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Por que clubes mineiros estão desistindo da Série D? Quem pode entrar no lugar?

Das quatro vagas distribuídas para times mineiros na Série D, apenas duas delas serão ocupadas por seus detentores iniciais; veja o que acontece com os clubes e as vagas

Antes de cada edição da Série D, algumas equipes acabam desistindo de participar do torneio por causa de problemas financeiros. A CBF tentou aliviar o processo alterando a forma de classificação, dando as vagas para o ano seguinte em que o time se classificou pelo estadual ou copa do estado, e mesmo assim clubes seguem desistindo da quarta divisão. Mas o que se vê no estado de Minas Gerais neste ano é algo completamente diferente do normal.

Além das três vagas destinadas ao estado devido à posição no ranking de federações, Minas Gerais teria um quarto representante porque o Pouso Alegre foi um dos rebaixados na última edição da Série D. As três vagas de Minas foram alocadas aos melhores times do Campeonato Mineiro de 2023 que não participam de competições nacionais: Villa Nova (6º), Democrata de Governador Valadares (8º) e Ipatinga (9º).

Até o momento, duas equipes informaram à Federação Mineira de Futebol (FMF) que não poderão disputar o torneio, e outras duas confirmaram a participação: Pouso Alegre, que caiu da Série C, e o Ipatinga, terceiro melhor colocado do Mineiro que não tinha vaga em uma das divisões nacionais.

Os desistentes

Dois clubes informaram a FMF e publicaram notas oficiais afirmando que não participarão do torneio: o Villa Nova e o Democrata de Governador Valadares, que ficaram em sexto e oitavo lugares do último Mineiro, respectivamente.

Segundo reportagem de Leonardo Gimenez e Hugo Lobão, da Itatiaia, o Villa Nova precisou desistir da competição porque sofreu um bloqueio judicial de R$ 1,4 milhão, cerca de metade do valor necessário para disputa da Série D, por causa de dívidas trabalhistas.

Após o empate contra o Ipatinga por 3 a 3 nesta quinta-feira (8), a diretoria do clube postou uma nota no Instagram afirmando que a participação na Série D não é viável e que “poderia jogar para a torcida e deixar para a próxima gestão salários atrasados, dívidas com fornecedores e novas ações judiciais”, mas que “como torcedores gestores, não é o correto a se fazer”.

A situação financeira também foi o que fez o Democrata de Governador Valadares abdicar da vaga na Série D. Também nesta quinta-feira, o clube postou uma nota no Instagram, afirmando que a direção “chegou à conclusão de que não dispõe dos meios financeiros suficientes para sustentar de maneira adequada e condigna a participação no certame”. A nota também faz menção aos outros times do estado que desistiram da competição e aos “bloqueios financeiros enfrentados pelos clubes mineiros”.

E o Pouso Alegre?

A situação do Pouso Alegre era extremamente curiosa, já que o time estava na Série C do ano passado. E após relatos da imprensa mineira afirmarem que o clube não disputaria a Série D, a diretoria do Pousão voltou atrás e teve a participação confirmada pelo diretor de competições da FMF, Leonardo Barbosa, à Itatiaia. No início da noite desta sexta-feira, o clube postou no Instagram que estava confirmado no torneio.

Assim como os clubes que desistiram da competição, o Pouso Alegre vive uma situação financeira bastante complicada que fez a diretoria questionar se seria possível disputar a Série D. Na postagem confirmando a participação, o Pousão faz um apelo aos torcedores:

Sejam sócios-torcedores, compareçam aos jogos, consumam produtos oficiais e façam parte dessa nova remontada do Pousão.

Recentemente, o presidente Rogério Paiva atribuiu a má fase no Campeonato Mineiro aos problemas financeiros que caem sobre o Pousão. Até 2022, o clube ainda conseguia usar recursos provenientes da prefeitura após a desapropriação do Campo da Lema, terreno onde o clube tinha um estádio pequeno, em 2018.

– O Pouso Alegre, até 2022, tinha recursos da venda do terreno. Esses recursos foram consumidos, eram recursos onde você conseguia montar um bom time, antecipar as contratações, às vezes manter uma base de um ano para o outro. Infelizmente, esses recursos se foram. Esses recursos, em 2022, já estavam escassos, visto que até já corremos risco de rebaixamento [no Campeonato Mineiro] – disse Paiva em entrevista aos veículos locais EPTV e Terra do Mandu.

