Ronaldo: “Mudanças no futebol brasileiro partem da mudança no comando da CBF”
Apesar ter ficado ao lado de Ricardo Teixeira e José Maria Marin no Comitê Organizador da Copa do Mundo, e de ter abordado Marco Polo Del Nero para fazer negócios, Ronaldo virou, em público, um crítico da CBF e já disse que tem interesse de assumir a entidade um dia. Em um evento realizado no México, no gramado do Estádio Azteca, o ex-jogador voltou a criticar Del Nero, de quem, ano passado, pediu a renúncia.
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“Acho que as mudanças no futebol brasileiro partem da mudança no comando da CBF”, afirmou, em conversa com a Trivela e outros jornalistas. Pelo menos uma decisão do comando da CBF, no entanto, ele apoia integralmente. “O comando do Tite é um comando respeitável, é um cara sensacional, um administrador de grupo nato, que vai dar resultados, certamente, na seleção brasileira”, disse.
Confira os principais trechos da conversa, na qual ele falou bastante sobre treinamentos e lesões ao longo da sua carreira:
Qual foi a importância do treinamento para os seus sucessos, de tudo aquilo que as pessoas não viam? A disciplina, a dedicação.
A dedicação tem que ser 100% no futebol. Ninguém vira profissional se não se dedicar. Quando comecei, em 1993, logo nos primeiros anos, a verdade é que treinávamos muito mal. Digo no sentido de que se treinava muito com coletivos. Faziam com que eu corresse longas distâncias com o Cafu, que poderia até correr uma maratona. Mas, com o passar do tempo, isso foi melhorando. Então, a preparação física também foi melhorando muito. Começamos a treinar individualmente a qualidade de cada atleta. Sempre me dei bem com a velocidade, as arrancadas curtas, então, com o tempo, começamos a individualizá-las em treinamentos. Isso foi uma diferença muito grande. Os jogadores de meio-campo treinavam porque tinham que correr muito mais que os atacantes e os defensores. Os atacantes treinavam especificamente para suas características. Cada ano eu ia mais rápido, e fazia muita diferença. Se eu correr um décimo de segundo mais rápido que um marcador, faço o gol. O treinamento tem sido sempre muito importante.
Houve uma diferença grande de intensidade quando saiu do Brasil para a Europa?
Sim, a intensidade é completamente diferente. Hoje em dia, maneira como se treina está mais globalizada. Mas, antigamente, no Brasil, treinava-se duas, três horas, em um período. Na Europa, era uma hora, no máximo, mas com uma intensidade muito grande. O resultado era melhor porque se treina na intensidade em que vai jogar.
No treinamento, tinha coisas que você gostava e outras que não gostava. Qual você gostava e qual não gostava?
Eu sofria nas pré-temporadas, elas me matavam. Nas férias, eu já estava sofrendo pensando no que faria nas pré-temporadas. Os piores testes para um jogador de futebol é o teste de cooper, que tinha que fazer 12 minutos no máximo que pode. Eu sempre era o último nesse teste. Nos testes de velocidade, era sempre o primeiro. Gostava de treinar a velocidade. Uma época, na Inter, um preparador físico que vinha da escola de atletismo, que se chama Claudio Gaudino. Esse senhor foi fantástico, um grande amigo. Eu treinava com a equipe pela manhã, o técnico, tático, estratégia, e à tarde, na maioria das vezes, ficava com ele, para fazer técnica de velocidade. Eu treinava o que os atletas velocistas treinavam, e isso me encantava, estar no campo horas e horas falando sobre essa técnica.
Teve a oportunidade de trabalhar com grandes treinadores. Qual foi um dos seus preferidos?
Tive muitos treinadores. Para mim, o melhor foi Zagallo. Mas não posso deixar de citar outros, que foram muito importantes para mim. Luiz Felipe Scolari foi o que me levou ao Mundial de 2002, inclusive quando eu não tinha ritmo de jogo. Ele teve confiança em mim, e no final, eu retribui o favor. Foi um que sabia como conquistar os jogadores. O Zagallo também. O Vicente Del Bosque também. Teve muitos, e cada um deles me ensinou algo importante. Como me movimentar. Eu entrava muito em impedimento no começo. O Zagallo sempre me ensinou muito os movimentos.
Como vê o futebol de hoje em dia em relação ao futebol de dez, quinze anos atrás?
