demais sob o comando de Sérgio Guedes (nos últimos sete jogos, foi um dos que mais pontuou, junto com São Paulo e Corinthians). Mas o empate contra o campeão Fluminense caiu como uma tijolada: pode ter sido tarde demais.

Além de vencer o Náutico, o Sport precisa torcer para que a Portuguesa perca da Ponte Preta, no Canindé, ou que o Bahia seja derrotado pelo Atlético Goianiense, no Serra Dourada. A julgar pelas peripécias recentes do ex-lanterna do campeonato, ainda há uma esperança. Difícil mesmo será blindar os jogadores do que acontece nas outras partidas, quando o foco precisa estar todo em vencer o clássico. Os alvirrubros estão aliviados, porém pilhados. Torcedores e jogadores acusam a imprensa local de tratar as chances de rebaixamento do Náutico de forma exagerada. Houve até desaforo do artilheiro Kieza no Twitter, pelo qual o atleta acabou pedindo desculpas.

Felizmente, uma outra estupidez não ganhará o campo. Foi cogitado que o clássico servisse também como jogo de despedida de Kuki, o maior ídolo da história recente alvirrubra. Seria uma homenagem tardia ao atacante, que deixou os campos em abril de 2010, convertendo-se em auxiliar técnico do clube. Tardia e completamente fora de hora, o que poderia soar como provocação, acirrando ainda mais os ânimos para a partida. Não que os nervos dos rubro-negros possam aflorar mais, diante do risco de ser rebaixado por um rival, em um estádio pulsando com as cores adversárias. Seria um final de ano dos mais amargos, para alguém que já começou a temporada vendo outro rival, o Santa Cruz, vencer o estadual em plena Ilha do Retiro, no dia do aniversário do próprio Sport.

O rubro-negro mais supersticioso pode se apegar ao fato de que Sport e Náutico andam num grude só, desde 2002. Naquele ano, o Leão voltava à Série B, onde já estava o Timbu. E desde então, os dois clubes sempre disputaram a mesma divisão. Não seria nada demais, caso ambos não tivessem passado por acessos e descensos desde então. Na Segundona de 2006, os rivais conseguiram uma vaga na Série A, por onde se seguraram por três temporadas, até serem rebaixados juntos. Em 2010 e 2011, seguiram se encontrando, pela Série B, tendo subido mais uma vez acompanhados um do outro para a Série A deste ano. Cabe ao Sport evitar um desencontro para 2013.
Pela história

Até por toda a polêmica gerada no clássico que fechou a participação dos dois no Brasileirão passado, Atlético Mineiro e Cruzeiro devem fazer um jogo quente. A equipe celeste passou quase sem ser notada por 2012. Agora, pode conquistar um brilhareco, caso tire o vice-campeonato dos inimigos íntimos. Os atleticanos esperam apagar as más memórias do ano passado com uma vitória categórica, o que seria o resultado mais normal, diante do que os dois times apresentaram durante o ano inteiro. Para conquistar uma vaga direta na fase de grupos na Libertadores, no entanto, o Galo depende do resultado de um confronto histórico, que será travado em Porto Alegre.

Um Gre-Nal já é um jogo tenso por natureza. É um daqueles clássicos onde as torcidas fingirão que vale tudo, mesmo que não valha nada. Ainda bem que esse vale muito. Não pela luta do Grêmio pela segunda colocação do campeonato, que tão bem faria ao planejamento tricolor para 2013, evitando que a Libertadores comece cedo demais e ainda sujeita a uma “tolimada”. Mas porque será o último de tantos Gre-Nais no estádio Olímpico, prestes a ser aposentado, com a inauguração da nova arena gremista marcada para o dia 8, com direito ao Hamburgo como convidado, relembrando o título mundial conquistado há quase 30 anos atrás.

Para o colorado, vencer esse jogo não é apenas a garantia de poder tirar uma gozação com os amigos na segunda-feira, mas sim de ter a sua zombaria registrada na história do estádio rival. Só que para isso, o Internacional vai ter de tirar forças de onde elas nem existiram durante o Brasileiro. Enquanto o Grêmio de Luxemburgo, Zé Roberto e Elano se mostra cada vez mais consistente, o Inter parece cada vez mais perdido, sem muito entender o que lhe aguarda no ano que vem. “Clássico é clássico, e vice-versa”, já dizia o poeta. Mas ao que tudo indica, a despedida do Olímpico não deve se dar em clima de funeral. A conferir.

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Ricardo Henriques

Jornalista agnóstico formado pela Universidade Católica de Pernambuco, Ricardo Henriques nasceu, foi criado e se deteriorou no Recife, cidade com a qual vive uma relação de amor (mentira) e ódio. Não seguiu adiante com seus sonhos de ser repórter esportivo, nem deu continuidade à carreira como centroavante trombador e oportunista nas areias de Boa Viagem, mas encontrou no Twitter a plataforma ideal para palpitar sobre todos os assuntos onde não foi chamado. Viciado em esportes, cinema, seriados de TV e escolas de samba, tem mania de fazer listas que só interessam a si próprio, chegando ao ponto de eleger suas musas como se selecionasse o onze inicial de um time de futebol. Esse blog não trará informações quentes de bastidores, análises táticas abalizadas ou reflexões ponderadas. O que talvez, por consequência, não traga leitores. No cardápio: ranzinzices bem humoradas, cornetadas debochadas e fartas doses de cretinice e cultura pop, temperando o que há de mais ridículo e pernóstico no mundo do futebol. PS: ele tirará uma onda com o seu time ou os seus ídolos, mais cedo ou mais tarde. Não vai adiantar você fazer careta e espernear que nem o Mourinho faz quando é contrariado. Contato: [email protected]

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