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Se quiser sair do fundo do poço, Santos precisa de comprometimento — e está começando errado

Movimentações do Santos logo após a queda para a Série B parecem equivocadas, mas Carille pode ser um acerto

Tomara que eu esteja errado, mas as primeiras movimentações do Santos em torno da formatação do time para a disputa da Série B parecem equivocadas. Retiro dessa análise a contratação de Fábio Carille como treinador. Na verdade, Carille não deveria ter saído do Santos, mas foi engolido pelo turbilhão de incompetência que ratificou o rebaixamento que se anunciava ano após ano.

Leio como equívocos as intenções noticiadas em torno das contratações de jogadores como Otero e Luiz Adriano, por exemplo. Para mim, ambos soam como o oposto da necessidade do Santos na Série B, que pode ser resumida em uma palavra: comprometimento. 

O venezuelano Otero tem 31 anos e uma carreira marcada por alguns chutes venenosos de longa distância e quase nada mais. Coleciona mais polêmicas que títulos e gols. Fez 41 partidas e quatro gols pelo Corinthians, por exemplo. Em pleno surto de Covid ele foi a um resort com o centroavante Jô. Pelo Galo fez nove gols em 104 partidas. Atualmente no Aucas, da Venezuela, tem dois gols e três passes para gol em 25 partidas disputadas. A justificativa para o interesse do Santos por Otero é econômica. O clube não precisaria fazer investimento para contratá-lo. As três movimentações mais recentes de mercado de Otero foram concretizadas sem custo. Do Galo para o Cruz Azul, do México, para o Fortaleza e para o Aucas.

Luiz Adriano construiu uma trajetória muito superior à de Otero. Aos 36 anos, parece próximo às etapas derradeiras da carreira. O desempenho recente não empolga. Teve um bom momento no Palmeiras em 2020, mas também protagonizou polêmicas com torcedores e um flagra passeando em pleno isolamento quando diagnosticado com Covid. Pelo Inter anotou somente três gols no Brasileirão. De novo, a explicação pelo interesse santista só pode ser econômica: Luiz Adriano foi do Palmeiras para o Antalyaspor e de lá para o Inter em transferências sem custo.

Repito: tomara que eu esteja errado e esses jogadores, se forem contratados pelo Peixe, tenham grandes desempenhos. Mas o histórico recente depõe contra esse otimismo.

Na Série B, Santos não pode se dar ao luxo e errar

O Santos não pode se dar ao luxo de errar para a temporada de 2024. O que parece barato na prateleira dos empresários pode sair muito caro. O perfil ideal de atleta que o time precisa para enfrentar a Série B parte da palavra mágica: comprometimento. Quanto menor a possibilidade de problemas extracampo, melhor. As questões envolvendo Soteldo, Marcos Leonardo e Jean Lucas devem servir como aprendizado.

Carille é um treinador capaz de armar equipes seguras. Seus times não jogam um futebol exuberante, mas são organizados defensivamente e tendem a perder pouco, o que gera consistência e afasta crises.

Como o Santos cometeu uma grande barbeiragem recentemente, ao afastar de sua base ex-jogadores de história e comprometimento com o clube, deixou de revelar talentos como fazia no passado. Perdeu uma fonte de reabastecimento.

Dois nomes que surgiram no radar santista parecem interessantes: os ex-corintianos Gil e Giuliano. Têm carreiras que combinam melhor com a palavra comprometimento que as de Otero e Luiz Adriano. Gil fez uma temporada muito digna. Giuliano tem potencial para jogar muito mais do que jogou, mas nunca deixou de entregar disposição em campo.

De novo: o Santos precisa ser cirúrgico para que 2024 passe voando e conduza a um 2025 na Série A. A equação pede inspiração, mas com doses cavalares de transpiração e compreensão do momento e da história do clube.

Foto de Mauricio Noriega

Mauricio Noriega

Colunista da Trivela
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