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Salários atrasados, teimosia e lideranças: os sete erros que explicam a crise do São Paulo

Uma derrota para o The Strongest, em casa, um racha de liderança entre os elencos, salários atrasados, derrota no clássico, dificuldade para eliminar o fraco Cesar Vallejo e desconfiança da torcida. Os problemas vêm desde o ano passado. Mesmo com vaga na Libertadores, novo técnico e diretoria diferente, a situação do São Paulo segue conturbada. Selecionamos sete erros, de dirigentes, dos jogadores, do técnico e até da torcida que contribuíram para isso.

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O assessor ficou

O assessor da presidência, Rodrigo Gaspar, publicou uma série de mensagens no Twitter criticando duramente alguns jogadores do elenco. Michel Bastos foi caracterizado como “uma erva daninha que deve ser cortada pela raiz”. Centurión, segundo ele, é “horroroso” e “uma piada”. Rodrigo Caio ganhou o apelido de “jogador de condomínio”. Críticas duras que vieram de um homem muito próximo ao presidente Carlos Augusto de Barros e Silva.

Mas a reação foi branda demais. Gaspar não foi demitido e recebeu o apoio de Leco publicamente. Não pelo teor das críticas, que “logicamente não refletem o pensamento da diretoria”, mas porque o presidente entendeu que seu assessor cometeu “um equívoco de cabeça quente”.

Em última análise, Leco colocou panos quentes em críticas públicas e duríssimas – até desrespeitosas -, realizadas por uma pessoa próxima a ele para não ter que trocar de assessor. Não deve ter pegado bem com o elenco.

Crise de comando

Principalmente porque os jogadores já estão pré-dispostos a não confiar muito na diretoria. Problemas de comando são antigos no São Paulo, desde a última gestão de Juvenal Juvêncio. Leco recebeu uma herança maldita de Carlos Miguel Aidar, que tocou mal a saída de Juan Carlos Osório e contratou Doriva mesmo prestes a renunciar.

Leco, porém, manteve o treinador e também alguns diretores do mandato anterior, como Ataíde Gil Guerreiro, e trouxe Gustavo Oliveira de volta.

Pior que tudo, é que na prática, com salários atrasados e casos mal conduzidos, não se mostra muito melhor que seu antecessor, e suas decisões são naturalmente colocadas em xeque.

Devo, não nego, pago quando cair o dinheiro da TV

Nem precisamos explicar porque não cumprir o acordo firmado com os jogadores atrapalha a situação do time, conturba o ambiente e é simplesmente errado, mesmo que não houvesse consequências práticas. Foram dois meses de direitos de imagem e algumas premiações pela participação na Copa Libertadores. Um erro que Carlos Miguel Aidar já havia cometido ano passado. Ao mesmo tempo, o clube contratou reforços para 2016, como Kieza.

A promessa é quitar os débitos quando entrarem os primeiros reais do novo contrato de direitos de transmissão, que foi assinado na última terça-feira. A crise, porém, motivou parte do elenco a entrar em uma greve de silêncio nas vésperas da partida contra o The Strongest.

Gritar em silêncio

A reação dos jogadores foi não falar com a imprensa para escancarar a desconfiança com a diretoria, o que é uma estratégia discutível. Se a ideia era passar uma mensagem, há maneiras melhores de fazer isso, como, por exemplo, falando com a imprensa. Mas parte do elenco, segundo a ESPN Brasil, liderada por Paulo Henrique Ganso e Michel Bastos, preferiu outra estratégia: ficar calado e responder com uma vitória contundente sobre o The Strongest.

Não deu muito certo porque os bolivianos venceram a partida do Pacaembu e a mensagem subliminar que o elenco acabou passando foi mais de corpo mole do que de protesto. Apesar de conseguirem driblar os microfones melhor do que os defensores do The Strongest na saída de campo, Lugano, Calleri, Alan Kardec e Denis, um dos capitães de Edgardo Bauza, acabaram dando entrevista nos vestiários.

No fim, a estratégia só expôs algumas discordâncias internas.

O líder que caiu do céu
Rogério Ceni e Diego Lugano, na festa de despedida do goleiro: torcida do São Paulo pedia por ele
Rogério Ceni e Diego Lugano, na festa de despedida do goleiro: torcida do São Paulo pedia por ele

Com passagens apagadas em seus últimos clubes, muitas vezes jogando pouco, e aos 35 anos, a contratação de Diego Lugano teve menos a ver com técnica do que com simbolismo. O diagnóstico é que era necessária uma liderança forte dentro do vestiário depois da saída de Rogério Ceni. Mas líderes costumam ser construídos e não impostos.

Qualquer jogador de bom senso reconhece a grandeza de Lugano e a admiração da torcida do São Paulo por ele. O uruguaio tem força no vestiário, de um jeito ou de outro, por todo o suor que já derramou no gramado do Morumbi. Mas não necessariamente será respeitado como líder por quem ainda não lutou nenhum guerra ao seu lado.

Lugano precisa jogar, bem de preferência, e mostrar aos seus novos colegas os motivos de ser tão idolatrado. Não adianta ser líder de jogadores que não estão mais lá.

Adianta?

Toda vez que Michel Bastos pegou na bola contra o Novorizontino, havia desconforto entre os poucos torcedores do São Paulo que foram ao Pacaembu. Apitos e gritos, como “Michel Bastos, cuzão, não fez mais que sua obrigação”, eram ouvidos. A principal organizada do clube, no final de semana, fez um protesto em que chamou o jogador de “Migué Bastos”.

A gênese do descontentamento foi no final do ano passado, quando ele marcou um gol contra o Sport e pediu silêncio à torcida, com aquele clássico movimento de levar o dedo à boca. Mas líder da equipe, capitão com Edgardo Bauza, Michel Bastos também ficou exposto nessa confusão da greve do silêncio acabou sendo pego para Cristo por parte da torcida do São Paulo. Um exagero, de um certo ponto de vista, e contraprodutivo para o time, de outro.

Centurión

Edgardo Bauza acabou de chegar ao futebol brasileiro e tem menos responsabilidade que jogadores e diretores, mas não está completamente isento. A insistência com Centurión é o erro mais destacado. A escolha se dá pelas características do argentino: ponta rápido que joga pelos lados e consegue marcar os adversários. Mas Centurión claramente não está em boa fase, ou não tem bola suficiente para defender o São Paulo, e vem sendo um dos piores jogadores do time. É hora de mudar.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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