Brasil

Cuidado especial e respaldo: os bastidores da entrevista histórica de Vini Jr

Psicóloga Marisa Lúcia Santiago acompanha Vini Jr no dia a dia da Seleção; atacante se emocionou em entrevista histórica sobre racismo

Esgotado com as inúmeras ofensas racistas que enfrenta — e que passam impunes — na Espanha, Vini Jr desabou em lágrimas durante aquela que foi a entrevista mais importante da história da seleção brasileira, nesta segunda-feira (25). O atacante se emocionou e emocionou a muitos dos jornalistas presentes na sala de imprensa do CT do Real Madrid em um discurso corajoso e de peito aberto. E a comissão técnica de Dorival Júnior está atenta a tudo que acontece no entorno do jogador.

Conforme apurado pela Trivela, há um cuidado psicológico com Vini Jr às vésperas do jogo contra a Espanha, nesta terça-feira (26), às 17h30 (horário de Brasília), no Santiago Bernabéu. Com a chegada de Dorival Júnior, a Seleção voltou a contar com uma profissional da psicologia na comissão técnica depois de dez anos. A psicóloga Marisa Lúcia Santiago, do Bahia, foi contratada e apresentada pela CBF já em Londres na última segunda-feira (18). O cargo estava vago desde a Copa do Mundo de 2014, com Felipão.

Ela acompanha de perto o dia a dia dos atletas e tem sessões para entender como cada um dos jogadores se sente nesta Data Fifa. A profissional faz relatórios e envia ao técnico para que ele possa ter cuidado sobre alguns temas e possíveis incômodos. Às vésperas de um amistoso marcado por CBF e Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) como marco par ao combate ao racismo, há um cuidado especial com Vini Jr por tudo o que ele enfrenta diariamente em solo espanhol.

Além disso, Vinicius teve respaldo total da CBF para conceder sua entrevista. O diretor de comunicação Rodrigo Paiva recebeu duas mensagens com uma orientação para que ele pedisse aos jornalistas direcionassem as perguntas ao jogo, em si, mas ele se recusou.

A sala de imprensa do CT de Valdebebas estava lotada para a entrevista, toda conduzida com um tradutor ao lado de Vinicius Jr. O relato de jornalistas que cobrem o dia a dia do Real Madrid é de que a lotação é semelhante às coletivas de véspera de semifinal da Champions League.

A entrevista histórica de Vini Jr

Vinicius concedeu uma entrevista coletiva histórica na véspera da partida. Ele desabou em lágrimas em mais de uma oportunidade, sendo aplaudido duas vezes pelos jornalistas presentes na sala de imprensa em Valdebebas. Foi uma verdadeira lição sobre o que é sofrer com racismo, com muitas frases fortes e impactantes para tentar dimensionar o preconceito.

O atacante disse sentir que luta “sozinho” contra o racismo na Espanha, porque suas muitas denúncias nunca surtem resultados — os racistas nunca são punidos. Vini chegou a dizer que não tem mais teria desistido da luta, não fosse a representatividade que tem para mudar a vida das pessoas.

— Acredito ser algo muito triste tudo o que venho passando aqui a cada jogo, a cada dia, a cada denúncia minha vem aumentando. É muito triste isso. Não só eu, mas todos os negros sofrem no dia a dia. O racismo verbal é minoria perto de tudo o que os negros sofrem no mundo. Meu pai sempre teve dificuldade de trabalhar por ser negro. Uma escolha entre ele e um branco, sempre vão escolher um branco. Eu tenho lutado bastante por tudo o que vem acontecendo comigo. É desgastante, porque você está meio sozinho em tudo. Eu já fiz tantas denúncias, e ninguém é punido. Nenhum clube é punido. Eu luto por todas as pessoas que estão por vir, porque se fosse só por mim e minha família, eu teria desistido. Eu fui escolhido para lutar por uma causa tão importante, eu venho estudando para que no futuro, meu irmão de cinco anos não passe por isso — disse.

Em um dos momentos mais tocantes da entrevista, Vinicius chegou a dizer que tem cada vez menos vontade de jogar futebol. Foi quando ele chorou pela primeira vez.

— Acredito que eles têm que falar menos de tudo o que faço de errado em campo. Claro que tenho que evoluir, melhorar. Mas apenas tenho 23 anos, e é um processo natural. Saí muito novo do Brasil e não pude aprender tantas coisas. Eu tenho 23 anos e sigo estudando. Por que os repórteres que são mais velhos aqui na Espanha podem estudar? Eu tenho cada vez menos vontade de jogar, mas eu vou seguir lutando — afirmou, emocionado.

Abalado, mas obstinado a seguir a coletiva, Vinicius também se emocionou ao dizer que precisa fazer muito esforço para se concentrar nos jogos e não dar ouvidos aos insultos racistas. Ele fez uma longa pausa até conseguir se restabelecer para continuar a sua resposta.

— Com certeza. No futebol, tem muitas pessoas, muitos jogadores melhores do que eu que já passaram por aqui. Eu quero fazer com que as pessoas possam evoluir e que possamos ter igualdade. Que no futuro bem próximo, possa ter menos casos de racismo e que as pessoas negras possam ter uma vida normal como todas as outras. Se fosse por mim, eu já teria desistido. Eu fico em casa, ninguém vai me xingar. Eu vou para os jogos com a cabeça centrada no jogo para fazer o melhor para a minha equipe. Nem sempre é possível, porque eu tenho que me concentrar muito. Eu só quero jogar futebol e fazer de tudo pelo meu clube e minha família. — afirmou ele.

Foto de Eduardo Deconto

Eduardo Deconto

Eduardo Deconto nasceu em Porto Alegre (RS) e se formou em Jornalismo na PUCRS. Antes de escrever para a Trivela, passou por ge.globo e RBS TV.
Botão Voltar ao topo