A intensidade, a velocidade (são diferentes). Hoje em dia, você não vê um jogador lento na partida, dificilmente o encontra. Quase todos têm muita força, muita velocidade, e quase todos tecnicamente são capazes. Antigamente, minha geração tinha muitos jogadores clássicos, o dez clássico, mais lentos, de mais qualidade, mas você via que eram especiais. Hoje em dia, vemos esse tipo de jogador muito pouco, quase nunca. Em troca, essa intensidade e velocidade fazem com que seja um esporte muito exigente, atrativo, emocionante, porque são atletas de verdade.
Mudou também a maneira como se treina hoje em dia?
Estou seguro disso. Quando eu voltava das lesões, sempre voltava melhor fisicamente porque tinha tempo de treinar, me preparar. Durante um ano com muitas partidas, não tem tempo, são muitas partidas, não tem tempo de se recuperar. Mas a diferença está no treinamento, porque é onde se prepara, onde você vê as jogadas que irá fazer nas partidas, e onde se adapta ao espaço, à área, onde conhece seu espaço. O treinamento é simplesmente muito importante.
O que você acha que faltou na sua carreira vitoriosa?
Certamente me faltaram coisas, porque o mundo do futebol é muito grande, é um universo maravilhoso, mas estou muito contente e feliz de tudo que consegui na minha carreira. Tudo que fiz foi por amor ao futebol. Queria ter tido mais tempo para conquistar mais coisas e não ter tido tantas lesões para desfrutar do futebol.
Parece factível que a Argentina não dispute a Copa do Mundo?
Não. Estou certo que a Argentina conquistará a classificação. Dois anos atrás, o Brasil estava em situação muito pior que a da Argentina e já estamos em uma situação muito melhor. Não imagino um Mundial sem a Argentina. Tem que se classificar, mas sem desesperos.
Houve mudanças no comando da seleção. Qual sua posição em relação à CBF?
Não tenho nenhuma relação com a CBF. Estou feliz que o comando técnico mudou para muito melhor. O comando do Tite é um comando respeitável, é um cara sensacional, um administrador de grupo nato, que vai dar resultados, certamente, na seleção brasileira. O comando da CBF continua o mesmo, portanto, minha opinião continua a mesma em relação à administração da CBF. Acho que as mudanças no futebol brasileiro partem da mudança no comando da CBF.
Queria perguntar sobre sua relação com Ivan Zamorano e sobre a seleção chilena, que parecia que nunca ganharia nada e ganhou duas Copas Américas consecutivas.
Faz tempo que não vejo Ivan, mas, sempre que nos encontramos, é espetacular. Joguei com ele na Inter e é uma pessoa muito agradável, tem um grande coração, e espero vê-lo muito em breve. Me parece fantástico o que fez o Chile, com uma geração de jogadores estupenda, e merecidamente ganhou as duas Copas Américas.
Qual seria seu conselho, em treinamentos, para evitar lesões?
Meu conselho é treinar sempre o corpo inteiro equilibrado porque as lesões podem acontecer quando não se está equilibrado fisicamento. As lesões musculares, principalmente, é uma questão de estar sempre 100%, preparado fisicamente e equilibrado. Alguém pode pensar que está bem fisicamente, mas se não tiver o equilíbrio, de perna direita e perna esquerda, braço direito e braço esquerdo, essa falta de equilíbrio pode causar muitas lesões.
Depois da lesão, qual seu conselho para uma melhor recuperação?
Além de toda minha vontade e determinação para voltar a jogar, é ter confiança total em seu fisioterapeuta, na equipe técnica que tem, pois é a parte de conhecer. Tem que ter uma confiança mútua.
Falcão teve uma lesão muito séria e agora está voltando. O que pode dizer a ele?
Eu acabei de vir, antes de vir ao México, estava em Bogotá, na Colômbia, e digo o mesmo: paciência. Tem que voltar toda a confiança que tinha antes e estou certo que o pior já passou e, pouco a pouco, recuperará sua confiança e terá muitos anos pela frente, tenho certeza. Quem chega a esse nível de jogador de futebol chega porque é apaixonado pelo futebol e não deixa de ser apaixonado pelo futebol assim, rapidamente. Estou certo que voltará muito rapidamente a ser o que era antes. Não deve ser muito duro consigo porque é tudo uma questão de tempo para voltar a ganhar confiança, confiar nas pernas, nos seus músculos. Isso é com o tempo.
O repórter viajou ao México a convite da Nike.