Como as vagas dos desistentes são realocadas?

De acordo com os últimos regulamentos específicos da Série D dos últimos anos – o deste ano ainda não foi publicado -, as vagas são destinadas às federações, que decidem como fazer a distribuição (alguns estados dão vagas para os campeões de copas). Em Minas Gerais, todas as vagas vão para o campeonato estadual, e assim, até quem foi rebaixado e brigou para não cair no último ano poderá disputar o torneio nacional.

Quem se beneficiou com as desistências – pelo segundo ano seguido – foi o Patrocinense. Após receber o convite da FMF, a equipe de Patrocínio (a cerca de 414 km de Belo Horizonte) decidiu aceitar e participar da quarta divisão brasileira. O CAP postou em seu Instagram para anunciar a decisão e protocolou documento junto à FMF nesta sexta-feira (9).

No último ano, o Patrocinense também garantiu sua vaga na Série D por causa de desistências. Na oportunidade, Caldense e Villa Nova alegaram motivos financeiros para não disputar o torneio. A Águia aproveitou ao máximo a oportunidade, tendo sua melhor participação na quarta divisão, caindo nas oitavas de final para a Portuguesa-RJ.

 

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Mesmo sendo rebaixada para o Módulo II do estadual, a Caldense deve ser a última representante mineira na Série D. A equipe foi procurada pela FMF após as desistências e pretende aceitar o convite, segundo Sérgio Maracanã, diretor de futebol da Caldense, confirmou à Itatiaia.

Caso a Caldense não aceite o convite, a FMF conta com uma lista de três clubes: o Democrata de Sete Lagoas, último colocado do Mineiro de 2023, e os dois times que subiram do Módulo II, o campeão Itabirito e o vice Uberlândia.

E o Santa Cruz?

Eliminado na primeira fase do Campeonato Brasileiro da Série D em 2023, o Santa Cruz estava com seu calendário ameaçado por conta da má campanha que fez na competição nacional e dependia de uma classificação para a fase de grupos da Copa do Nordeste para garantir um uma quantidade de jogos um pouco maior em 2024. Porém, a Cobra-Coral foi eliminada pelo Altos-PI ainda na fase preliminar, em um jogo com roteiro dramático, daqueles que representam bem o sofrimento e dor de uma das torcidas mais apaixonadas do Brasil.

Com isso, o Santa Cruz terá somente os nove jogos da primeira fase do Campeonato Pernambucano para disputar e caso avance para as fases seguintes, poderá aumentar o montante de partidas para 14, número incrivelmente baixo para o cenário brasileiro e lamentável para um time tão tradicional do país.

Com a indefinição dos clubes de Minas Gerais sobre as vagas, os torcedores do Santa começaram a se animar nas redes sociais com uma possível vaga na Série D, já que a CBF ainda não publicou o Regulamento Geral de Competições (RGC) de 2024 e nem o Regulamento Específico da Competição (REC), e se criou uma confusão sobre os critérios.

Algumas pessoas entenderam que caso o Pouso Alegre desistisse da competição, a vaga poderia ser “devolvida” para a CBF, que, segundo o RGC, poderia repassar o convite levando em consideração o ranking de clubes. E o Santa Cruz é o primeiro clube do ranking da CBF que não está em nenhuma divisão.

Porém, o próprio presidente da Federação Pernambucana de Futebol (FPF), Evandro Carvalho, tratou de dar um banho de água fria na torcida.

– A vaga é da Federação Mineira. Sem chance – afirmou Carvalho ao ser perguntado da situação pelo NE45.

Foto de Matheus Rocha

Matheus Rocha

Matheus Rocha é natural de Uberlândia (MG), onde se formou em Jornalismo no Centro Universitário do Triângulo (Unitri) em 2014. Começou a carreira no jornalismo escrevendo colunas na Trivela antes de passar por ExtraTime e Yahoo, participando da cobertura de três Copas do Mundo e cinco Olimpíadas.
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