Brasil

Se o caixa está saudável, por que o Palmeiras está vendendo seus talentos da base?

Conjuntura de fatores, inclusive o desejo dos jogadores, define a questão

Endrick, Luis Guilherme e, agora, Estêvão. Três homens de frente de talento fora do comum, que geraram muito expectativa na torcida, foram negociados pelo Palmeiras com clubes do exterior após muito pouco tempo no profissional.

As negociações têm como consequência direta dois pontos. O primeiro diz respeito ao caixa gerado. Só com o trio, o Palmeiras tirou dos clubes europeus 171 milhões de Euros – 80 mi por Endrick (Real Madrid), 30 mi por Luis (Aston Villa) e 61,5 por Estêvão (Chelsea): R$ 994 milhões.

Ainda que exista controvérsia quanto ao valor da negociação de Endrick, que algumas fontes envolvidas na negociação dizem ter sido 72 milhões de euros, o valor total da venda do trio segue beirando o bilhão de reais, na casa de R$ 948 milhões.

A segunda consequência diz respeito à frustração da torcida, que gostaria de ver os três mais tempo em campo, vestindo verde e branco.

Afinal, questionam os palmeirenses, se o clube está bem financeiramente, por que o Palmeiras está vendendo os atletas com tão pouco tempo de clube?

Exceções fenomenais

Quando mudou a chave, em 2020, para aproveitar uma boa safra de crias, o Palmeiras vinha da ressaca de um 2019 ruim, com um caixa combalido e jovens promissores subindo do sub-20.

Foi nesse contexto que Renan, Lucas Esteves, Danilo, Patrick de Paula, Gabriel Menino, Wesley e Gabriel Veron foram para o time de cima.

O pensamento, naquele momento, era renovar as fileiras e mantê-los no clube. Mas houve um segundo ponto. Por mais talentosos que fossem, exceto por Veron, nenhum deles era tido como fenômeno. As propostas que chegavam eram passíveis de serem negadas, inclusive pelas equipes dos atletas.

Apesar de já rodado, Gabriel Veron tem apenas 21 anos e busca se firmar no Cruzeiro
Apesar de já rodado, Gabriel Veron tem apenas 21 anos e busca se firmar no Cruzeiro – Foto: Staff Images/Cruzeiro

Luis Guilherme e, principalmente, Endrick e Estêvão são de outra linhagem. Desde o sub-15, o Palmeiras vem recebendo aproximações pelos jogadores com sinalizações de valores astronômicos. Tais ofertas, é claro, também chegam ao conhecimento dos jogadores, seus agentes e familiares.

E chega um momento — e um valor — , em que mesmo que o clube deseje manter o jogador, não há o que fazer. O primeiro contrato profissional, aos 16, só permite três anos de vínculo. E por mais que o Palmeiras pague muito bem, e que os pais dos atletas vejam o clube como um valioso e justo parceiro, os valores oferecidos pelos europeus são muito superiores.

 

Em muitos casos, a vontade do jogador é o que define o momento da venda.

A idade pesa

Outro ponto que colabora para a saída precoce dos jogadores é o tempo. Quanto mais jovem um atleta é negociado, maior será seu valor potencial.

Os europeus muitas vezes preferem pagar mais por um jogador com base em suas observações nas categorias de base do que esperar para ver como será sua transição para o profissional no Brasil. Entendendo que, quanto antes os levarem e os aclimatarem ao futebol europeu, antes e mais eles renderão.

O caso Veron é um contra-exemplo da questão. Melhor jogador da Copa do Mundo Sub-17 em 2019, ele foi “o Endrick” de sua geração. Subiu para os profissionais como fenômeno. Mas a noite paulistana, o desempenho apenas regular no profissional e as contusões foram derrubando seu valor.

Em 2022, portanto, com dois anos de aproveitamento — considerando um período de quatro meses por lesões — o jogador, mesmo assim, foi para um clube médio-grande da Europa. O Porto pagou 10,5 milhões de euros por ele. E se arrependeu amargamente. Hoje, mais uma vez lutando contra lesões, ele está no Cruzeiro.

Giovani é outro exemplo. Em 2023, o Palmeiras negociou o ponta por 9 milhões de euros com o Al Saddd do Qatar. Quando ainda estava na base, as ofertas por ele eram maiores. Mas ao subir, e ser mais um a jogar menos do que se esperava, teve também ter uma lesão de tornozelo. E seu valor caiu.

Elenco equilibrado

A terceira razão para o Palmeiras vender seus jovens jogadores são os títulos no profissional. Ao contrário de 2019, o Palmeiras não vive um momento de ressaca, nem uma necessidade drástica de mudança de pensamento.

O que justifica as saídas de jogadores jovens, sem que haja necessidade de o time profissional absorvê-los, é o desempenho da equipe de Abel Ferreira.

Mantendo a base de seu elenco desde 2020, o Palmeiras vem mantendo um excelente ritmo de conquistas, com um elenco sem buracos, com contratações de atletas de primeira linha, com potencial e valores altos — casos de Aníbal Moreno, Lázaro, Felipe Ânderson, Maurício e Giay.

Felipe Anderson e Leonardo Holanda, gerente jurídico e de negócios do Palmeiras, em Roma (Foto: Reprodução)

A força do elenco também é o que justifica que atletas de talentos nem tão badalados, mas promissores na base, deixem o clube sem atuar tanto pelo time de cima. Como os atacantes Gabriel Silva (Santa Clara de Portugal, por 1 milhão de euros) e Kauan Santos (2 milhões de euros, para o Al Shabbab, dos Emirados Árabes).

Em resumo, o Palmeiras está vendendo seus principais jogadores jovens por vontade dos próprios atletas e valores irrecusáveis para as duas partes. Mas, em contrapartida, segue mantendo um elenco forte, que se prova nas conquistas.

Para poder ter com sua camisa talentos como Endrick, Luis Guilherme e Estêvão, só mesmo os promovendo já aos 16 anos, idade mínima permitida pela CBF. Sabendo que, ao bater 18 anos, o jogador inevitavelmente dirá adeus ao clube.

Foto de Diego Iwata Lima

Diego Iwata LimaSetorista

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, Diego cursou também psicologia, além de extensões em cinema, economia e marketing. Iniciou sua carreira na Gazeta Mercantil, em 2000, depois passou a comandar parte do departamento de comunicação da Warner Bros, no Brasil, em 2003. Passou por Diário de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ESPN, UOL e agências de comunicação. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e 2018, além do Super Bowl 50. Está na Trivela desde 2023.
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